Passei
minhas férias de verão (setentrional) na companhia de
um pequeno livro para o qual minha atenção tinha sido
despertada pelo Embaixador Sérgio Bath, aliás sob recomendação
inicial do Emb. Seixas Corrêa, atual secretário geral
do Itamaraty, ambos apreciadores de velhos manuscritos
e de tudo o mais que se refira à história diplomática.
Trata-se de um opúsculo hoje démodé
(mas provavelmente um utilíssimo manual para meus antecessores
do oitocentos), cujo autor, um diplomata monárquico português
da segunda metade do século XIX, Frederico Francisco de
la Figanière, o intitulou modestamente
Quatro regras de diplomacia (Lisboa: Livraria Ferreira,
1881, 239 p.). Retirei-o da Biblioteca do Congresso americano,
infalível para esse tipo de trouvaille,
e passei bons momentos em sua companhia, 120 anos depois
de sua publicação original (e, ao que parece, única).
O
prazer me foi dado não tanto pelo enunciado, aliás pouco
extensivo, das ditas quatro regras de diplomacia – manifestamente
desadaptadas à diplomacia do século XXI – mas mais exatamente
pelos seus saborosos anexos históricos, uma “colecção
de modelos das principaes especies de escriptos diplomaticos”,
entre elas cartas da época do tratado de Utrecht (1713),
um protesto contra a violação de imunidades no período
da Revolução francesa (o pobre enviado português à corte
de Luís XVI jogado à prisão, como um reles conspirador
aristocrata), além de outros “escriptos” do Congresso
de Viena ou relativos ao Brasil imperial. Segundo Figanière,
“Dos diversos ramos do serviço público, o diplomático
é sem dúvida aquele em que ao agente é concedida maior
liberdade no modus operandi” (p. 9), o que, se era correto em sua época de comunicações
lentas e precárias, há muito deixou de corresponder à
realidade de uma diplomacia cada vez mais enquadrada de
perto, não apenas pela Secretaria de Estado – com a qual
estamos em contato as 24 horas do dia, praticamente –
mas seguida com atenção pela imprensa, pelos grupos de
interesse e, agora também, pelas hordas de “anti-globalizadores”
conectados às redes internáuticas de uma aldeia decididamente
global.
Enfim,
quais eram essas regras que apareciam como um imperativo
moral, quase que de ordem kantiana, ao colega lusitano
de mais de um século atrás? Elas eram o objeto de quatro
curtos capítulos de observações e de recomendações a eventuais
candidatos à carreira diplomática: I. Agradar; II. Ser
leal; III. Antepor a palavra à pena; IV. Ter concisão
e ordem no redigir. Como se vê, nada de muito esclarecedor
ou propriamente entusiasmante, para a prática atual, a
não ser talvez a última das regras, que vinha com uma
advertência ainda válida para os tempos que correm: “O
estilo prolixo e difuso é um defeito que cumpre evitar
nas composições diplomáticas” (p. 70). Dois pontos para
nosso antecessor português, pois que ele também achava
que, de todos os deveres, o primeiro era o de bem servir
a pátria, algo que não custa relembrar atualmente (e de
modo permanente).
Deixo
de lado as regras relativas a agradar e ser leal (ao seu
real senhor, ora pois), mais adequadas talvez à “época
das cabeleiras empoadas, dos peitilhos de renda, dos passeios
em cadeirinhas, (ou) da pena de pato, aparada entre boas
pitadas de rapé”, nas palavras de outro antecessor meu
da belle époque,
José Manuel Cardoso de Oliveira (in A moderna concepção da diplomacia e do comércio, 1925). A terceira
regra, a rigor, também apresenta sua utilidade, uma vez
que ainda costumamos tratar oralmente de algum assunto
importante, antes de oficializá-lo mediante uma nota diplomática
ou um aide-mémoire.
Em todo caso, inspirado no exemplo do ilustre representante
da diplomacia lusa de tão saudosa memória – ela foi, com
toda a sua habilidade no navegar entre os interesses
sempre divergentes dos principais poderes europeus,
a base de nossa diplomacia imperial, reconhecidamente
excelente para os padrões da época, mesmo em escala comparativa
com outros países mais avançados economicamente –, resolvi
arriscar, igualmente, formular minhas próprias regras
modernas de diplomacia, esperando que elas possam ser
bem recebidas por meus colegas de profissão mais jovens.
Aqui vão elas, em formato reduzido, geralmente mais pensadas
em função do ambiente multilateral, que é o comum na vida
atual da diplomacia, do que para situações de relações
bilaterais.
1.
Servir a pátria, mais do que aos governos, conhecer profundamente
os interesses permanentes da nação e do povo aos quais
serve; ter absolutamente claros quais são os grandes princípios
de atuação do país a serviço do qual se encontra.
O
diplomata é um agente do Estado e, ainda que ele deva
obediência ao governo ao qual serve, deve ter absoluta
consciência de que a nação tem interesses mais permanentes
e mais fundamentais do que, por vezes, orientações momentâneas
de uma determinada administração, que pode estar guiada
— mesmo se em política externa isto seja mais raro — por
considerações “partidárias” de reduzido escopo nacional.
