Carta de Cuba - Prensa Latina -

Agência Informava Latino-Americana

Ano II, Semana 24 de setembro a 30 de setembro de 2001


Cuba é contra o terrorismo e contra a guerra

Discurso do Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz, Primeiro-Secretário do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e Presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, na Tribuna Aberta da Revolução, em San Antonio de los Baños, Havana, em 22 de setembro de 2001, "Ano da Revolução Vitoriosa no novo Milênio".

Compatriotas:

Quaisquer que sejam as causas profundas, os fatores de ordem econômica e política e os grandes responsáveis que os implementaram no mundo, ninguém pode negar que o terrorismo constitui hoje um perigoso fenômeno, indefensável do ponto de vista ético, e que deve ser erradicado.

É compreensível o estado de irritação unânime do povo norte-americano pelos danos humanos e psicológicos que lhes foram causados pela morte inesperada e insólita de milhares de cidadãos inocentes, cujas imagens abalaram o mundo. Em benefício de quem ? Da extrema-direita, das forças mais retrógradas e obscurantistas, dos que defendem que se deve aplastar a crescente rebeldia mundial e liquidar com tudo o que seja progressista no mundo. Foi um erro catastrófico, uma colossal injustiça e um crime inominável, sejam quem forem os organizadores e os responsáveis por tais ações.

Mas em nome da justiça e com o singular e estranho título: "Justiça Infinita", não se deve utilizar a tragédia para dar início, de forma irresponsável, a uma guerra que na realidade poderá converter-se em um morticínio infindável de pessoas igualmente inocentes.

As bases, a concepção, os propósitos verdadeiros, os ânimos e as condições para tal guerra vêm sendo estabelecidas precipitadamente, nos últimos dias. Ninguém poderia garantir que se trata de algo não planejado já há algum tempo, à espreita apenas de uma oportunidade. Aqueles que depois do chamado fim da Guerra Fria continuaram armando-se até os dentes e desenvolvendo os mais sofisticados meios para matar e exterminar seres humanos, estavam conscientes de que os investimentos de fabulosas somas de dinheiro em gastos militares lhes garantiria o privilégio de impor o domínio total sobre os demais povos do mundo. Os ideólogos do imperialismo estavam conscientes do que faziam e para que faziam.

Por trás da comoção e da dor sincera de todos os povos do mundo pelo atroz e demencial ataque terrorista contra o povo norte-americano, os ideólogos mais extremistas e os falcões mais belicosos, já ocupando posições privilegiadas no poder, assumiram o comando do país mais poderoso do planeta, cujas possibilidades militares e tecnológicas parecem infinitas. Sua capacidade para destruir e matar é incalculável; seus hábitos de equanimidade, serenidade, reflexão e contenção são, pelo contrário, muito pequenos.

A conjunção de fatores – onde não estão excluídos a cumplicidade e o desfrute comum de privilégios de outros países poderosos e ricos – o oportunismo, a confusão e o pânico reinantes, tornam quase inevitável um desenlace sangrento e imprevisível.

Sejam quais forem as ações militares que se desencadeiem, as primeiras vitimas serão os bilhões de habitantes do mundo pobre e subdesenvolvido com seus imensos problemas econômicos e sociais, suas dívidas que não podem ser pagas, a deterioração ruinosa do preço de seus produtos básicos, suas crescentes catástrofes naturais e ecológicas, sua fome e miséria, a desnutrição maciça de crianças, adolescentes e adultos; sua terrível epidemia de AIDS, seu impaludismo, sua tuberculose, suas doenças infecciosas, que ameaçam exterminar nações inteiras.

A grave crise econômica mundial já era um fato real e irrefutável que afetava sem exceção a todos os grandes pólos de poder econômico. Esta crise se aprofundará irremediavelmente nas circunstâncias atuais e, ao tornar-se insuportável para a imensa maioria dos povos, provocará o caos, rebeliões e a ingovernabilidade em todas as partes.

