GEOPOLÍTICA DA VINGANÇA

    por César Benjamin


O real significado dos atentados do dia 11 de setembro sobre a política mundial dependerá da evolução de, pelo menos, três grandes questões, a ele relacionadas.

A primeira: a inviolabilidade do território nacional, objetivo número um na escala de preocupações do Estado americano, foi quebrada. Invulnerável a ameaças de forças armadas regulares, o país mostrou-se frágil frente a essa outra modalidade de ataque. Pior: trata-se de uma fragilidade estrutural, que atinge todas as sociedades modernas, com populações concentradas em centros urbanos, altamente dependentes de instalações fixas de todo tipo, inclusive as de uso civil, transformadas em possíveis alvos.

Será longa, dificílima e cara – e de resultados incertos – a revisão de procedimentos da segurança nacional americana. Mas suas extrapolações para o mundo se anunciam muito preocupantes. No calor dos acontecimentos, o presidente George W. Bush enunciou três conceitos:

     (a) o fim do direito à neutralidade, que foi historicamente respeitado em todas as guerras, como se houvesse apenas duas possibilidades em jogo: "quem não estiver conosco estará com os terroristas";

     (b) a legitimação da idéia de "ataque preventivo" para responder a ameaças, sejam elas reais, supostas ou simplesmente inventadas (recordemos que os Estados Unidos detêm o controle dos grandes meios mundiais de comunicação de massas);

     (c) a admissão do uso de "todas as armas", feita por um país que possui grandes arsenais de armas biológicas, químicas e atômicas. Em um segundo momento, aliás, o sentido da expressão foi ampliado, quando se anunciou a possibilidade de legalizar assassinatos e admitir provas obtidas por meios ilegais, inclusive a tortura, "desde que fora do território americano". Essa última restrição – que faz par com a expressão "vidas americanas", banalizada na mídia mas cinicamente reveladora dos limites da "globalização" – mereceria uma reflexão específica. Por enquanto, basta imaginar o significado disso em um mundo em que grande número de serviços secretos ou simples esbirros estarão sob pressão para obter informações que interessem ao Império.

Sob todos esses aspectos, a busca de maior segurança no território americano – objetivo legítimo dos Estados Unidos – se faz às custas de disseminar insegurança no mundo, em uma escala nunca antes vista. Os demais Estados não podem aceitar isso. Um ponto de equilíbrio tem de ser buscado, preservando-se os valores fundamentais do processo civilizatório.

A segunda questão não é nova: diz respeito ao abastecimento de petróleo, uma conhecida vulnerabilidade americana. Com reservas, em seu território, de 28,6 bilhões de barris e um consumo diário de 19,5 milhões de barris, os Estados Unidos têm petróleo próprio para abastecer-se durante apenas quatro anos. A evolução do cenário no Oriente Médio tem sido favorável à posição americana: a principal potência regional não subordinada, o Iraque, foi destruída e permanece há dez anos sob bloqueio, remetida a uma posição defensiva, e a maioria dos Estados árabes já reconhece (ou se dispõe a reconhecer) Israel. Nos dez últimos anos, desapareceu o espectro de uma guerra entre Estados na região. O conflito ficou reduzido a uma escala local, de baixa intensidade, envolvendo helicópteros e grupamentos de soldados, de um lado, homens-bomba e atiradores de pedra, de outro, em escaramuças suficientes para alimentar noticiários, mas incapazes de colocar em risco a oferta de petróleo. Se, no contexto dos desdobramentos dos acontecimentos atuais, emergir o espectro de desestabilização "de baixo para cima" de regimes pró-americanos instalados na região, a resposta dos Estados Unidos será igualmente imediata e violenta. Mas isso, até onde se pode ver, parece improvável.

A terceira questão relaciona-se com o ataque, em marcha, ao Afeganistão. É ingênuo imaginar que uma operação de tamanho porte obedeça apenas a impulsos emocionais e seja desencadeada sem que tenha relação com metas estratégicas muito bem definidas. O Estado americano acumulou extraordinário poder nos dois últimos séculos exatamente por sua capacidade de nunca perder de vista objetivos de longo prazo, articulados entre si, subordinando a eles cada decisão relevante.

O ataque é um aparente non sense. Os Estados Unidos não apresentaram nenhuma evidência de que os afegãos tenham relação com os atentados, e a acusação contra bin Laden foi feita de forma propositalmente vaga e inconsistente, de modo a tornar impossível que o Talebã aceitasse extraditá-lo. A decisão de atacar, claramente, foi tomada à revelia dessas formalidades, o que aliás não causa surpresa: para a opinião pública e as autoridades americanas, dada a gravidade do crime cometido, submeter uma pessoa (ou um grupo) a julgamento, meses a fio, seguindo os procedimentos formais, seria uma resposta civilizada, mas fraca. A legitimação dessa decisão não parece ser um problema: ultrapassado o primeiro momento, a dinâmica da guerra passa a legitimar a si mesma.

