A
recente queda de Alberto Fujimori da presidência do Peru e a
eleição de Alejandro Toledo trouxe de volta às manchetes um nome que causava calafrios em muitas pessoas que acompanhavam
o noticiário internacional nos anos 80 e que desapareceu na
última década: Sendero Luminoso. Fujimori (e seu assecla Montesinos)
proclamam que um dos méritos de seu governo foi a derrota desse
grupo, o que é negado por seus opositores. A importância desse
grupo na história do Peru e as razões de sua ascensão e queda
merecem alguma atenção e reflexão de nossa parte, por indicarem
caminhos e problemas da história recente da América Latina,
nem de longe limitados ao Peru.
O
Sendero Luminoso não
era o único grupo em atuação no Peru nas últimas décadas. Havia
também, por exemplo, o Puka Llacta (Pátria Vermelha) e o Tupac
Amaru, ligados a grupos urbanos e mesmo a correntes políticas
e militares mais à esquerda. O Sendero, contudo, foi o mais
importante e o que mais chama a atenção.
A
origem desse movimento deve ser buscada no XX Congresso do PCUS
em 1956. Este Congresso, ao denunciar o estalinismo, causou
uma divisão na esquerda em todo o mundo. O Peru não foi exceção:
em 1964, ocorreram fraturas no Partido Comunista do Peru e,
entre legendas e sublegendas em choque, desenvolveu-se um grupo
que defendia a tese do caráter semifeudal e semicolonial do
Peru e a necessidade da revolução comunista caminhar do campo
para a cidade, numa clara inspiração na revolução chinesa de
Mao Tsé Tung. Nascia o Sendero Luminoso.
Nos
anos 70, Abimael Guzman, líder desse grupo, concentrou seus
esforços em organizar seus quadros e fazer um trabalho de doutrinação
em Ayacucho, região miserável onde Guzman era professor de filosofia
e que ele via como o
lugar ideal para fazer a pregação de suas idéias. Em 1980, finalmente,
o Sendero Luminoso iniciou sua luta armada, também em Ayacucho.
No
decorrer dos anos 80, a guerrilha do Sendero cresceu, se espalhando
por todo o país e engajando as próprias Forças Armadas na sua
repressão. Eles se espalharam pela selva e pelas periferias
das cidades, e a luta foi intensa por longos anos, com enormes
violações dos direitos humanos e grande número de mortes de
lado a lado.
Para
o Sendero, o Estado peruano seria uma ditadura de latifundiários
feudais e grandes burgueses apoiados pelo imperialismo norte-americano.
Esse Estado se sustentaria pela violência. Frente a esta, o
povo, organizado em torno do Sendero, deveria responder na mesma
moeda, através da violência revolucionária, prosseguindo
no objetivo de cercar as cidades a partir do campo. Para eles,
eleições seriam apenas uma ilusão, a serem ignoradas na busca
de mudanças.
Dentro
dessa visão senderista (a qual é claramente influenciada pelo
maoísmo, obviamente reinterpretado a partir da situação peruana),
portanto, a violência armada é o único caminho para a revolução
e também para mudar efetivamente a ordem social do país quando
e se o poder fosse conquistado. Cálculos do próprio movimento nos anos 80 estimavam em 1 milhão o
número de pessoas que deveriam morrer para a consolidação do
novo Estado e a mudança dos padrões da sociedade. Feito isto,
mais um passo teria sido dado para a quebra da ordem capitalista,
com a quarta espada, a de Guzman, se reunindo as de Marx, Lenin
e Mao no caminho da Revolução Mundial.
Essa
visão de violência como solução para os problemas estava presente
não apenas nas palavras, mas também nos atos do Sendero: eram
contínuas as denúncias de massacres de camponeses e opositores,
de julgamentos sumários, etc. Sendo realmente assim, poderíamos
nos perguntar de onde vinha a força do movimento. Como é possível que ele tenha quase
chegado ao controle do Estado lutando contra todo o poder das
forças armadas do Peru enquanto tratava a população civil com
tamanha brutalidade?
A
questão é realmente intrigante. Como um movimento extremamente
violento, repudiado pela esquerda tradicional e incompreensível
para grande parte da intelectualidade peruana conseguia apoio
popular?
O
primeiro elemento a ser levado em conta para explicar isso é
o fato do Sendero Luminoso procurar se integrar à vida dos camponeses
pobres. Ao contrário dos políticos tradicionais, fazendo seus
discursos em espanhol sobre democracia, parlamentos e outras
questões longe do cotidiano dos camponeses, o Sendero fazia
sua propaganda em idioma indígena e oferecia soluções práticas
para o dia a dia de muitos peruanos: aplicação sumária da justiça,
com a eliminação de elementos anti sociais (como estupradores
e ladrões), repartição de bens, etc.