Em resumo, não seja subserviente ao poder político, que,
como tudo mais, é passageiro, mas procure inserir uma
determinada ação particular no contexto mais geral dos
interesses nacionais.
2.
Ter domínio total de cada assunto, dedicar-se com afinco
ao estudo dos assuntos de que esteja encarregado, aprofundar
os temas em pesquisas paralelas.
Esta
é uma regra absoluta, que deve ser auto-assumida, obviamente:
numa secretaria de estado ou num posto no exterior, o
normal é a divisão do trabalho, o que implica não apenas
que você terá o controle dos temas que lhe forem atribuídos,
mas que redigirá igualmente as instruções para posições
negociais sobre as quais seu conhecimento é normalmente
maior do que o do próprio ministro de estado ou o chefe
do posto. Mergulhe, pois, nos dossiers, veja antigos maços
sobre o assunto (a poeira dos arquivos é extremamente
benéfica ao seu desempenho funcional), percorra as estantes
da biblioteca para livros históricos e gerais sobre a
questão, formule perguntas a quem já se ocupou do tema
em conferências negociadoras anteriores, mantenha correspondência
particular com seu contraparte no posto (ou na secretaria
de estado), enfim, prepare-se como se fosse ser sabatinado
no mesmo dia.
3.
Adotar uma perspectiva histórica e estrutural de cada
tema, situá-lo no contexto próprio, manter independência
de julgamento em relação às idéias recebidas e às “verdades
reveladas”.
Em
diplomacia, raramente uma questão surge do nada, de maneira
inopinada. Um tema negocial vem geralmente sendo “amadurecido”
há algum tempo, antes de ser inserido formalmente na agenda
bilateral ou multilateral. Estude, portanto, todos os
antecedentes do assunto em pauta, coloque-o no contexto
de sua emergência gradual e no das circunstâncias que
presidiram à sua incorporação ao processo negocial, mas
tente dar uma perspectiva nova ao tema em questão. Não
hesite em contestar os fundamentos da antiga posição negociadora
ou duvidar de velhos conceitos e julgamentos (as idées
reçues), se você dispuser de novos elementos analíticos
para tanto.
4.
Empregar as armas da crítica ao considerar posições que
devam ser adotadas por sua delegação; praticar um ceticismo
sadio sobre prós e contras de determinadas posições; analisar
as posições “adversárias”, procurando colocá-las igualmente
no contexto de quem as defende.
Ao
receber instruções, leia-as com o olho crítico de quem
já se dedicou ao estudo da questão e procure colocá-las
no contexto negocial efetivo, geralmente mais complexo
e matizado do que a definição de posições in
abstracto, feita em ambiente destacado do foro processual,
sem interação com os demais participantes do jogo diplomático.
Considerar os argumentos da parte adversa também contribui
para avaliar os fundamentos de sua própria posição, ajudando
a revisar conceitos e afinar seu próprio discurso. Uma
saudável atitude cética — isto é, sem negativismos inconseqüentes
— ajuda na melhoria constante da posição negociadora de
sua chancelaria.
5.
Dar preferência à substância sobre a forma, ao conteúdo
sobre a roupagem, aos interesses econômicos concretos
sobre disposições jurídico-abstratas.
Os
puristas do direito e os partidários da “razão jurídica”
hão de me perdoar a deformação “economicista”, mas os
tratados internacionais devem muito pouco aos sacrossantos
princípios do direito internacional, e muito mais a considerações
econômicas concretas, por vezes de reduzido conteúdo “humanitário”,
mas dotadas, ao contrário, de um impacto direto sobre
os ganhos imediatos de quem as formula. Como regra geral,
não importa quão tortuosa (e torturada) sua linguagem,
um acordo internacional representa exatamente — às vezes
de forma ambígua — aquilo que as partes lograram inserir
em defesa de suas posições e interesses concretos. Portanto,
não lamente o estilo “catedral gótica” de um acordo específico,
mas assegure-se de que ele contém elementos que contemplem
os interesses do país.
6.
Afastar ideologias ou interesses político-partidários
das considerações relativas à política externa do país.
A
política externa tende geralmente a elevar-se acima dos
partidos políticos, bem como a rejeitar considerações
ideológicas, mas sempre somos afetados por nossas próprias
atitudes mentais e algumas “afinidades eletivas” que podem
revelar-se numa opção preferencial por um determinado
tipo de discurso, “mais engajado”, em lugar de outro,
supostamente mais “neutro”. Poucos acreditam no “caráter
de classe” da diplomacia, mas eventualmente militantes
“classistas” gostariam de ajudar na “inflexão” política
ou social de determinadas posições assumidas pelo país
internacionalmente, sobretudo quando os temas da agenda
envolvem definição de regras que afetam agentes econômicos
e expectativas de ganhos relativos para determinados setores
de atividade. Deve-se buscar o equilíbrio de posições
e uma definição ampla, verdadeiramente nacional, do que
seja interesse público relevante.
