“Só
vou acreditar em Direito internacional quando o Henry Kissinger
– o Milosevic de Nova York, como é chamado pelo jornal Village
Voice – parar de rir a cada vez que tocam no assunto”
Coluna
do Jota, Folha do Paraná, 21/8/2001
Tradicionalmente,
a questão da ordem internacional é vista a partir de duas concepções
clássicas: os realistas, que tem seu fundamento em Maquiavel
e é representada, por exemplo, por Henry Kissinger e Hans Morgenthau
e os racionalistas, que
reúne pessoas como Martin Wight e Hedley Bull.
Para
a primeira, o mundo é uma guerra de todos contra todos e qualquer
ordem internacional é precária, pois é fruto do conflito entre
Estados disputando seus interesses individuais. Para esta corrente,
o que mantém a ordem e impede os conflitos de se espalharem
é simplesmente o poder.
A
segunda concepção é a que entende que a ordem internacional
pode ser mantida por instituições internacionais. Ela não nega
as disputas de poder, mas propõe que elas podem ser contornadas
por regras de cooperação entre Estados que as criam e aceitam
para promover interesses comuns. Para a primeira corrente, portanto, o Direito codifica uma relação
de forças, enquanto a segunda acredita que ele pode criar essa
relação.
Diversos
autores contemporâneos tem defendido a idéia de que as duas
concepções não conseguem dar conta da realidade contemporânea
e que talvez ambas estejam superadas. Não é impossível que eles
estejam com razão e que o nosso mundo atual seja complexo demais
para se encaixar em uma das correntes. Ninguém nega, realmente,
que estamos num sistema onde o número de atores internacionais
(Estados, ONGs, empresas, etc.) aumentou vertiginosamente (dificultando
o estabelecimento de uma ordem única) e onde a cooperação internacional
cresce sem parar, ao mesmo tempo em que os conflitos de poder
entre os Estados continuam. No entanto, não nos parece que tenhamos
chegado ao estágio onde as duas correntes se fundiram num “cinza”
sem definição e, infelizmente, tendemos a considerar
que a corrente realista tem mais consistência do que a outra
para explicar nosso mundo atual.
Não
duvidamos que o sistema de instituições e as leis internacionais
possam e devam ser aperfeiçoados e que a cooperação entre as
nações e o comércio possam ser de utilidade para manter a paz
internacional. No entanto, nos parece a ingenuidade – ou a utopia
- absoluta imaginar que apenas leis e acordos internacionais
possam ser realmente garantia de algo além de consumo de árvores
para papel.
Historicamente,
por exemplo, a História está repleta de tratados cuidadosamente
elaborados e redigidos que foram simplesmente rasgados quando
o Estado aderente decidiu que não valia a pena mantê-lo. Os
pactos anti guerra dos anos 20 e 30, o acordo de amizade germano-soviético
de 1939 ou o Tratado de Versalhes são exemplos clássicos desse
desrespeito pelas normas aceitas.
Hoje
mesmo, os Estados Unidos tem demonstrado um desprezo quase que
olímpico pelo Direito internacional, pelas normas e tratados
que eles mesmo ajudaram a criar.
Eles se recusaram, por exemplo, a ratificar o tratado
que criaria o Tribunal Penal Internacional e ainda exigem que
funcionários civis e militares americanos sejam excluídos da
sua jurisdição. Também bombardearam o Protocolo de Kyoto e as
tentativas de limitar e conter as armas biológicas.
Em
parte, essa política americana é uma característica da administração
conservadora de George W. Bush. Ele está tentando romper, com
sucesso, com uma tradição que
datava da era Roosevelt, segundo a qual a diplomacia política,
econômica e militar de Washington
era exercida através de uma longa série de consultas
e entendimentos (cristalizados em acordos, convenções e tratados)
e não apenas através da arrogância pura.
Não que a administração Bill Clinton, por exemplo, não
exercesse o poder americano, mas ele tinha o cuidado em, ao
menos, manter as aparências.
Bush parece esquecer isso e não reconhece acordos ou
tratados a não ser que seja de seu interesse. Somos os mais
fortes. Para que complicar a vida desnecessariamente?
Evidentemente,
existe aqui muita hipocrisia. Todos os países devem assinar
tratados de limitação de armas nucleares e biológicas, mas os
Estados Unidos (e as outras potências nucleares) não. Leis internacionais
podem ser usadas para colocar na cadeia ditadores caídos em
desgraça frente ao Império como
Milosevic ou Pinochet, mas se alguém tentar prender Kissinger
ou o primeiro ministro chinês, a história é outra. Não estamos aqui defendendo esses ditadores,
pelo contrário, mas se a igualdade perante a lei é um dos princípios
do Direito moderno, que igualdade é essa, mediada pela força?
O
pior, porém, não é isso. Afinal
de contas, talvez esteja no direito dos EUA
não assinar um
tratado que eles consideram injusto ou desinteressante.
