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RESENHA
Dialética da dependência
Ruy Mauro Marini
Petrópolis, Vozes, 2000
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Os anos 70 ficaram gravados na
historia da América Latina como “os anos de chumbo”,
entretanto é importante assinalar também que foi uma década
de exílio onde a cidade de México foi o cenário de convergência
de numerosos acadêmicos e cientistas sociais latino-americanos.
Entre eles destacava-se Ruy Mauro Marini,
“o mais latino-americano”
dos intelectuais acadêmicos, por sua importante obra,
desconhecida para o leitor brasileiro. Depois de quase
trinta anos de sua primeira edição em espanhol, edita-se
em sua língua materna este livro. Como se explica este
atraso?. Varias gerações de cientistas sociais não tiveram
o privilegio de conhecer seus textos, paradoxalmente publicados
e difundidos na América Latina e ignorados em Brasil.
É com esta perplexidade que começa esta resenha.
Marini, falecido há dois anos,
iniciou sua vida acadêmica na Universidade de Brasília,
e depois do golpe militar de 1964, exilou-se no Chile
onde foi professor da Universidade de Chile até a queda
do governo de Allende em 1973, e posteriormente radicou-se
no México onde lecionou na Universidade Nacional Autônoma
de México (UNAM) onde produz a maior parte de sua obra
e onde foi realmente o cenário de sua consagração intelectual.
Tive a honra de ser seu aluno na UNAM.
Neste livro, Marini procura distinguir
as principais características que vem assumindo a superexploração
da força de trabalho na América Latina, a partir dos anos
70, quando se afirma a crise da industrialização voltada
para o mercado interno e
inicia-se na região um giro no
sentido de sua inserção numa economia mundial
globalizada sob o domínio de políticas neoliberais.
O conceito de superexploração do trabalho foi estabelecido
por Ruy Mauro Marini no final da década de 60, enfatizado
sua relação com a gênese da acumulação capitalista.
O autor afirma neste livro que
o regime capitalista de produção desenvolve duas grandes
formas de exploração que seriam o aumento da força produtiva
do trabalho e a maior exploração do trabalhador. O aumento
da força produtiva do trabalho se caracterizaria pela
produção de mais quantidade no mesmo tempo com o mesmo
gasto de força de trabalho; e a maior exploração do trabalhador
se caracterizaria por três processos, que poderiam atuar
conjugadamente ou de forma isolada, representados pelo
aumento da jornada de trabalho, pela maior intensidade
de trabalho sem a elevação do equivalente em salário e
pela redução do fundo de consumo do trabalhador. O conceito
de superexploração da força de trabalho começa a se esboçar
em Subdesarrollo y revolución (1968), adquire uma
forma mais sistemática em Dialética da dependência
(1973) e continua a se desenvolver em “Plúsvalia extraordinária
y acumulación de capital” (1979), “Las razones
del neodesarrollismo” (1978), y “El ciclo del capital
en la economía dependente” (1979).
Por outra aparte é importante ressaltar
que a corrente dependentista deu margem a varias vertentes
do pensamento, não se tornando dessa forma, homogênea
em seus postulados básicos. Se por um lado existe a perspectiva
de integração subordinada de Fernando Henrique Cardoso,
por outro há a perspectiva da dialética da dependência
e da superexploração da força de trabalho, de Marini.
Nos últimos anos, se atingiu um
certo consenso entre autores de diversas correntes teóricas
y acadêmicas em torno à afirmação de que se "esgotou"
a "teoria da dependência"; principalmente, aquela
desenvolvida pelas reflexões marxistas durante os anos
sessenta y setenta. Neste sentido destaca-se a corrente
da "nova dependência"
representados por Fernando Henrique Cardoso e Enzo
Faletto, que teve muita difusão no Brasil nos últimos
anos tentando invalidar aos representantes da corrente
critica da dependência, entre outros a Ruy Mauro Marini.
Neste contexto é possível entender a publicação de um
artigo assinado por Fernando Henrique Cardoso e José Serra
(1978) atacando a Ruy Mauro Marini, teve, principalmente
no Brasil, importância na formação de opinião sobre a
obra de Marini. Isto deve-se não apenas à projeção desses
autores no âmbito das ciências sociais brasileiras, mas
ao fato da crítica à obra deste autor ter sido divulgada
no Brasil, a partir da Revista do CEBRAP, sem a resposta
de Marini, inversamente do que ocorreu no México na Revista
Mexicana de Sociologia.
Marini refere-se a este triste
episódio como uma forma de deturpar suas reflexões através
do texto de Cardoso e Serra, que deforma quase sempre
suas análises para poder critica-las, manipula os dados
que utiliza e que brilha pela falta de rigor. “O leitor
o entenderá melhor se levar em conta que o artigo é dirigido
fundamentalmente a jovem geração brasileira”, que conhece
pouco ou quase nada da obra de Marini. Isto é o que leva
a Cardoso e Serra a adapta-lo
“livremente” aos fins que se propuseram. Seguramente,
teriam procedido de outra maneira se fossem dirigidos
a um publico mas familiarizados com os textos de Ruy Mauro
Marini.
ALBERTO
NOÉ