Menos
de um mês depois dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono,
estivemos a ponto de desistir de acompanhar os acontecimentos.
A tarefa de acompanhar os noticiários na TV, ler os jornais
e revistas e verificar as novas nos sites de notícias e em outras
fontes de informação começou a consumir mais tempo do que tínhamos
e estivemos a ponto de nos render a nossa incapacidade de absorver
a massa de informações que a mídia ia colocando a nossa disposição.
No
entanto, a medida que íamos observando repetidamente as notícias
que iam sendo vinculadas, começamos a perceber várias coisas.
Em primeiro lugar, observamos que a maioria das informações
eram redundantes e que a maioria das opiniões vinculadas pelos
“analistas internacionais” (que, nesse último mês, incluíram
pagodeiros, convidados de Hebe Camargo e primos de amigos de
pessoas que estavam em Nova York) eram a repetição do óbvio,
ou seja, apelos pela paz, solidariedade com as vítimas, etc.
Uma primeira triagem no material, assim, pôde ser feita.
Depois,
percebemos que muitas questões e problemas se repetiam indefinidamente.
Claro que os atentados afetaram o cenário internacional em tantas
esferas (incluindo desde a economia até o problema ecológico
ou a questão dos direitos civis nas sociedades ocidentais) que
seria ilógico querer resumir tudo em meia dúzia de frases. No
entanto, temos a impressão que o sistema de aforismos, de perguntas
e respostas, pode nos dar alguma luz sobre o acontecido sem
nos obrigar a escrever mais centenas de páginas, a se reunirem
às montanhas de papel que estão sendo produzidas nesse momento
no globo sobre os atentados.
1 - Este é o início da Terceira Guerra Mundial?
Não.
Qualquer analogia com Pearl Harbour é absurda, a não ser no
aspecto emocional. Todas as grandes potências se solidarizaram
com os Estados Unidos e simplesmente não existe um grande inimigo
para ser destruído numa grande guerra. Guerra contra o terrorismo,
com certeza haverá. A Terceira Guerra Mundial, não.
2 - Os Estados Unidos se revelaram débeis e fracos?
Nenhuma
nação do mundo consegue se prevenir com total eficiência do
terrorismo. Os atentados revelam uma enorme fragilidade do sistema
de proteção interna americano, uma absoluta necessidade de reorganizar
e melhorar seu serviço de inteligência e mesmo uma certa arrogância,
de que nenhum grupo terrorista teria a capacidade ou a coragem
de atacar o território americano. No entanto, o poder econômico,
militar e cultural americano continua intacto e simples atentados
como este não mudam a realidade internacional objetiva, onde
os Estados Unidos são a potência hegemônica.
3 - Este é um plano da indústria bélica americana ou da CIA?
A
idéia de que este é um plano maquiavélico montado pela CIA ou
pelo Pentágono para conseguir mais verbas ou poder é inaceitável.
Que esses grupos vão se beneficiar grandemente com o acontecido,
é óbvio. Que eles se arriscassem a um ataque dessa envergadura,
com a morte de 6 mil americanos, apenas para conseguir esses
benefícios e correndo o risco de serem descobertos, é acreditar
demais em Hollywood e no maquiavelismo da CIA.
4 - Os Estados Unidos ocultam a verdade sobre o que ocorreu?
Outro
boato que corre é que o atentado não foi praticado por Bin Laden,
mas por algum grupo terrorista americano e que o governo dos
Estados Unidos está bloqueando essa informação, de forma a poder
descarregar toda a sua fúria num inimigo exterior e unir a nação.
Ora, que seria extremamente embaraçoso descobrir que o ataque
não veio de um grupo do exterior (ainda que o padrão indique
claramente o grupo de Bin Laden) e que essa descoberta seria
terrível, desunindo os americanos ao invés de uni-los, é evidente.
Que, a partir daí, o governo de Washington pudesse efetivamente
esconder a verdade quando todo o país procura os culpados, é
novamente superestimar a capacidade desse governo e ignorar
as características abertas da sociedade americana. Não é algo
impossível, mas pouco provável.
5 - Os Estados Unidos estão tendo uma reação desproporcional?