Mas e quando eles simplesmente jogam tratados já assinados
no lixo? O Tratado sobre armas anti mísseis assinado com a então
União Soviética em 1972 é um bom exemplo. Enquanto foi de interesse,
foi mantido. Agora que Washington quer fazer um escudo
estratégico no espaço, pode e vai ser ignorado e, se os russos
não gostarem, azar deles. Um dos privilégios de ser a potência
hegemônica do mundo é esse, mas dificilmente ele ajuda a nos
convencer que o Direito internacional realmente constrange os Estados quando eles não querem obedecer
ao que está escrito.
Claro
que não há necessidade de exagerar.
Existem muitas regulamentações e tratados, sobre os mais
diferentes temas, em vigor e a maioria dos países aceita a jurisdição
de alguns órgãos internacionais para decidir quem tem a razão
em questões comerciais, de Direitos humanos, etc. Do mesmo modo,
o problema da legitimidade do uso do poder atingiu tal nível
que até os Estados Unidos preferiram
ter a cobertura do manto jurídico da ONU
em intervenções como as do Golfo e do Kosovo. Ou seja,
não vivemos realmente num mundo realista “puro” onde só o poder
conta.
No
entanto, para as grandes questões, o que predomina ainda é o
cacife dos envolvidos. Os Estados Unidos podem muito bem ser
condenados pela OMC a pagar uma indenização a Honduras por problemas
da importação de banana, mas, na hora de decidir as regras do
comércio internacional ou do fluxo de capitais dentro do FMI,
são os poderosos que decidem. O caso da disputa do Brasil com
o Canadá na OMC demostrou
recentemente de forma cristalina essa situação e não espanta
realmente que um grande historiador como Eric Hobsbawm tenha
escrito que um dos maiores trunfos para a hegemonia americana
no mundo hoje é que eles conseguem escrever as regras do jogo
do capitalismo global e fazer os outros países seguirem-nas,
enquanto as interpretam livremente quando é vantajoso para eles.
Acreditamos,
de qualquer forma, que
o Direito internacional é
um excelente campo de manobra para a disputa contra os poderosos.
Afinal de contas, ninguém pode defender posições (o comércio
livre, o desarmamento global, a democracia, os Direitos humanos,
a proteção da biosfera, etc.) e ajudar a criar tratados e acordos
em torno delas e simplesmente esquecê-los a todo momento. As
leis e o discurso podem,
em certo momento, adquirir tal força que podem constranger os
grandes poderes a reunir atos e palavras. Mas confiar totalmente
na neutralidade das leis internacionais quando quem as escreve
e interpreta não é neutro é
realmente ser o ingênuo absoluto.
Na
verdade, talvez o problema central seja
realmente a falta de um poder maior além Estados Nacionais.
Por que, afinal de contas, nós obedecemos às leis escritas dentro
da nossa sociedade, mesmo quando são injustas ou não nos interessam?
Pelo costume, pela cultura, pelo enorme trabalho ideológico
a que somos submetidos desde cedo para que aceitemos e respeitemos
a lei? Sem dúvida. Mas atrás
dos juizes e advogados estão sempre os policiais e soldados
e a força é a instância final que obriga à obediência. Ou será
que alguém imagina que as leis seriam totalmente respeitadas
sem a ameaça da morte e da prisão por parte do Estado?
Aliás, um dos sintomas de um Estado fraco é justamente
a incapacidade, ou falta de vontade,
de impor a sua lei em seu território.
No
cenário internacional, o problema é centralmente este. Existem
forças capazes de obrigar os Estados ou
empresas a obedecerem as leis e as normas éticas internacionais?
Ameaças militares americanas e promessas de ajuda econômica
européias, por exemplo, bastaram para a Iugoslávia aceitar colocar
Milosevic sob tutela internacional.
Mas e se ele fosse protegido pela Casa Branca?
A que polícia os juizes de Bruxelas recorreriam para
prendê-lo? Os Estados
fracos podem ser forçados a abdicarem de sua soberania. Os fortes
não e, nesse contexto, os limites do Direito internacional são
flagrantes. No outro
extremo, por outro lado, seria conveniente termos um Estado
imperial único (diferente do poder
americano de hoje, meramente hegemônico) capaz de impor
sua ordem a ferro e fogo a todos, com os riscos do poder absoluto?
Para
concluir, repetimos as palavras humorísticas com que iniciamos
o texto. É ótimo ver carniceiros como Milosevic sendo levados
a julgamento a partir das leis internacionais e o jogo em torno
do Direito internacional, da ética e da legitimidade é uma necessidade,
mas só quando não apenas os ditadores ou criminosos colocados
em desgraça receberem a punição justa
é que passaremos a levar mais a sério a possibilidade
de melhorar o mundo apenas através do papel.