O filho ingressa na 5a
Série. Professores e pais começam a dizer que ele mudou de patamar.
"Já não é mais criança", dizem os mais apressados.
Na 8a Série, a palavra responsabilidade é dita umas
duas ou três vezes por dia. "Logo, dizem alguns pais e
professores, você estará escolhendo uma profissão". Já
no terceiro ano do Ensino Médio, nem pais, nem professores,
muito menos o aluno, conseguem esconder aquela tensão peculiar.
Nas festas, quase sempre, o assunto volta à tona. Muitos dizem:
“o que o filho escolher estará bom... desde que seja para a
felicidade dele”. O problema é que a felicidade parece meio
distante e, para encontrá-la, o filho precisará trilhar caminhos
que não tem a menor idéia de onde estão. A pressão é muito grande.
E pior. E se errar o alvo?
Paremos para conversar. No Brasil,
a cada 50 alunos que ingressam na faculdade, somente 25 se formam.
Dos profissionais que possuem diploma universitário, 60% praticam
uma profissão que não tem correspondência alguma com o curso
freqüentado. Na verdade, é muito comum escolher, na hora de
prestar o vestibular, a profissão errada. Os pais, principalmente,
precisam ter a clareza e paciência de saber que esta situação
é realmente comum. Principalmente num mundo em tamanha transformação
como o do século XXI. Se no início do século XX ser médico,
engenheiro ou advogado era sinal de bem estar pessoal e status,
no século XXI, qualquer profissão pode ser sinônimo de sucesso
ou fracasso. Quais as profissões com maior visibilidade pública
nestes dias? A resposta é fácil: profissões ligadas a serviços
(consultorias, serviços de comunicação e informática) e lazer
(esporte, turismo, música,
dança...). Mas todos que trabalham nesses ramos têm sucesso?
Obviamente que não.
A palavra profissão tem origem
em outra: professar. Professa, como sabemos, quem tem fé. Esta
é a primeira lição: o profissional é aquele que tem paixão.
Sem paixão, dificilmente uma pessoa conseguirá agüentar a pressão
e a concorrência no mercado de trabalho. Nos últimos quinze
anos, ocorreu uma forte mudança na estrutura do mercado de trabalho
em virtude da introdução da informática na produção. O tempo
de criação diminuiu. Hoje, alguns setores produzem um produto
novo a cada 3 meses, o que obriga as empresas a investirem fortemente
em tecnologia e novos produtos. As grandes empresas começam
a demitir os especialistas e contratar os "polivalentes"
que são trabalhadores com várias especializações, que não param
de estudar, são muito atualizados e criativos. Em média, um
polivalente substitui a 7 trabalhadores especializados, o que
gera muitas demissões. Como a empresa diminui o número de postos
de trabalho, a relação entre hierarquias também se altera. Há
forte transferência de responsabilidades. Este é o profissional
do século XXI: co-responsável, criativo, polivalente, dinâmico,
que sabe trabalhar em equipe e possui noções de mercado. Seria
o mesmo dizer que tudo o que se esperava de um profissional
até os anos 70 do século passado se inverteu. No século XX esperava-se
que ele fosse estável, disciplinado, especializado, individualista,
que se adaptasse às mudanças. Hoje espera-se exatamente o inverso.
Um dos maiores especialistas nos estudos de mercado de trabalho
contemporâneo, o sociólogo Richard Sennett, afirma em seu último
estudo que duas palavras indicam o atual estágio do trabalho:
flexibilidade e risco. Ninguém, hoje, tem segurança que permanecerá
em seu trabalho até o final do ano. Todos precisam atualizar-se,
constantemente.
Assim, vou indicar abaixo algumas
informações importantes sobre o comportamento dos pais na escolha
da profissão dos filhos, num esforço de resumo:
o mundo do trabalho está mudando
rapidamente. Para se ter noção, uma verdade científica é alterada
a cada três anos. A internet publica uma média de mil novos
livros por dia. Portanto, não diga que uma profissão é mais
vitoriosa que outra. Não temos certeza de até quando uma profissão
crescerá;
a melhor postura é informar seu
filho. Se possível, converse com a escola e programe visitas
em locais de trabalho. Os testes vocacionais ajudam muito pouco
neste século de mudanças bruscas e rápidas. O melhor é observar
na prática: o ritmo de produção, as qualidades exigidas, as
relações entre profissionais, o ganho financeiro, as virtudes
e mazelas daquela profissão;
diminua o grau de tensão deste
momento difícil na vida de um adolescente (lembre-se: dos 12
aos 18 anos de idade esta pessoa é considerada adolescente).
Leia publicações que falem sobre as mudanças do trabalho. Todas
as revistas semanais do país publicam periodicamente artigos
neste sentido. Uma delas, publica em quase todas edições: a
revista Exame. Deixe claro que mudar de faculdade é uma opção
possível. Se errar o alvo, é possível mudar. Não há perdas neste
sentido. Conte como você mesmo já repensou muitos planos profissionais
em sua vida. Comente quantas vezes você errou e quantas acertou.
Criamos uma imagem de sucesso que sufoca o jovem;
E lembre-se: como dizia Thomas
Mann, autor do livro "A Montanha Mágica", o trabalho
não é divino; divino é o Homem. Digamos, então, que a felicidade
de nossos filhos é algo que devemos buscar a vida toda.
Não devemos colocar a responsabilidade de todo um futuro
num único momento. O trabalho não é divino.