7.
Antecipar ações e reações em um processo negociador, prever
caminhos de conciliação e soluções de compromisso, nunca
tentar derrotar completamente ou humilhar a parte adversa.
O
soldado e o diplomata, como ensinava Raymond Aron, são
os dois agentes principais da política externa de um Estado
— embora atualmente outras forças sociais, como as ONGs
e os homens de negócio, disputem espaço nos mecanismos
decisórios burocráticos — mas, à diferença do primeiro,
o segundo não está interessado em ocupar território inimigo
ou destruir sua capacidade de resistência. Ainda que,
em determinadas situações negociais, o interesse relevante
do país possa ditar alguma instrução do tipo “vá ao plenário
com todas as suas armas (argumentativas) e não faça prisioneiros”,
o confronto nunca é o melhor método para lograr vitória
num processo negociador complexo. A situação ideal é aquela
na qual você “convence” as outras partes negociadoras
de que aquela solução favorecida por seu governo é a que
melhor contempla os interesses de todos os participantes
e na qual as partes saem efetivamente convencidas de que
fizeram o melhor negócio, ou pelo menos deram a solução
possível ao problema da agenda.
8.
Ser eficiente na representação, ser conciso e preciso
na informação, ser objetivo na negociação.
Considere-se
um agente público que participa de um processo decisório
relevante e convença-se de que suas ações terão um impacto
decisivo para sua geração e até para a história do país:
isto já é um bom começo para dar dignidade à função de
representação que você exerce em nome de todos os seus
concidadãos. Redija com clareza seus relatórios e seja
preciso nas instruções, ainda que dando uma certa latitude
ao agente negocial direto; não tente fazer literatura
ao redigir um anódino memorandum,
ainda que um mot d’esprit
aqui e ali sempre ajuda a diminuir a secura burocrática
dos expedientes oficiais. Via de regra, estes devem ter
um resumo inicial sintetizando o problema e antecipando
a solução proposta, um corpo analítico desenvolvendo a
questão e expondo os fundamentos da posição que se pretende
adotar, e uma finalização contendo os objetivos negociais
ou processuais desejados. No foro negociador, não tente
esconder seus objetivos sob uma linguagem empolada, mas
seja claro e preciso ao expor os dados do problema e ao
propor uma solução de compromisso em benefício de todas
as partes.
9.
Valorize a carreira diplomática sem ser carreirista, seja
membro da corporação sem ser corporatista, não torne absolutas
as regras hierárquicas, que não podem obstaculizar a defesa
de posições bem fundamentadas.
Geralmente
se entra na carreira diplomática ostentando um certo temor
reverencial pelos mais graduados, normalmente tidos como
mais “sábios” e mais preparados do que o iniciante. Mas,
se você se preparou adequada e intensamente para o exercício
de uma profissão que corresponde a seus anseios intelectuais
e responde a seu desejo de servir ao país mais do que
aos pares, não se deixe intimidar pelas regras da hierarquia
e da disciplina, mais próprias do quartel do que de uma
chancelaria. Numa reunião de formulação de posições, exponha
com firmeza suas opiniões, se elas refletem efetivamente
um conhecimento fundamentado do problema em pauta, mesmo
se uma “autoridade superior” ostenta uma opinião diversa
da sua. Trabalhe com afinco e dedicação, mas não seja
carreirista ou corporatista, pois o moderno serviço público
não deve aproximar-se dos antigos estamentos de mandarins
ou das guildas medievais, com reservas de “espaço burocrático”
mais definidas em função de um sistema de “castas” do
que do próprio interesse público. A competência no exercício
das funções assignadas deve ser o critério essencial do
desempenho no serviço público, não o ativismo em grupos
restritos de interesse puramente umbilical.
10.
Não faça da diplomacia o foco exclusivo de suas atividades
intelectuais e profissionais, pratique alguma outra atividade
enriquecedora do espírito ou do físico, não coloque a
carreira absolutamente à frente de sua família e dos amigos.
A
performance profissional é importante, mas ela não pode
ocupar todo o espaço mental do servidor, à exclusão de
outras atividades igualmente valorizadas socialmente,
seja no esporte, seja no terreno da cultura ou da arte.
Uma dedicação acadêmica é a que aparentemente mais se
coaduna com a profissão diplomática, mas quiçá isso represente
uma deformação pessoal do autor destas linhas. Em todo
caso, dedique-se potencialmente a alguma ocupação paralela,
ou volte sua mente para um hobby absorvente, de maneira
a não ser apenas um “burocrata alienado”, voltado exclusivamente
para as lides diplomáticas. Sim, e por mais importante
que seja a carreira diplomática para você, não a coloque
na frente da família ou de outras pessoas próximas. Muitos
se “sentem” sinceramente diplomatas, outros apenas “estão”
diplomatas, mas, como no caso de qualquer outra profissão,
a diplomacia não pode ser o centro exclusivo de sua vida:
os seres humanos, em especial as pessoas da família, são
mais importantes do que qualquer profissão ou carreira.