Fantasias
de todo tipo – religiosas ou políticas e até científicas.
Para a direita ou para a esquerda, sempre podemos encontrar
– estão lá – fabulações sobre o mundo que encontram respostas
em muitos espíritos. Nada contra ao que parece ser a marca
de nossa existência no planeta, nossa capacidade quase ilimitada
de produzirmos imaginariamente a vida. O problema começa quando
essas mesmas fantasias produzem barbárie, fundamentalismos
de toda espécie, disseminam a intolerância ou, o que nos interessa
aqui, precipitam atitudes que tentam desqualificar um projeto
de caráter humanista por meio de acusações de cunho ideológico.
Em artigo
recente
[i]
tivemos a oportunidade de observar a força
dessas fantasias, alimentada pelo medo, pelo ódio ou, quem
sabe, por interesses inconfessáveis. Trata-se da crença segundo
a qual a campanha pela aprovação da emenda que visa a implantação
da sociologia e da filosofia nos currículos de ensino médio,
nada mais é que uma tentativa de se criar um programa de divulgação
da “ideologia comunista”. Na verdade, se assim fosse, a aprovação
do referido projeto pelo Senado Federal – e sua sanção pelo
Presidente da República – seria uma jogada de mestre, pois
de hora em diante estaria aberto um canal para transformar
cada aluno deste país num ouvinte passivo do discurso enrugado
dos velhos comedores de criancinhas. Claro, considerando que
todas as vagas para professores fossem ocupadas pelos militantes/
simpatizantes da ideologia marxista. Considerando que todos
os professores de filosofia ou sociologia – e também os alunos
em formação – tivessem afinidade com tal perspectiva. Considerando
ainda que os programas das graduações em ciências sociais
ou filosofia tivessem como único objetivo ensinar o pensamento
do filósofo alemão – ou uma de suas possíveis leituras.
Para
aceitarmos essa “tese” precisaríamos também descartar o fato
de as ciências sociais serem celeiro de uma infinidade de
correntes teóricas e de autores de perspectivas diversas sobre
o mundo social, tais como Weber, Simmel, Durkheim, Mauss,
Foucault, Berger, Goffman, Fromm, Lévi-Strauss, Castoriadis
ou Pareto - para citar alguns exemplos. E ainda não poderíamos
lembrar que as escolas possuem autonomia para construir seus
projetos pedagógicos ou que os manuais de sociologia disponíveis
no mercado divergem em vários pontos quanto ao seu ensino.
Mas nada disso importa para um entendimento simplista da questão.
Não vem ao caso levantarmos tantos aspectos que tornam difícil
crer numa manipulação da realidade em tão larga escala, digna
de Deus. Nesse jogo de retórica, só falta mesmo alguém aventar
a hipótese de que toda a movimentação em torno do projeto
– que já vem sendo feita há alguns anos – estaria relacionada
ao próximo pleito eleitoral e que o próprio Lula teria interesse
direto na questão. Mas não, a neurose deve ter lá os seus
limites...
Proponho
uma alternativa: antes de tudo, é preciso que se esclareça
que existem filósofos de todos os matizes teóricos (ou ideológicos,
se preferirem). O mesmo se pode dizer sobre sociólogos, historiadores,
matemáticos ou físicos – alguém acredita que um professor
de biologia não pode influenciar politicamente seus alunos?
Isso nos remete à questão seguinte: a sala de aula não se
resume a um professor discursando para alunos sequiosos em
beber cada palavra como se fossem verdades inquestionáveis.
Ao contrário, as práticas pedagógicas se orientam cada vez
mais para a manipulação de conteúdos, a observação, a pesquisa,
a contraposição de perspectivas diferentes, a análise de situações-problema,
o papel ativo do aluno e o respeito à sua lógica, seus conhecimentos
prévios e seu ritmo, como atesta o sociólogo Philippe Perremoud.
Mas o
caso é que a sociologia pode ser uma contribuição importante
para a formação de nossos jovens educandos. Não porque tenha
uma missão ou um projeto de “emancipação política”. Nada mais
falso. Nem mesmo porque pode proporcionar o desenvolvimento
do “pensamento crítico”. Afinal, o pensamento crítico não
se desenvolve por meio da aprendizagem de algum conteúdo específico.
Creio que os objetivos da sociologia são bem mais modestos.
Mais que discorrer sobre uma série de conceitos, a disciplina
pode contribuir efetivamente para a formação humana na medida
em que proporcione a compreensão de nossa inserção na trama
social. E isso por meio da problematização da realidade próxima
dos educandos, permitindo-lhes “ver os mesmos panoramas por
diferentes perspectivas” – segundo a cientista política Marta
Zorzal e Silva
[ii]
–, tanto quanto pelo confronto com realidades
culturalmente distantes. O que proponho é que seja qual for
o conteúdo, ele será sempre um meio para se atingir o fim:
o desenvolvimento da perspectiva sociológica. Trata-se de
uma apropriação, por parte dos educandos, de um modo de pensar
distinto sobre a realidade humana; o que lhes permitirá ser
mais críticos até mesmo em relação ao que alguns julgam ser
o mal do qual se deve prevenir as futuras gerações. Ensinar
sobre “lutas de classes e modo de produção” certamente não
constitui o objetivo dessa disciplina; o que, aliás, já é
feito nas aulas de história. Tão pouco seria ensinar sobre
o liberalismo. O objetivo é muito mais proporcionar uma tomada
de consciência sobre como a nossa personalidade está relacionada
à linguagem, aos gestos, às atitudes, aos valores, à posição
social e aos papéis sociais; enfim, desvelar e discutir narrativas
sociais – suas implicações, seus dilemas, o que falam da heterogeneidade
cultural e da estrutura social. Numa frase, ensinar sociologia
é, antes de tudo, desenvolver uma nova postura cognitiva no
indivíduo. Eis o aspecto humano essencial dessa disciplina.
O que se conclui de todo esse debate é que convivemos com um futuro que
se pretende (pós) moderno – o que dizer de estudos sobre a
implicação do pragmatismo de Richard Rorty na educação, realizados
por professores e alunos de pós-graduação da Unesp/Marília,
coordenados pelo Dr. Paulo Ghiraldelli Jr.
[iii]
, por exemplo? – e com o ranço de um passado
que insiste em se manter vivo. Um ranço alimentado por fantasias
que não fazem mais que atualizar um debate que teria lugar
tão somente nos livros de história, pois polarizam questões
educacionais entre ideologias políticas, retomando um discurso
anticomunista que sucumbiu com a queda do muro há mais de
uma década. Certos discursos, que pretendem exorcizar fantasmas obscurecendo
a mente ao invés de iluminá-la, servem somente ao autoritarismo
congênito de nossa sociedade. Pior que isso: não contribuem
para se pensar o que poderia ser, de fato, a sociologia e
a filosofia no Ensino Médio, pois que não estão sustentados
em reflexão competente, mas em delírios. Apenas.