O último vestibular da Universidade
Estadual de Maringá teve 15.402 inscritos, disputando 1.356
vagas. Considerando os números brutos, são 11,35 candidatos
por vaga. É claro que a relação candidato/vaga depende de
cada curso. De qualquer forma, 14.046 não passaram no funil.
Resta-lhes optar pelo ensino privado ou fazer nova tentativa
em janeiro.
Este é um quadro que se repete
por todo o Brasil. A tendência é a concorrência aumentar.
Um número maior de jovens conclui o ensino secundário. O governo
alega não ter recursos para investir no ensino superior –
o que inviabiliza a expansão de vagas conforme a demanda.
A solução passa a ser a expansão da rede privada de ensino
– facilitada pelo MEC. Na lógica governamental, se não há
recursos, privatiza-se. Foi assim com as rodovias. Só falta
fazer o mesmo com o ensino público: cobrar pedágio, taxas
para estacionar etc.
É contra tudo isto que um grupo
de jovens, apoiados por discentes e docentes da UNICAMP, USP,
organizações não governamentais, pastorais e movimentos populares
lançou o Movimento dos Sem-Universidade. A idéia partiu
de dom Pedro Casaldáliga e encontra respaldo na dura realidade
dos milhares de jovens que ficam fora das universidades públicas.
São vítimas de uma estrutura perversa
que escolhe os escolhidos. Ao contrário do que prega o mito
liberal, as oportunidades não são iguais para todos. A insuspeita
Folha de S. Paulo, em editorial, reconhece que há uma ‘situação
de iniqüidade’: “Assim, são os alunos das escolas particulares
– pagas – os que normalmente conquistam as vagas – gratuitas
– da universidade pública, que constitui a elite do ensino
superior brasileiro”. (FSP, 25.07.01)
Há alguns anos, trabalhei na periferia
de S.Paulo (num bairro de Santo Amaro) e em Diadema. Angustiava-me
ver que, para a maioria daqueles jovens, o ensino médio não
oferecia perspectivas a não ser a ilusão da formatura. Doía-me
ainda mais saber que tinham consciência de que a USP, UNICAMP,
a UNESP não foram feitas para eles.
É um círculo vicioso: os que se
encontram na base hierárquica da sociedade formam-se em escolas
públicas, em geral, de baixa qualidade. Os filhos da classe
média e dos ricos estudam nas melhores escolas privadas e
possuem mais capital cultural e econômico, isto é, acumulam
melhores condições para vencer a olimpíada do ensino público.
No final das contas, são os mais abastados que ocupam as vagas
das universidades públicas. A classe média remediada vai para
o ensino privado. Os pobres que se virem.
É óbvio que há exceções e que quanto
menos concorrido o curso maior a chance de furar o bloqueio.
É que tem uns teimosos que, a despeito de tudo e de todos,
superam a si mesmos e às estruturas vigentes. Mas, não nos
enganemos: a universidade não foi criada para os pobres. Uma
boa medida é observar as estatísticas sobre o número de acadêmicos
e professores negros em nossas universidades.
O MSU é uma excelente idéia.
Por que não apóia-la? A última greve dos servidores mostrou
o quanto estamos isolados da sociedade. Parece que as pessoas
não reconhecem a importância social, econômica e política
da universidade pública. Ora, se a Universidade é inacessível
para a maioria, é compreensível que seja assim. A greve pela
greve, sem o envolvimento da comunidade externa, mostrou-se
ineficiente. O governador, diante do movimento das esposas
dos policiais, já deu o recado. O discurso é o mesmo do ano
passado: a lei de responsabilidade fiscal não permite reajuste
salarial.
Seremos mais fortes se a comunidade
assumir a Universidade como um problema que lhe diz respeito.Devemos
apoiar iniciativas como o MSU. Além de solidariedade,
trata-se de pensar a universidade a partir de uma perspectiva
social e não-elitista.
ANTONIO
OZAÍ DA SILVA