Escrevi
nesse site, no mês de março do corrente ano, dois artigos discutindo
a questão da violência política nos países da América Latina,
sobretudo nos do cone Sul. Argumentava
então, que existia uma política deliberada no sentido de forçar
um esquecimento sobre os horrores e crimes praticados pelas ditaduras
militares. Discutia ainda que era preciso que os arquivos da ditadura,
à exemplo do que ocorreram com os das Delegacias Especializadas
de Ordem Política e Social (DOPS), fossem abertos e colocados
à disposição da sociedade, pois assim, entidades de direitos humanos
e pesquisadores poderiam jogar luzes nesse passado obscuro da
nossa história recente.
Essa
tese, defendida por todas as entidades de direitos humanos do
país, deve ganhar um novo alento, principalmente agora que veio
à tona novas evidências de que o Estado continua com um permanente
sistema de inteligência, sob a responsabilidade do Exército
brasileiro e centrado no Gabinete da Segurança Institucional,
órgão vinculado diretamente ao Palácio do Planalto.
Refiro-me
aos fatos narrados, recentemente, pelo jornalista da Folha de
S. Paulo, Josias de Souza, que revelou documentos secretos obtidos
por aquele jornal, onde o Exército continua praticando uma política
de inteligência que admite "arranhar direitos dos cidadãos",
além de classificar os movimentos sociais como “forças adversas”.
Mais do que isso, para o Exército, movimentos populares como
o MST se equiparam ao “narcotráfico e ao crime organizado”,
numa tentativa de criminalizar os movimentos sociais e torná-los
forças que precisam ser conhecidas, combatidas e "eliminadas".
São os velhos sujeitos “indesejáveis” do Estado Novo e da Ditadura
Militar. Os documentos recuperados pelo matutino paulista nos
mostram, pela primeira vez, desde o processo de redemocratização
do país, os subterrâneos da máquina de espionagem do Exército.
Sabemos
que em todo lugar do mundo, os Estados mantém serviços de espionagem.
Até as empresas se utilizam desse mecanismo. Vejam o
recente caso dos grampos do BNDES, aliás realizados por velhos
arapongas do extinto SNI. Nem os próprios partidos de esquerda
são contra um Serviço de Inteligência. Mas o modelo precisa
ser diferente: apartidário, que não controle o cotidiano dos
cidadãos por suas atividades políticas e que seja submetido
a um rigoroso controle do Congresso Nacional, sob o manto da
sociedade civil.
No
entanto, o que está acontecendo é exatamente o contrário. Mesmo
com a extinção do SNI em 1992, o Estado não deixou de exercer
atividades de controle sobre os movimentos populares e sociais
e continua “fichando”
pessoas que possam ser consideradas nocivas à “ordem social”,
os velhos e difamados “subversivos”.
A
reconstrução de um sistema de informação começou ainda no governo
Itamar Franco, quando no dia 13 de junho de 1994 foi criada
a Escola de Inteligência Militar do Exército. Essa escola tinha
como objetivo modernizar a ação do próprio Exército, preparando-o
para o novo momento histórico decorrente da "abertura política
e da anistia" no plano interno, e da "hegemonia dos
Estados Unidos", no campo internacional, principalmente
após a derrocada do Leste Europeu. Para isso, como revela os
documentos obtidos pela Folha de S. Paulo, a Escola de Inteligência
deveria “reeducar velhos arapongas” e formar espiões para os
novos tempos, com o objetivo de defender o “bem público, a salvação
pública e a ordem pública”. Mesmo que para atingir esses objetivos,
tivessem que “arranhar direitos dos cidadãos, numa espécie de
arbítrio necessário”.
No
ano de 1997, o governo FHC deu um novo passo, encaminhando projeto
de lei ao Congresso Nacional, propondo a criação da Agência
Brasileira de Informações (ABIN). O Congresso Nacional votou
a matéria apenas no ano de 1999 e no dia 07 de dezembro, o Presidente
Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei No. 9.883/99, instituindo
a ABIN e o Sistema Brasileiro de Informações (SISBIN). E mais
recentemente, no dia 8 de maio de 2000, o Governo Federal publicou
o Decreto No. 3.448/00, criando um Subsistema de Inteligência
de Segurança Pública com o objetivo de coordenar e integrar
as atividades de inteligência de todo o país, através de uma
rede de informações. Caberá à rede, conforme fundamenta o decreto,
“identificar, acompanhar e avaliar ameaças reais ou potenciais,
além de promover a coleta, busca e análise de dados e de produzir
conhecimentos que subsidiem decisões na esfera de inteligência
dos governos federal, estadual e municipal”.
Não é mais nada do que a recriação do velho SNI com outro
nome.
Atualmente
são 541 agentes trabalhando nessa rede. Praticamente ninguém
fica imune aos espiões do Exército. Conforme constatou o jornalista
Josias de Souza, eles estão espalhados em todas as regiões do
país e realizam espionagem política, econômica, empresarial
e social. O Exército chega mesmo a classificar os jornais segundo
a sua "posição partidária", "dependência do poder
econômico" e "grau de influência exercido pelo governo".
No
entanto, são os movimentos sociais quem são mais enfaticamente
monitorados. Aliás, a criação do Subsistema de Inteligência
de Segurança Pública (Decreto No. 3.448/00, de 08 de maio de
2000) que me referi acima foi realizado exatamente após o Governo
Federal admitir que estava mal informado sobre o MST e sobre
o movimento dos caminhoneiros. Para quem não se lembra, no início
do mês de maio do ano 2000, militantes do Movimento dos Trabalhadores
Sem Terra (MST) ocuparam e acamparam em 14 prédios públicos
por todo o país; e os caminhoneiros fizeram uma conturbada greve,
ameaçando o abastecimento em todo o território nacional.
Na época o governo FHC avaliava que se existisse um “sistema
de coletas de informações em todo o país” tanto a greve dos
caminhoneiros como as ocupações do MST poderiam ser evitadas
(FSP, 09 maio 2000).
Para
se ter uma idéia de como esse sistema de espionagem trata os
movimentos sociais, amparo-me nos exemplos divulgados pelo Exército
através do General de Divisão Luiz Cesário da Silveira Filho,
Chefe do Centro de Comunicação Social do Exército, no 07 de
agosto de 2001, e publicado na Folha de S. Paulo no dia seguinte.
Diz o general:
O
general enfatiza ainda que é de suma importância compreender
a diferença entre os termos "força adversa" e "inimigo",
pois assim se pode estabelecer procedimentos, técnicas e equipamentos
utilizados pelo Exército. Segundo ele, o objetivo em relação
ao “inimigo” é neutralizá-lo, ao passo que em relação às “forças
adversas” a conduta tem que ser outra.
No
entendimento do Exército e da Agência Brasileira de Informações
(ABIN), as “forças adversas” são constituídas, na maioria da
vezes, “por brasileiros que defendem causas - que lhes parecem
justas - com instrumentos que a opinião pública não reconhece
como legítimos”. E não deixa de retomar o velho e usual chavão
de que as organizações sociais e manifestações públicas são
vítimas dos agitadores infiltrados que agem para manobrar a
massa para os seus interesses políticos. “Normalmente, os anseios
dessa parcela da população são explorados por lideranças que
têm interesses e objetivos divergentes da massa manobrada, instigando-a
à violência e à quebra das normas de convivência pacífica”.
O
maior exemplo disso, o Exército busca no Movimento dos Trabalhadores
Sem Terra (MST), para qualificá-lo como “força adversa” símbolo.
Diz o general, enfaticamente: