O
século XX não acabou sem que ao menos uma mulher tivesse a coragem
de denunciar a prática da excisão e infibulação, praticadas,
no início da puberdade, em meninas de algumas partes do mundo.
Em fevereiro de 1999, Mariatou Koita, 23 anos, foi a primeira
a recorrer à justiça francesa, alegando sofrer muito com isso
e não querer que suas filhas passem pelo mesmo processo.
Mulheres
como ela, oriundas de culturas que acham correto tal procedimento,
sofrem, em países como a França, ao se depararem com a realidade
onde é crime o que para alguns é sagrado.
As
indiciadas Hawa Gréou (praticante) e Dienaba Koita (mãe de Mariatou)
foram condenadas, respectivamente, a cinco e dois anos de prisão.
Mariatou
é francesa proveniente da segunda geração da imigração africana.
Acredita-se que alguém da primeira geração, por causa das convicções
interiores e da pressão coletiva, jamais se atreveria a denunciar.
As que tentam manifestar-se contra são acusadas de desavergonhadas,
ocidentalizadas e de fazer com que a identidade cultural africana
se perca.
A
prática da excisão varia de acordo com a cultura de cada povo
que ainda a adota. Consiste
na mutilação do clitóris (órgão do prazer sexual feminino) e
dos pequenos lábios vaginais. A excisão mínima, utilizada no
oeste da África e na Indonésia, é a retirada do capuz do clitóris.
Temos
ainda, no leste africano (Djibuti, Etiópia, Somália, Sudão,
Egito, Quênia), a infibulação, também chamada de excisão faraônica,
considerada a pior de todas, pois, após a amputação do clitóris
e dos pequenos lábios, os grandes lábios são secionados, aproximados
e suturados com espinhos de acácia, sendo deixada uma minúscula
abertura necessária ao escoamento da urina e da menstruação.
Esse orifício é mantido aberto por um filete de madeira, que
é, em geral, um palito de fósforo. As pernas devem ficar amarradas
durante várias semanas até a total cicatrização. Assim, a vulva
desaparece sendo substituída por uma dura cicatriz. Por ocasião
do casamento a mulher será “aberta” pelo marido ou por uma “matrona”
(mulheres mais experientes designadas a isso). Mais tarde, quando
se tem o primeiro filho, essa abertura é aumentada. Algumas
vezes, após cada parto, a mulher é novamente infibulada.
A
operação é sempre feita por mulheres (matronas) em suas próprias
casas ou nas casas dos pais da vítima, em troca de presentes
pelo trabalho efetuado. A menina
é posta no colo de sua mãe que segura suas pernas abertas. A
vagina é então mutilada, sem anestesia, por instrumentos como
uma lâmina de barbear, uma faca de lâmina flexível ou mesmo
tesouras.
São
inúmeras as conseqüências. Esse momento abominável pode provocar
um choque cardíaco, grandes hemorragias ou sangramentos contínuos
que levam à morte, problemas
com órgãos vizinhos. Os hematomas e queimações ocasionados
pela passagem da urina podem gerar retenção urinária. Posteriormente
costuma-se observar: perturbações menstruais; infecções locais,
urinárias e genitais que motivam a esterilidade; partos complicados;
repercussões na saúde mental, como ansiedade, angústia, depressão,
etc.
Há
uma luta travada entre o governo francês e os praticantes de
tal rito, que na sua origem, significava a separação dos sexos.
Na tradição de Mali, o céu fecundou a terra antes de sua excisão
dando origem ao chacal, semeador da desordem no mundo. Assim
sendo, a criança nascida de uma mulher não excisa vem anunciar
a desordem e o azar.
A
mortalidade ligada a essa prática atinge em torno de 600.000
mulheres no mundo. Na França, mais de 20.000 mulheres por ano
são mutiladas. Em 1982, Awa Thiam criou a CAMS-F – Comissão
de Abolição de Mutilações Sexuais da França, tendo como eixo
o aspecto jurídico do considerado crime.
O
tema, entre vários outros, foi discutido no 15º Congresso Mundial
de Sexologia ocorrido de 24 a 28 de junho deste ano, em Paris.