Dizem
que a sociologia é importante para o resgate da cidadania
em nosso país. Pode ser. Essa disciplina deve realmente contribuir
para isso na medida em que fornece informações acerca da estrutura
e das relações sociais e cria um espaço privilegiado para
discussões que nem sempre se fazem presentes na escola. De
minha parte, porém, ainda acredito que sua maior contribuição
não está na “formação da cidadania” ou numa pretensa “conscientização”
do povo alienado do seu modo de inserção nas relações sociais.
Não, nada disso. A sociologia, enquanto disciplina no ensino
médio, não realiza nenhuma missão emancipadora, nem se inscreve
num projeto de transformação social. São bem mais modestos
os seus objetivos; mas que isso não nos leve, no entanto,
a uma cegueira quanto ao alcance de seus resultados.
Poderíamos desenvolver uma longa
seqüência de argumentos fundamentando a importância da inclusão
da disciplina sociologia nos currículos de ensino médio. Seria
impossível, no entanto, codificar as reações de espanto e
curiosidade ou as mudanças sutis de percepção e linguagem
produzidas nos jovens que já tiveram o privilégio do contato
com a ciência social. Menos no trato com as teorias sociais
e mais na postura dos alunos diante da vida em sociedade;
menos no discurso informado por conceitos sociológicos – às
vezes bem complexos –, mais nos olhares de quem se encontra
em face de um enigma é que se pode aferir quão importante
se torna para os alunos a descoberta sobre como nossa vida
é perpassada por forças nem sempre visíveis – por nossa simples
pertença a um grupo social. E não a um grupo social qualquer,
mas a esse grupo, com sua identidade, posição, símbolos
e recursos de poder. É na descoberta de nossa participação
numa teia de relações, na compreensão de como a nossa personalidade
está relacionada à linguagem, aos gestos, às atitudes, aos
valores, à nossa posição na estrutura social – nas palavras
de Dumont: para que o indivíduo de ontem torne-se social,
não mais ele e os outros, mas ele em meio aos outros
– que está a justificativa para o ensino dessa ciência nas
escolas. Ensinar sociologia é, antes de tudo, desenvolver
uma nova postura cognitiva no indivíduo. Eis o aspecto humano
essencial dessa disciplina.
Quando o aluno compreende que os
cheiros, os gestos, as gírias, as tensões e conflitos, as
lágrimas e alegrias, enfim, o drama concreto dos seus pares,
é em grande medida resultante de uma configuração específica
de seu mundo, então a sociologia cumpriu sua finalidade pedagógica.
E, no fim das contas, é a cidadania e a democracia de nosso
país que saem ganhando.