''EUA faz terrorismo de Estado''
ALEXANDRE WERNECK
ENTREVISTA/ Tariq Ali
O escritor paquistanês Tariq Ali, de 64 anos, é uma rara voz dissonante em meio à solidariedade unânime aos Estados Unidos emanada dos quatro cantos do mundo após os atentados terroristas à Nova Iorque e Washington. Para ele, os Estados Unidos praticam o que chama de terrorismo de Estado e os ataques dessa semana foram conseqüência da política externa americana. Nascido no Paquistão e morador de Oxford, na Inglaterra, onde estudou, Ali é colaborador da New left review, revista britânica que tornou-se uma das
vozes da inteligentsia da esquerda internacional.
Observador dos conflitos entre o Ocidente e o mundo árabe, é autor de livros de história, ensaios e biografias. Também escreveu três romances que tratam diretamente da oposição entre os mundos ocidental e árabe: A sombra da romãzeira, O livro de Saladino (lançados no Brasil pela Record) e The Stone Woman (ainda sem versão brasileira). Seu último romance, Medo de espelhos, também já traduzido para o português, é um retrato das mudanças sofridas pela esquerda na Europa depois do fim da União Soviética, o que, para ele, influenciou o crescimento do fundamentalismo. É autor do texto Nossos Herodes, publicado recentemente no Brasil na coletânea Contra corrente, composta por ensaios seus e de outros colaboradores da New left review.
Neste ensaio, Ali critica o governo americano - então liderado por Bill Clinton - e o britânico de Tony Blair, acusando-os de serem responsáveis pelas mortes de 500 mil crianças de menos de cinco anos no Iraque em dez anos de embargo econômico. Em entrevista por e-mail ao Jornal do Brasil, Ali falou sobre os ataques dessa semana, explicou como os EUA fazem terrorismo de Estado e disse que a solução para o conflito tem que ser política e não militar.
- O senhor acredita que o responsável pelos ataques aos Estados Unidos foi Osama Bin Laden? Como o Talibã, que protege Bin Laden, vai reagir agora?
- Realmente não sei. Bin Laden tem negado envolvimento no ato. Ele disse que sabe que os Estados Unidos querem matá-lo e que está pronto para morrer, mas adverte que sua morte só vai produzir centenas de outros iguais a ele. Na cidade paquistanesa de Lahore, o nome mais popular para se dar a um menino que nasce é Osama. Esse é o grau de desespero de muitos que não são fundamentalistas. A menos que isso seja entendido vai haver mais desastres e mais tragédias.
- O império americano está abalado? O século 21 promete um novo cenário ou esse incidente foi apenas uma ranhura que só servirá à retórica americana contra seus inimigos?
- A ação humilhou o império, mas não o enfraqueceu nem economicamente nem militarmente. A recessão já estava no horizonte da economia neo-liberal, era inevitável.
- No ensaio Nossos Herodes, o senhor diz que os regimes de Estados Unidos e Inglaterra ''precisam ser combatidos, não avidamente apoiados''. O ataque terrorista aos EUA foi conseqüência da política externa do país?
- Sem dúvida. Por muitas décadas o povo árabe sofre os efeitos do terrorismo de Estado dos Estados Unidos e de Israel. A ocupação da Palestina, as sanções e bombardeios contra o Iraque, a destruição de uma fábrica de Aspirina no Sudão são exemplos de terrorismo de Estado. A falha dos políticos árabes tradicionais em trazer respostas para isso abriu caminho para que pequenos grupos religiosos decidissem contra-atacar da única
maneira que conheciam. O ataque ao Pentágono é resultado de fraqueza e desespero. Mas é imprescindível entender que essas pessoas fracas estão prontas para sacrificar suas vidas. Contra isso não há defesa. A solução tem que ser política e não militar.
- Como os ataques vão afetar o equilíbrio de forças entre Ocidente e mundo árabe?
- Não acredito que o que aconteceu vá afetar o equilíbrio mundial. Os EUA governam o mundo. A Europa segue atrás e Rússia e China estão confortáveis com suas guerras. Putin já reduziu a Chechênia a pó com apoio do Ocidente. A China tem seus problemas com o Tibete. Ora, por uma guerra mundial contra o terrorismo muitas coisas monstruosas vão continuar acontecendo. No mundo árabe, a dissidência vai crescer e os regimes saudita e egípcio podem até cair. Mas o que vai acontecer daí? Retaliações diretas da OTAN? Um novo colonialismo? O que isso vai resolver? Insisto que a solução deve ser política e não militar. O governo americano bombardeou uma enorme parcela do globo. Hiroshima e Nagasaki, a Coréia do Norte, o Vietnã, Bagdá, Belgrado. Antigamente, os EUA estavam certos de que os comunistas nunca conseguiriam atacar a América. Mas o inimigo hoje é teológico e não ideológico. Alá pode mover sanções que Marx e Lênin não permitiriam. E há um detalhe: o inimigo de agora já trabalhou um dia para a CIA e para o Pentágono.