O preço dessa situação não poderá ser pago nem pelos países ricos. Durante anos não se pôde falar com a clareza necessária do meio-ambiente e da ecologia, nem das idéias, nem das pesquisas realizadas e comprovadas, nem dos projetos para proteger a natureza, porque o espaço e as possibilidades existentes eram utilizados pelas ações militares, guerras e crimes tão infinitos como a "Justiça Infinita", designação com a qual se pretende desencadear a nova operação bélica.

Resta alguma esperança depois de se ouvir, há apenas 36 horas, o discurso do Presidente Bush no Congresso dos Estados Unidos?

Não usarei adjetivos, juízos de valor ou palavras ofensivas dirigidas ao autor do discurso, pois seriam totalmente desnecessárias e inoportunas em momentos tão tensos e graves quanto os que estamos vivendo, que requerem, ao contrário, reflexão e equanimidade. Limitar-me-ei a destacar algumas breves frases que expressam tudo:

"Vamos utilizar qualquer arma de guerra que seja necessária".

"O país não deve esperar apenas uma batalha, mas uma campanha prolongada, uma campanha sem paralelo em nossa história".

"Qualquer nação, em qualquer lugar, tem agora que tomar uma decisão: ou está conosco ou está com o terrorismo".

" Pedi às Forças Armadas que estejam alerta, e há uma razão para isso: aproxima-se a hora em que entraremos em ação, e vocês vão nos fazer sentir orgulhosos".

"Esta é uma luta do mundo inteiro, pois é uma luta da civilização".

" Peço-lhes que tenham paciência (...) para o que vai ser uma campanha longa"

"As conquistas dos nossos tempos e a esperança de todos os tempos dependem de nós".

"Não sabemos qual vai ser o rumo desse conflito, mas sabemos qual vai ser o desenlace (...) E sabemos que Deus não é neutro".

Peço a todos os nossos compatriotas que reflitam com profundidade e serenidade sobre as idéias contidas nas várias frases mencionadas:

  • Ou está conosco ou está com o terrorismo.

Nenhuma nação do mundo foi excluída desse dilema, nem sequer os grandes e poderosos Estados; nenhuma deixou de ser ameaçada com guerras ou com ataques.

  • Vamos utilizar qualquer arma.

Nenhum procedimento, sem importar qual do ponto de vista ético, nenhuma ameaça por mortífera que seja: nuclear, química, biológica ou outras – foram excluídas;

  • Não será um combate breve; será uma guerra prolongada, de muitos anos, sem paralelo na história.

  • É a luta do mundo inteiro, é a luta da civilização.

  • As conquistas dos nossos tempos e a esperança de todos os tempos dependem de nós.

Por último, uma confissão jamais ouvida em um discurso político, às vésperas de uma guerra, nada menos que em uma época de riscos apocalípticos: "Não sabemos qual vai ser o rumo deste conflito, mas sabemos qual vai ser o desenlace. E sabemos que Deus não é neutro".

A afirmação é assombrosa. Ao refletir sobre as partes reais ou imaginárias dessa estranha guerra santa que está a ponto de eclodir, penso que é impossível distinguir de que lado há mais fanatismo.

Quinta-feira, ante o Congresso dos Estados Unidos, foi projetado o esboço de uma ditadura militar mundial sob a égide exclusiva da força, sem leis nem instituições internacionais de qualquer tipo. A Organização das Nações Unidas, absolutamente ausente na atual crise, não teria autoridade nem prerrogativa alguma: haveria um único chefe , um único juiz, uma única lei.

Recebemos todos a ordem de nos aliarmos com o Governo dos Estados Unidos ou com o terrorismo.

Cuba, com a moral que lhe outorga haver sido o país que mais ataques terroristas sofreu durante mais tempo, cujo povo não se amedronta diante de nada (Aplausos), nem há ameaça ou poder no mundo capaz de intimidá-lo (Aplausos), proclama que está contra o terrorismo e está contra a guerra (Aplausos e exclamações). Ainda que as possibilidades estejam se tornando remotas, reitera a necessidade de evitar uma guerra de conseqüências imprevisíveis, cujos autores confessaram que não têm a mais vaga idéia de como se desenrolarão os acontecimentos. Reitera igualmente sua disposição de cooperar com todos os demais países na erradicação total do terrorismo.

