As reformas em curso implementadas no Ensino Médio esbarram
num obstáculo que a sociedade brasileira recusa-se a discutir:
o vestibular. O vestibular brasileiro, em si, não é o principal
vilão do afunilamento do acesso à Universidade, mas ajuda em
muito a deteriorar nossa prática educativa. Com efeito, segundo
dados oficiais, de cada mil alunos que ingressam no primeiro
ano do ensino fundamental, apenas 50 chegam às Universidades.
Mas o vestibular impele os professores de Ensino Médio a se
reduzirem à condição de técnicos em memorização.
O fato é que teoricamente a concepção psicopedagógica que
se aplica na maioria dos cursos de Ensino Médio no Brasil e
na quase totalidade dos cursos preparatórios ao vestibular é
a base conceitual da Escola Comportamental. Esta teoria sustenta
que uma pessoa, se condicionada cotidianamente, acaba agindo
como o seu adestrador previa. Skinner, um dos elaboradores desta
teoria, acreditava que a inteligência era apenas uma adaptação
ao meio e que um reflexo condicionado seria o estímulo correto
ao desenvolvimento do ato inteligente. Hoje, sabemos, a inteligência
significa capacidade de decisão. Não se resume ao condicionamento,
mas ao repertório que uma pessoa possui e sua capacidade de
criar para resolver um problema inusitado.
O vestibular impede o desenvolvimento da inteligência porque
exige uma quantidade exagerada de informações. Como a maioria
dos professores de Ensino Médio resolvem esta demanda? Adotam
métodos questionáveis de instrução e condicionamento, como é
o caso dos "simulados". Os "simulados" são
ações repetitivas de exercícios e problemas já empregados em
exames vestibulares passados. É o condicionamento programado.
O aluno, de tanto fazer "simulados" relaciona uma
palavra-chave à resposta esperada. Dois problemas destacam-se
neste expediente. O primeiro, diz respeito à noção de verdade
científica. Nos dias de hoje, uma verdade científica perdura,
em média, três anos.
É um erro grosseiro, portanto, condicionar uma pessoa a responder
um problema científico da maneira como se respondia há dez ou
quinze anos atrás. O segundo problema é que o professor pode
instruir o aluno para a prova, mas não o educa para a vida.
O mundo globalizado exige capacidade de resolução de problemas
novos, o contrário do condicionamento. Para condicionar um reflexo
mental é necessário disciplina total. Mas para criar é necessário
liberdade e até mesmo uma pitada de indisciplina. O que estou
afirmando é que os "simulados" desarticulam o exercício
mental da criatividade humana. São péssimos recursos educativos,
portanto.
Gostaria, como educador, de vivenciar o fim do vestibular
no Brasil. Mas existem alternativas que, se não terminam com
esse grosseiro erro pedagógico, podem torná-lo mais inteligente
e útil à vida de nossos jovens. Vou citar a experiência norte-americana.
Nos EUA, existem dois exames básicos, preparados por instituições
privadas, que os estudantes fazem durante o Ensino Médio (2o
grau). Eles podem escolher qual, quando e quantas vezes fazer
o teste. Normalmente, preferem faze-lo nos dois últimos anos
do curso secundário, pois se sentem mais preparados. O ACT
Assessment, consiste em provas de inglês, matemática, compreensão
de texto e ciências. O Scholastic
Assessment Test, o SAT, traz questões de matemática e inglês.
Algumas Universidades exigem que o estudante faça o SAT II,
que é centrado em uma matéria específica - história, química,
biologia, física e línguas - em mais de um assunto.
Mas, na hora de selecionar seus alunos, a Universidade também
pode exigir cartas de recomendação da escola e um texto preparado
pelo estudante sobre o curso que escolheu ou outro tema definido
pela instituição. É comum também a realização de entrevistas
com quem está pleiteando uma vaga e a aplicação de testes práticos
se o estudante quer ingressar em cursos como música e artes.
Outros fatores também contam ponto: se o aluno está envolvido
com atividades esportivas, se é voluntário em atividades comunitárias,
hospitais etc. No entendimento das universidades, isso mostra
a capacidade de socialização do estudante e o grau de comprometimento
com sua comunidade e com seu país. Em outras palavras, é um
exemplo de cidadania.
Estas informações podem ser obtidas no site do Ministério
da Educação. Não são, portanto, desconhecidas dos nossos governantes.
Mas o volume de dinheiro que este mercado do vestibular movimenta,
dificulta em muito a superação do nosso vestibular. E muitos
pais não percebem o desastre que os métodos de memorização empregados
no Ensino Médio representam na vida de nossos filhos.
O escritor Affonso Romano de Sant'Anna escreveu sobre o vestibular
brasileiro no seu texto "O Vestibular da Vida". Diz
o autor: "um enduro sem moto, um rali sem carro, uma maratona
onde, ao invés de atletas, correm paraplégicos, cegos, presidiários,
grávidas e doentes em suas macas, esta é a imagem que nos deixa
este vestibular realizado esta semana, mobilizando centenas
de milhares de jovens em todo o país. (...) Como se fossem dar
um salto sem vara. Como se fossem dar um salto na vida."
A vida, todos sabemos, é muito mais que um salto.