- O fundamentalismo é uma das grandes questões da atualidade. O mundo contemporâneo não consegue aceitar que haja governos tão conectados a religiões e que estas promovam guerras santas. Quais são as alternativas
para o mundo árabe?
- O fundamentalismo islâmico é uma resposta ao colapso do comunismo e à hegemonia americana, mas a maioria dos partidos islâmicos no mundo é contra o Talibã, por exemplo. O problema é que os Estados Unidos apóiam a falta de democracia no mundo árabe e tem sido assim desde sempre. Os EUA tem favorecido líderes como sultões ou reis ou ditadores como Saddam Hussein, antes de se voltar contra eles. Os EUA tem medo de que a democracia possa produzir regimes que sejam hostis a seus interesses na região, ou seja, à saúde de Israel e à manutenção de preços baixos para o petróleo. Tendo o direito de escolha de seus próprios governos negado, muitas pessoas se voltam para os céus e se inclinam para a teologia. É por isso que insisto mais uma vez que a solução deve ser política e não militar. Veja o Irã hoje: eles permitiram eleições e as facções reformistas venceram. É verdade que a linha dura ainda está no poder, mas há um vigoroso debate no país, aberta ou clandestinamente. Muitos integrantes das novas gerações são contrários à teologia. Eles querem uma vida normal. E esse é um Irã que os Estados Unidos mantiveram em quarentena por anos. Egito, Argélia e Arábia Saudita são muito diferentes. A falta de democracia produz fundamentalismo. Na Argélia, os islamistas ganharam as eleições. Eles deviam ter tido a permissão de exercer o poder. A realidade poderia tê-los compelido a romper com as mais antiquadas concepções da república islâmica. Em vez disso, o exército deu um golpe (com o apoio da França) e o resultado foi uma horrenda guerra civil que custou centenas de milhares de vidas argelinas. Essas vidas são tão importantes quanto as vidas dos americanos.
- Há hoje no mundo uma imagem padrão do personagem árabe: o fanático que usa bombas e mata pessoas inocentes em nome de uma religião antiga. Como o mundo muçulmano pode mudar essa imagem? O Ocidente é muito fechado para fugir dela?
- Escrevi três romances sobre o choque entre as civilizações islâmica e cristã, o que têm ocorrido por mil anos. Trabalho agora em um quarto livro, sobre a atualidade. O fato é que todo regime árabe - à exceção do Iraque e da Líbia - está nas mãos dos Estados Unidos. O Talibã foi educado, treinado e armado no Paquistão com dinheiro e armas americanos para que eles lutassem contra os comunistas. O regime Talibã não tem como existir sem o apoio do exército paquistanês e este exército é profundamente dependente dos Estados Unidos. Em segundo lugar, existem milhões de árabes americanos. Detroit tem a maior população árabe fora do mundo arábico. Demonizar os árabes é contra-producente de qualquer ponto de vista.
- Como os Estados Unidos colaboraram na elaboração dessa imagem?
- Durante a Guerra Fria, os ''maus'', como eram mostrados por Hollywood e pela mídia de maneira geral eram os comunistas. Primeiro os da União Soviética, depois os orientais, como os chineses, os coreanos e os vietnamitas. Com o fim da Guerra Fria, o inimigo passou a ser o ''terrorista árabe''. Depois desse incidente, haverá mais árabes no papel de vilão, não tenho dúvida. É a ideologia dominante no mais poderoso império que jamais conhecemos. Temos lutado contra isso da melhor maneira que podemos. O que mais podemos fazer? O cinema iraniano, por exemplo, e escritores como eu ou Salmaan Rushdie tem apenas um impacto limitado. O império americano é dominante hoje em termos econômicos, políticos, militares e, claro, culturais. A maioria dos escritores e intelectuais do mundo islâmico são seguidores seculares do iluminismo. O problema está no coração no império, não com o mundo islâmico.
- Em geral, o que não é admitido na oposição aos EUA são os métodos. Como o senhor se posiciona?
- Nunca fui a favor do terrorismo, quer seja o individual, quer seja o de Estado. Quando estava no Vietnã do Norte, em 1965-1966, assistia aos bombardeios lançando suas cargas de morte diariamente e vendo mortes de crianças de colo e prédios destruídos... Eu dizia para meus amigos americanos: ''É uma pena que seu governo não saiba como é ser bombardeado e quais efeitos isso provoca na própria pele. Atos como esse unem um povo, mas também produzem políticos mais atentos. Bem, está acontecendo. Foi uma tragédia terrível, mas que lições tiraremos dela?
Fonte: Jornal do Brasil - http://www.jb.com.br/ - Rio de Janeiro, 14/09/2001