Algum amigo bem intencionado e sereno deveria aconselhar o Governo dos Estados Unidos a que não lance os jovens soldados norte-americanos em uma guerra duvidosa, em lugares remotos, recônditos e inacessíveis, como numa luta contra fantasmas, os quais não se sabe onde se encontram, nem mesmo se existem ou não, e se as pessoas que matem têm ou não alguma responsabilidade pela morte de seus compatriotas inocentes que morreram nos Estados Unidos.

Cuba não se declarará nunca inimiga do povo norte-americano (Aplausos), submetido hoje a uma campanha sem precedentes para semear o ódio e o espírito de vingança, a tal ponto que se chega a impedir até a música que se inspira na paz. Cuba, ao contrário, fará sua essa música, e as canções pela paz serão cantadas até pelas crianças enquanto durar a cruenta guerra que se anuncia. Haja o que houver, não permitiremos jamais que nosso território seja utilizado para ações terroristas contra o povo norte-americano (Aplausos). E faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar ações desse tipo contra ele. Hoje lhe expressamos nossa solidariedade com a exortação à calma e à paz. Algum dia nos darão razão.

Nossa independência, nossos princípios e nossas conquistas sociais os defenderemos com honra e até com a última gota de sangue, se formos agredidos! (Aplausos e exclamações).

Não será fácil instrumentalizar pretextos para fazê-lo. E já que se fala de guerra com o emprego de todas as armas, é bom lembrar que nem sequer isso seria uma experiência nova. Há cerca de quarenta anos, centenas de armas nucleares, táticas ou estratégicas, apontavam para Cuba, e ninguém sabe que um só compatriota nosso tenha perdido o sono.

Somos os mesmos filhos desse povo heróico, com uma consciência patriótica e revolucionária mais elevada que nunca. É hora de serenidade e de coragem. O mundo tomará consciência e fará escutar sua voz ante o drama terrível que o ameaça e que está prestes a sofrer.

Para os cubanos, este é o momento adequado para proclamar, cada vez com maior orgulho e decisão que nunca:

SOCIALISMO OU MORTE!

PÁTRIA OU MORTE!

VENCEREMOS!

(OVAÇÃO)


Nem tudo está perdido, ainda

O Governo da República de Cuba, no dia 19 de setembro de 2001, emitiu a seguinte Declaração sobre o atentado terrorista nos Estados Unidos e seus desdobramentos.

Sob o efeito da comoção produzida no mundo pelo triste e brutal atentado terrorista de que foi vítima o povo norte-americano, em 11 de setembro, cujas imagens de terrível sofrimento e dor foram transmitidas por todos os meios de comunicação, mentes que cultivam sentimentos de soberba e ódio dedicaram-se à sinistra tarefa de ressuscitar velhos métodos e doutrinas que estão na raiz mesma do terrorismo e das gravíssimas tensões existentes hoje no mundo.

Vivemos momentos em que a única coisa aconselhável é a busca serena e corajosa de soluções definitivas para erradicar o terrorismo e outras tragédias, por consenso universal. Ao contrário, o que se ouve são propostas de morticínio ainda maior, pronunciadas de forma raivosa e com espírito de vingança, por dirigentes e políticos influentes dos Estados Unidos, e que não eram veiculadas desde os tempos que precederam a Segunda Guerra Mundial.

Qualquer pessoa honesta tem o direito de se perguntar se o que se pretende é realmente justiça ou utilizar a dolorosa e insólita tragédia para impor métodos, prerrogativas e privilégios que conduziriam à tirania do Estado mais poderoso do mundo, sem limites nem restrições, sobre todos os povos do planeta.

Propõe-se abertamente, através de funcionários de projeção, suspender toda e qualquer restrição ao direito de algumas instituições e pessoas poderem assassinar, a seu bel-prazer, qualquer suspeito, utilizando-se para isso de criminosos e delinqüentes mercenários, da pior índole.