Ao
contrário do que muita gente esperava, incluindo o autor, a
reação americana tem sido a mais comedida possível. É difícil
imaginar algum país do mundo que, com 6 mil dos seus cidadãos
mortos e um enorme arsenal a disposição, não reagisse emocionalmente,
com a força. Mas o governo Bush tem atuado de forma extremamente
cautelosa, evitando um ataque militar imediato e devastador
sem algumas certezas mínimas, costurando alianças para o combate
do terrorismo, contendo as manifestações anti muçulmanas nos
próprios EUA, etc. Provavelmente, a força vai acabar sendo usada
em algum nível e, infelizmente, parece certo que alguns civis
e inocentes vão ser atingidos pela resposta americana. Mas ela
tem sido louvável e, dentro das possibilidades, comedida. Apenas
esperar que eles recebam tal golpe sem algum nível de resposta
militar seria demais, não só dos americanos como de qualquer
povo do mundo.
6 - Os Estados Unidos vão encontrar um novo Vietnã no Afeganistão?
Outra
analogia completamente ilógica é que os Estados Unidos vão repetir
no Afeganistão a experiência soviética dos anos 80. O Afeganistão
é efetivamente um país cuja conquista é difícil. Terreno montanhoso,
tribos primitivas que nada tem a perder e que não obedecem a
um governo central que possa ser vencido e obrigado à paz, cultura
guerreira. O Afeganistão é um pesadelo para conquistadores e
a única maneira de ocupá-lo seria com o uso de força militar
imensa e aceitação de baixas intensas por longos anos. Foi o
que a URSS enfrentou nos anos 80.
Mas
por que os Estados Unidos precisariam ocupar todo o Afeganistão
por anos a fio? A URSS tentou fazer isto porque queria o controle
efetivo do país. Os Estados Unidos querem apenas destruir o
grupo de Bin Laden e garantir que o Taleban não dê mais abrigo
a grupos terroristas. Tropas especiais, ataques aéreos maciços
e ocupação rápida de algumas áreas do país podem garantir o
primeiro objetivo. O segundo deve ser deixado a cargo das rivalidades
internas do próprio Afeganistão, apoiando grupos rivais, etc.
O risco de se criarem novos focos de instabilidade ou do país
mergulhar na Guerra Civil por décadas existem, mas a possibilidade
de um envolvimento militar americano por longos anos é muito
pequena.
7 - O Brasil vai a guerra?
Nenhum
país do mundo vai escapar dessa cruzada americana frente ao
terror. O Brasil, provavelmente, vai ter que se envolver na
coleta de informações, vigilância das fronteiras, apoio logístico
aos Estados Unidos, etc, além de sofrer os impactos negativos
na economia internacional. No entanto, os boatos e idéias de
que tropas brasileiras seriam usadas são absurdos. Os americanos
podem desejar algum contingente simbólico para demonstrar o
caráter internacional da guerra contra o terror, mas nunca grandes
contingentes de tropas brasileiras para, por exemplo, invadir
o Afeganistão.
Tropas
da Europa e da Rússia seriam, talvez, bem vindas, mas os americanos
têm o material e o contingente necessário e as tropas brasileiras
não só não seriam necessárias, como, provavelmente, atrapalhariam,
por não terem nem o adestramento nem condições tecnológicas
de participar numa guerra de Primeiro Mundo. Talvez muitos jornais
brasileiros não estejam cientes da defasagem quase abissal entre
nossas Forças Armadas e as americanas.
8 - Esta é uma “Guerra de Civilizações”?
Não.
O mundo ocidental não quer destruir o Islamismo e vice versa.
Mas também não se pode negar que há um certo grau de tensão
entre um mundo ocidental rico e poderoso e um islâmico orgulhoso
do seu passado glorioso e que não consegue se conformar com
sua decadência em termos de poderio e influência frente aos
“infiéis”.
9 - O islamismo é naturalmente terrorista?
Não
há nada mais absurdo do que imaginar que o fundamentalismo é
uma exclusividade da religião islâmica ou que apenas os adeptos
dessa religião possam cometer atos terroristas. Do mesmo modo,
seria um equívoco grave tentar atribuir a todos os muçulmanos
a alcunha de terroristas em potencial. Por outro lado, é impossível
deixar de reconhecer que a religião islâmica tem certas características
(o apelo à conquista como forma de expansão da religião, a fusão
política/religião, etc) que tornam mais provável a eclosão de
fundamentalistas e terroristas em seu seio do que em outras
religiões. Não há muitos terroristas budistas ou católico ortodoxos,
por exemplo, e as diferenças de doutrina religiosa ajudam a
explicar isso. Ou seja, parece evidente que 99,99% dos muçulmanos
não são terroristas, mas sua doutrina parece oferecer mais margem
a interpretações fundamentalistas do que as outras grandes religiões
do mundo.
