Entre fantasmas... E fantasias

Por FLÁVIO MARCOS SILVA SARANDY

Professor de sociologia do ensino médio do Centro Educacional Leonardo Da Vinci, Vitória/ES

Fantasias de todo tipo – religiosas ou políticas e até científicas. Para a direita ou para a esquerda, sempre podemos encontrar – estão lá – fabulações sobre o mundo que encontram respostas em muitos espíritos. Nada contra ao que parece ser a marca de nossa existência no planeta, nossa capacidade quase ilimitada de produzirmos imaginariamente a vida. O problema começa quando essas mesmas fantasias produzem barbárie, fundamentalismos de toda espécie, disseminam a intolerância ou, o que nos interessa aqui, precipitam atitudes que tentam desqualificar um projeto de caráter humanista por meio de acusações de cunho ideológico.

Em artigo recente [i] tivemos a oportunidade de observar a força dessas fantasias, alimentada pelo medo, pelo ódio ou, quem sabe, por interesses inconfessáveis. Trata-se da crença segundo a qual a campanha pela aprovação da emenda que visa a implantação da sociologia e da filosofia nos currículos de ensino médio, nada mais é que uma tentativa de se criar um programa de divulgação da “ideologia comunista”. Na verdade, se assim fosse, a aprovação do referido projeto pelo Senado Federal – e sua sanção pelo Presidente da República – seria uma jogada de mestre, pois de hora em diante estaria aberto um canal para transformar cada aluno deste país num ouvinte passivo do discurso enrugado dos velhos comedores de criancinhas. Claro, considerando que todas as vagas para professores fossem ocupadas pelos militantes/ simpatizantes da ideologia marxista. Considerando que todos os professores de filosofia ou sociologia – e também os alunos em formação – tivessem afinidade com tal perspectiva. Considerando ainda que os programas das graduações em ciências sociais ou filosofia tivessem como único objetivo ensinar o pensamento do filósofo alemão – ou uma de suas possíveis leituras.

Para aceitarmos essa “tese” precisaríamos também descartar o fato de as ciências sociais serem celeiro de uma infinidade de correntes teóricas e de autores de perspectivas diversas sobre o mundo social, tais como Weber, Simmel, Durkheim, Mauss, Foucault, Berger, Goffman, Fromm, Lévi-Strauss, Castoriadis ou Pareto - para citar alguns exemplos. E ainda não poderíamos lembrar que as escolas possuem autonomia para construir seus projetos pedagógicos ou que os manuais de sociologia disponíveis no mercado divergem em vários pontos quanto ao seu ensino. Mas nada disso importa para um entendimento simplista da questão. Não vem ao caso levantarmos tantos aspectos que tornam difícil crer numa manipulação da realidade em tão larga escala, digna de Deus. Nesse jogo de retórica, só falta mesmo alguém aventar a hipótese de que toda a movimentação em torno do projeto – que já vem sendo feita há alguns anos – estaria relacionada ao próximo pleito eleitoral e que o próprio Lula teria interesse direto na questão. Mas não, a neurose deve ter lá os seus limites...

Proponho uma alternativa: antes de tudo, é preciso que se esclareça que existem filósofos de todos os matizes teóricos (ou ideológicos, se preferirem). O mesmo se pode dizer sobre sociólogos, historiadores, matemáticos ou físicos – alguém acredita que um professor de biologia não pode influenciar politicamente seus alunos? Isso nos remete à questão seguinte: a sala de aula não se resume a um professor discursando para alunos sequiosos em beber cada palavra como se fossem verdades inquestionáveis. Ao contrário, as práticas pedagógicas se orientam cada vez mais para a manipulação de conteúdos, a observação, a pesquisa, a contraposição de perspectivas diferentes, a análise de situações-problema, o papel ativo do aluno e o respeito à sua lógica, seus conhecimentos prévios e seu ritmo, como atesta o sociólogo Philippe Perremoud.

Mas o caso é que a sociologia pode ser uma contribuição importante para a formação de nossos jovens educandos. Não porque tenha uma missão ou um projeto de “emancipação política”. Nada mais falso. Nem mesmo porque pode proporcionar o desenvolvimento do “pensamento crítico”. Afinal, o pensamento crítico não se desenvolve por meio da aprendizagem de algum conteúdo específico. Creio que os objetivos da sociologia são bem mais modestos. Mais que discorrer sobre uma série de conceitos, a disciplina pode contribuir efetivamente para a formação humana na medida em que proporcione a compreensão de nossa inserção na trama social. E isso por meio da problematização da realidade próxima dos educandos, permitindo-lhes “ver os mesmos panoramas por diferentes perspectivas” – segundo a cientista política Marta Zorzal e Silva [ii] –, tanto quanto pelo confronto com realidades culturalmente distantes. O que proponho é que seja qual for o conteúdo, ele será sempre um meio para se atingir o fim: o desenvolvimento da perspectiva sociológica. Trata-se de uma apropriação, por parte dos educandos, de um modo de pensar distinto sobre a realidade humana; o que lhes permitirá ser mais críticos até mesmo em relação ao que alguns julgam ser o mal do qual se deve prevenir as futuras gerações. Ensinar sobre “lutas de classes e modo de produção” certamente não constitui o objetivo dessa disciplina; o que, aliás, já é feito nas aulas de história. Tão pouco seria ensinar sobre o liberalismo. O objetivo é muito mais proporcionar uma tomada de consciência sobre como a nossa personalidade está relacionada à linguagem, aos gestos, às atitudes, aos valores, à posição social e aos papéis sociais; enfim, desvelar e discutir narrativas sociais – suas implicações, seus dilemas, o que falam da heterogeneidade cultural e da estrutura social. Numa frase, ensinar sociologia é, antes de tudo, desenvolver uma nova postura cognitiva no indivíduo. Eis o aspecto humano essencial dessa disciplina.

O que se conclui de todo esse debate é que convivemos com um futuro que se pretende (pós) moderno – o que dizer de estudos sobre a implicação do pragmatismo de Richard Rorty na educação, realizados por professores e alunos de pós-graduação da Unesp/Marília, coordenados pelo Dr. Paulo Ghiraldelli Jr. [iii] , por exemplo? – e com o ranço de um passado que insiste em se manter vivo. Um ranço alimentado por fantasias que não fazem mais que atualizar um debate que teria lugar tão somente nos livros de história, pois polarizam questões educacionais entre ideologias políticas, retomando um discurso anticomunista que sucumbiu com a queda do muro há mais de uma década. Certos discursos, que pretendem exorcizar fantasmas obscurecendo a mente ao invés de iluminá-la, servem somente ao autoritarismo congênito de nossa sociedade. Pior que isso: não contribuem para se pensar o que poderia ser, de fato, a sociologia e a filosofia no Ensino Médio, pois que não estão sustentados em reflexão competente, mas em delírios. Apenas.

 

FLÁVIO MARCOS SILVA SARANDY

     


[i] Carvalho, Olavo de. “Filósofos a granel”. Época, 9 de julho de 2001, nº 164.

[ii] Doutora em Ciência Política pela USP, professora da Universidade Federal do Espírito Santo. Gazeta Mercantil, 11 de dezembro de 2000.

[iii] Ver, entre outros, Guiraldelli Jr., Paulo. Filosofia da Educação. Rio de Janeiro, DP&A Editora,  Coleção “O que você precisa saber sobre”, 2000


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