Tal prerrogativa foi utilizada por governantes dos Estados Unidos para eliminar líderes patrióticos como o herói nacionalista do Congo, Patrice Lumumba, assassinado em l96l, organizar golpes de Estado e genocídios que custaram centenas de milhares de vidas, além de milhões de pessoas torturadas, desaparecidas ou eliminadas pelos mais variados métodos. Cuba denunciou centenas de planos de atentados contra seus dirigentes e nunca deixou de exigir que os responsáveis ou autores desses incontáveis atos de terrorismo, que ocasionaram elevado número de vítimas, fossem punidos. O próprio Senado dos Estados Unidos investigou e denunciou vários desses atentados contra Cuba, nos quais foram utilizadas armas de todo tipo e não excluíram nenhuma forma grosseira ou repugnante de matar. Parte importante da ciência se desenvolveu em função de tais propósitos.

O mundo não deu seu apoio unânime, nem expressou suas mais sinceras condolências ao nobre povo norte-americano para que se sobreponham a esses sentimentos doutrinas que semeariam caos e fatos sangrentos por toda parte. Tão grave quanto o terrorismo, e uma de suas formas mais execráveis, é que um Estado proclame o direito de matar indiscriminadamente, em qualquer parte do mundo, sem qualquer respeito pelas leis, pela justiça e, além do mais, sem qualquer prova. Tal política se constituiria num fato bárbaro e incivilizado, que jogaria por terra todas as normas e bases legais sobre as quais se pode assentar a paz e a convivência entre os povos.

Em meio ao pânico e à confusão originados pela atual situação, os dirigentes políticos dos diversos Estados, apesar da extrema gravidade que constituiria a introdução destes precedentes na política internacional, salvo exceções, não pronunciaram uma única palavra sobre o surgimento dessa tendência fascista e terrorista, implícitas em tais pronunciamentos.

Um dos primeiros resultados foram centenas de atos de xenofobia e terror contra pessoas de nacionalidades e religiões diferentes. O povo norte-americano não seria jamais partidário do método brutal de assassinar friamente seres humanos, violar leis, punir sem provas e negar princípios de elementar eqüidade e justiça para combater o terrorismo, por mais repugnante e inescrupuloso que este seja. São métodos que conduziriam o planeta à lei da selva; enodoariam os Estados Unidos, destruiriam seu prestígio e incentivariam ainda mais os ódios que hoje provocam tanta tristeza e dor. O povo norte-americano quer justiça; não vingança.

Cuba expressou desde o primeiro instante que nenhum problema do mundo atual pode ser resolvido pela força; que frente ao terrorismo é necessário forjar uma nova consciência e uma união universal capaz de erradicar e pôr fim a este e outros conflitos e tragédias que colocam em risco a própria sobrevivência da Humanidade.

Ainda que os tambores da guerra troem com inusitado alarde, e ao que parece, possam conduzir inexoravelmente a um sangrento desenlace, nem tudo está perdido, ainda. Os ulemás do Afeganistão, dirigentes religiosos de um povo tradicionalmente combativo e destemido, estão reunidos para tomar decisões de transcendental importância. Já afirmaram que não se opõem à aplicação da justiça e aos procedimentos a ela pertinentes, desde que os acusados dos atentados, residentes em seu país, sejam realmente os culpados. Querem simplesmente provas e garantias de imparcialidade e eqüidade no processo, algo que a Organização das Nações Unidas, com o pleno apoio da comunidade internacional, pode assegurar.

Se tais provas existem, como afirmam categoricamente os dirigentes do Governo norte-americano, e se não se exigir dos líderes religiosos que abdiquem das mais profundas convicções da sua fé, que, como é notório, eles defendem até à morte, será possível encontrar uma alternativa à guerra. Eles não sacrificariam o seu povo inutilmente, desde que se leve em conta que o que se lhes vai solicitar é eticamente irrefutável. Com isso, se evitariam rios de sangue. Este poderia ser o primeiro grande passo para um mundo sem terrorismo nem crimes impunes: uma grande associação mundial para a instauração da paz e da justiça. O povo norte-americano emergiria com enorme prestígio e respeito. Cuba apoiaria sem vacilação uma tal solução. Mas não se pode perder um minuto mais; resta-nos muito pouco tempo. Sem este elementar, sincero e possível esforço, a guerra seria injusta.


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Última atualização: 12 Abril, 2003.