Do
mesmo modo, o lado fundamentalista da religião cristã, ainda
presente em boa parte da sociedade ocidental e, especialmente,
nos Estados Unidos, foi anulado pela separação entre política
e religião e pela democracia que aceita o pluralismo religioso
e defende as liberdades individuais. Uma Inquisição espanhola
não seria mais admissível no mundo ocidental pós Revolução Francesa.
No muçulmano, esses pré requisitos para uma civilização pluralista
estão pouco desenvolvidos e a perspectiva de uso da religião
com fins violentos é muito maior.
Ou
seja, enquanto sistemas éticos e de contato com o divino, cristianismo
e islamismo estão rigorosamente no mesmo patamar, como sistemas
culturais independentes e com valores próprios. O sistema ocidental,
porém, permite a convivência dos diferentes de forma menos conflituosa
(apesar de não perfeita) e, nesse aspecto, Ocidente e Islã não
estão no mesmo patamar. O relativismo na comparação entre as civilizações e religiões pode
e deve ser um pouco relativo.
10
- Taleban, Bin Laden e Estados Unidos. Todos
iguais? Ou, os Estados Unidos mereceram?
Ainda
pensando no item anterior, uma maneira de ser “politicamente
correto” nessa semana é ser contra todos. Não há bons, nem maus.
Todos estão no mesmo patamar ético e ninguém precisa ser a favor
nem contra no conflito que se avizinha. No limite, podemos ser
contra atentados terroristas do porte do acontecido (será que
alguém seria a favor?), mas deixando claro que os Estados Unidos
fizeram por merecer.
Em
muitos textos anteriores a este, criticamos veementemente diversas
políticas americanas (na gestão da economia internacional, na
resolução de conflitos regionais, na arrogância do poder) e
não vemos motivos para diminuir essas críticas. Ou seja, uma
posição pró EUA inflexível e que nunca mude seria um atestado
de ignorância e muitos americanos, inclusive, estão prontos
a compartilhar nossas críticas. Do mesmo modo, não resta dúvida
que muitas dessas atitudes americanas colaboraram para diminuir
a popularidade do país no mundo.
No
entanto, dizer que, por causa disso, devemos ser a favor de
um Taleban seria pedir demais. Pobres civis famintos do Afeganistão
evidentemente merecem nossa simpatia, mas nos recusamos a aceitar
que devemos ser pró Taleban (ou pró Saddan Hussein ou outros
menos cotados) apenas porque eles lutam contra a América. A
hegemonia americana no mundo pode ser hipócrita às vezes e colaborar
para a injustiça no mundo, mas é preferível a radicais que pensam
que estão na Idade Média. Ou alguém imagina que, numa situação
invertida, um Taleban com o imenso poder da América faria do
mundo um lugar melhor? Um pouco de bom senso ajuda, às vezes.
Na
verdade, o anti americanismo reflete muita coisa. No caso do
Oriente Médio, por exemplo, a América simboliza um mundo laico
e ocidental que parece destruir os antigos valores e o apoio
às elites corruptas da região e ao Estado de Israel, uma cunha
ocidental em pleno mundo árabe recordando a posição hegemônica
do Ocidente no mundo. É até possível que ele tenha alguma justificativa. No caso da América Latina, talvez indique,
acima de tudo, inveja e incapacidade de aprender.
De
fato, os Estados Unidos são um grupo de ex-colônias que conseguiram
criar o sistema econômico mais rico e produtivo do mundo, uma
sociedade relativamente livre e democrática (apesar das limitações),
um sistema de produção científica e cultural que mudou o mundo
(não obstante as montanhas de lixo cultural produzidas) e uma
máquina militar que moldou o século XX. Para completar, a América
não chegou a posição de donos do mundo unicamente sugando a
riqueza de outros países. Claro, o sistema econômico como moldado
por eles nas últimas décadas prejudicou os pobres do mundo e
os beneficiou claramente (quem negaria a realidade do imperialismo?),
mas a chave do poder americano está nas realizações deles, americanos.
Talvez seja isto, um misto de inveja e ressentimento pelo sucesso,
que leve tantas pessoas a um anti americanismo tão sem sentido
quanto uma adesão completa e sem reflexão às propostas americanas
(como fez a elite tucana nos últimos anos). Talvez fosse o momento
de aprender com os que deram certo e não apenas copiá-los e
adulá-los ou, no outro lado do espectro, execrá-los completamente
apenas porque são mais do que nós.