Além disso, o Sendero Luminoso tinha uma política de respeito
aos camponeses que era inovadora em termos de uma sociedade
racista e desigual como a peruana. O Manual do Sendero Luminoso
dava, por exemplo, algumas regras chaves para os guerrilheiros:
obedecer em todas as ações, entregar o objeto capturado, não
maltratar os prisioneiros, não estragar as plantações, respeitar
as massas, não tomar nem uma agulha das pessoas, falar com cortesia.
Evidentemente, essas regras não se aplicavam aos que, claramente,
se opunham ao movimento, que eram tratados então com extrema
brutalidade.
Um
outro elo de ligação do Sendero com as massas camponesas era
a sua apropriação das lendas e da mitologia indígena. O movimento
se apresentava, ao menos aos olhos dos camponeses, como a reedição
do Império Inca, pronto a destruir o Império dos brancos e aproveitava
todas as oportunidades de reforçar essa imagem. As mortes de
delatores, por exemplo, eram
anunciadas por um cadáver de cachorro. Algo aparentemente absurdo,
mas que passa a fazer sentido se nos recordarmos que, na cultura
inca, os mortos deviam ser enterrados com seus cachorros.
A
forma de luta do Sendero e sua ligação com as massas camponesas
e das periferias das grandes cidades peruanas poderia ser, portanto,
algo totalmente incompreensível para nós, mas fazia algum sentido
para ao menos parte da população peruana. Evidentemente, isso
não significa dizer que todo camponês ou indígena era um senderista,
mas essa combinação de violência extrema e uma proposta com
algum apelo popular conseguiu fazer do Sendero Luminoso um sério
candidato ao poder no Peru do início dos anos 90.
No
entanto, a própria violência do movimento conseguiu alienar
a maioria dssas pessoas que podiam ver algum sentido naquelas
propostas. Para completar, o governo Fujimori decidiu abandonar
quaisquer regras e abriu
uma verdadeira “guerra suja” contra a guerrilha e seus adeptos
ou simpatizantes. Uma avaliação do quanto sangue correu durante
essa “guerra suja” (e de quantos civis e inocentes pagaram o
preço por ela) é algo
que ainda vai ocupar tempo e energia da sociedade peruana por
alguns anos. Mas é possível reconhecer que essa repressão maciça ajudou a eliminar
a força da guerrilha (já abalada, sem dúvida, por seus próprios
erros e problemas). Também a hipótese da ligação do fujimorismo
com os traficantes de cocaína ter eliminado uma das fontes de
sustento financeiro da guerrilha não deve ser descartada para
explicar sua decadência. De qualquer forma, o Sendero Luminoso
hoje é uma sombra do que foi e poderíamos considerá-lo uma página virada da História. No entanto,
sua derrota final ainda não foi decretada e talvez possamos
aprender algo mesmo se nos restringirmos aos acontecimentos
até o presente momento.
Várias
questões maiores emergem, realmente, da experiência do Sendero
Luminoso. Uma delas é sobre a singularidade peruana. Algumas
pessoas dizem que, na Colômbia, por exemplo, uma explicação
para as guerrilhas que varrem o país há décadas deve ser buscada
na distribuição homogênea de população (e poder) pelo seu território,
levando a um Estado central fraco e incapaz de reprimir adequadamente
os descontentes. E para o Peru? Talvez uma especificidade peruana
que explique a existência do Sendero Luminoso tenha sido a existência
de um líder como Guzman e de uma população de origem indígena
capaz, como visto, de ver algum sentido nas suas propostas.
Mas por que a situação não se repetiu, então, na Bolívia ou
Equador, onde os indígenas também são maioria? Isso para não
falar do caso brasileiro, onde não conseguimos encontrar uma
explicação convincente do porquê de não termos tido movimentos guerrilheiros de importância nos anos 60 e 70. Estado
centralizado, ausência de população indígena, erros da esquerda?
Não temos uma resposta clara, mas são questões que
merecem alguma reflexão para entendermos as enormes particularidades
dos países da América Latina.
Questões
mais gerais também emergem.
Quando o Estado democrático (ainda que democrático apenas na
forma) se vê em ameaça
por uma força que deseja ostensivamente eliminá-lo, ele tem
o direito de reagir, mas devem haver limites para sua reação?
Provavelmente, mas e se esses limites realmente tornarem impossível
a preservação do Estado de direito frente a seus inimigos? Mas
valeria a pena preservá-lo usando os mesmos instrumentos dos
que querem destruí-lo ou para manter apenas uma “casca” democrática
encobrindo uma sociedade corrupta e desigual? E
será que a repressão total e aberta é o único caminho para resolver
impasses como este? São pontos a discutir, evidentemente, mas o fato de Vladimiro Montesinos
estar preso, agora, na mesma prisão que ele mandou construir
para abrigar os líderes do Sendero Luminoso e a enorme satisfação
que essa ironia da História dá ao autor indica um pouco nossas
opiniões a respeito.