O mais intrigante, porém, é que à primeira vista o Afeganistão parece ser um péssimo alvo. Chegar em seu território, longe do mar, já é uma encrenca. Combater lá é uma encrenca muito maior. Sua topografia é montanhosa. Suas estradas são poucas e péssimas. Sua população está dispersa no meio rural. Ao contrário do Iraque e da Sérvia, o país não possui infra-estruturas fixas, instalações produtivas e bases militares que mereçam ser bombardeadas com mísseis que custam US$ 200 milhões. Quanto às anunciadas operações de comando, os generais americanos não são imbecis para acreditar que rapazes recrutados na Califórnia encontrem bin Laden nos grotões de um país hostil em que a metade da população usa barba e turbante, enquanto a outra metade anda com o rosto coberto. Coisas assim só funcionam bem no cinema.

A resposta a esse enredo confuso pode ser rastreada por via indireta. Por seu potencial e suas dificuldades, a Ásia é a grande incógnita do sistema-mundo nas próximas décadas. De um lado, tem a segunda maior economia nacional (o Japão), a potência emergente (a China), potências regionais importantes (como a Índia, o Paquistão e o Irã), grandes massas demográficas, elevado dinamismo tecnológico, experiências de desenvolvimento rápido, empresas e bancos de grande porte, Estados nacionais ciosos de sua independência, capacidade militar (e nuclear) ascendente. Por tudo isso, será uma jogadora de grande peso no século que se inicia. Mas também tem problemas imensos: está longe de criar uma área econômica ou politicamente integrada, abriga grandes populações em estado de pobreza, permanece dividida por um sem-número de contenciosos de todos os tipos. A ordem mundial americana não foi – e não será – capaz de enquadrar esse continente "exótico", grande demais e forte demais para ser engolido (como a América Latina), marginalizado (como a África), dominado (como o Oriente Médio) ou derrotado (como a ex-União Soviética). Mas, pelo manejo de suas contradições internas, pode mantê-lo contido.

O Departamento de Estado considera que o quarto objetivo estratégico da geopolítica americana é o mais difícil de ser mantido no longo prazo. Ele é assim definido: "Que nenhum poder, ou conjugação de poderes, do hemisfério oriental possa desafiar o domínio norte-americano sobre os oceanos." Compreende-se a preocupação: o controle simultâneo dos oceanos é, de longe, o elemento central na supremacia militar em escala mundial. Tendo-o conquistado, os Estados Unidos detêm o monopólio da capacidade de deslocar e projetar suas forças em qualquer parte do mundo.

Criar uma poderosa marinha de guerra exige recursos imensos, incompatíveis com manter grandes exércitos envolvidos com problemas territoriais. Daí o permanente esforço americano de fazer com que seus competidores potenciais – especialmente os asiáticos – mantenham-se às voltas com ameaças terrestres, que os próprios Estados Unidos, por sua posição geográfica, não enfrentam. Esse tem sido, há muito tempo, o jogo americano na Ásia. Quando a extinta União Soviética começou a desenvolver uma marinha de guerra de alcance mundial, os Estados Unidos, em um lance de gênio, a atraiu para uma prolongada guerra terrestre, exatamente no Afeganistão. O resultado todos conhecem.

Uma tensão duradoura no coração da Ásia – ampliando-se a guerra civil latente na região – se ajusta perfeitamente aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Eis uma pista para entender o que vai ocorrer quando o Talebã tiver de recuar para as montanhas. O Afeganistão tem fronteiras com o Irã, o Paquistão, a China e ex-repúblicas soviéticas, além de ficar muito perto da Índia e da Rússia. Enquanto a turbulência persistir ali, todos eles precisarão manter-se voltados para dentro, consumindo recursos em desacordos recíprocos.

Depois da incursão, os Estados Unidos se retirarão em suas embarcações, tendo dado uma demonstração de poder, saciado sua necessidade de vingança e, principalmente, semeado uma cizânia que Irã, Paquistão, Rússia, China e Índia precisarão administrar por muitos anos. Enquanto isso, a grande esquadra continuará a navegar pelo mundo.

O poderio do Estado americano sairá fortalecido, mas – como os atentados dos dia 11 de setembro mostraram – isso não se aplica, necessariamente, à sua capacidade efetiva de controle sobre um mundo cada vez mais caótico.

César Benjamin é editor. Autor de A Opção Brasileira (Rio de Janeiro, Contraponto Editora, 1998) e integrante da coordenação do Movimento Consulta Popular.


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Última atualização: 12 Abril, 2003.