Estima-se que, no Brasil, cerca de 15 milhões de pessoas
têm algum tipo de necessidade especial.
As necessidades especiais podem ser de vários tipos: mental,
auditiva, visual, físico, conduta ou deficiências múltiplas.
Deste universo, acredita-se que, pelo menos, noventa por cento
das crianças, na educação básica, sofram com algum tipo de dificuldade
de aprendizagem relacionada à linguagem: dislexia, disgrafia
e disortografia. Entre elas, a dislexia é a de maior incidência
e merece toda atenção por parte dos gestores de política educacional,
especialmente a de educação especial.
A dislexia é a incapacidade parcial de a criança ler compreendendo
o que se lê, apesar da inteligência normal, audição ou visão
normais e de serem oriundas de lares adequados, isto é, que
não passem privação de ordem doméstica ou cultural.
Encontramos disléticos em famílias ricas e pobres. Enquanto
as famílias ricas podem levar o filho a um psicólogo, neurologista
ou psicopedagogo, uma criança, de família pobre, estudando em
escola pública, tende a asseverar a dificuldade persistir com
o transtornos de linguagem na fase adulta. Talvez, por essa
razão, isto é, por uma questão de classe social, a dislexia
seja uma doença da classe média, exatamente porque, temporão,
os pais conseguem diagnosticar a dificuldade e partir para intervenções
médicas e psicopedagógicas.
No âmbito das instituições de ensino, relatos de professores
registram situações em que crianças, aparentemente brilhantes
e muito inteligentes, não podem ler, escrever nem têm boa ortografia
para idade. Nos exames vestibulares, as comissões executivas
descrevem casos "bizarros" (às vezes, motivo de chacotas)
em que candidatos apresentam baixo nível de compreensão leitora
ou a ortografia ainda é fonética (baseada na fala) e inconstante.
Assim, urge a realização de testes de leitura nas escolas
públicas e privadas, desde cedo, de modo a diagnosticar e avaliar
a dificuldade de leitura. Por trás do fracasso escolar ou da
evasão escolar, sempre há fortes indícios de dificuldades de
aprendizagem relacionadas à linguagem.
Nos casos de abandono escolar, em geral, também, verificamos
crianças que deixam a escola por enfrentarem dificuldades de
leitura e escrita. A dispedagogia, isto é, o desconhecimento
por parte dos professores, pais e gestores educacionais, do
que é a dislexia e suas mazelas na vida das crianças e dos adultos
também só piora a aprendizagem da leitura de seus alunos.
Infelizmente, a legislação educacional (CF, LDB, resoluções
etc) não trata as diversas necessidades especiais dos educandos
de forma clara, objetiva, pragmática e programática. Sua omissão
tem de certa forma dificultado ações governamentais por parte
dos gestores, do professor ao secretário de educação. A Constituição
Federal , por exemplo, ao tratar sobre a educação especial diz:
" O dever do estado com a educação será efetivado mediante
a garantia de atendimento educacional especializada aos portadores
de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino"(Artigo
208, III, CF). E perguntaria ao leitor: uma criança, com dislexia,
isto é, com dificuldade de ler bem, é um portador de deficiência?
Claro que não. A Lei 9.394/96, a de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional, apresenta uma melhor redação sobre a matéria.
Diz assim: " O dever do estado com a educação escolar pública
será efetivado mediante a garantia de atendimento educacional
especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais,
preferencialmente na rede regular de ensino" (Art. 4º,
LDB). Melhorou e, em muito, porque faz referências às necessidades
especiais. Nesse caso, chegamos, por dedução ou exegese jurídica,
à conclusão de que a dislexia é uma necessidade especial. Mas
qual a natureza dessa necessidade especial?
Por exclusão, diríamos que uma criança com dislexia não é
portadora de deficiência nem mental, física, auditiva, visual
ou múltipla. O disléxico, também, não é uma criança de alto
risco. Uma criança não é disléxica porque teve seu desenvolvimento
comprometido em decorrência de fatores como gestação inadequada,
alimentação imprópria ou nascimento prematuro. A dislexia tem
um componente genético, exceto em caso de acidente cérebro-vascular
(AVC). Ser disléxico é condição humana.
O disléxico pode, sim, ser um portador de alta habilidade.
Daí, em geral, os disléticos, serem talentosos na arte, música,
teatro, deportes, mecânica, vendas, comércio, desenho, construção
e engenharia. Não se descarta ainda que venha a ser um superdotado,
com uma capacidade intelectual singular, criativo, produtivo
e líder.
O disléxico pode, também, ser um portador de conduta típica,
com síndrome e quadro de ordem psicológica, neurológica e lingüística,
de modo que sua síndrome compromete a aprendizagem eficaz e
eficiente de leitura e escrita, mas não chega a comprometer
seus ideais, idéias, talentos e sonhos. Por isso, diagnosticar,
avaliar e tratar a dislexia, conhecer seu tipo, sua natureza,
é um dever do Estado e da Sociedade e um direito de todas as
famílias com crianças disléxicas em idade escolar.
VICENTE
MARTINS