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RESENHA
PRIORI,
Angelo (Org.) - O Mundo do Trabalho e a Política
Maringá,
EDUEM, 2001
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“O
Mundo do Trabalho e a Política”
Conceitos
como “globalização” e “capital financeiro” geram outros
como o de “flexibilização” e “qualificação”, afetando
diretamente a relação produtiva e o desenvolvimento do
trabalho, ainda que de forma diferenciada, em todas as
nações. “O Mundo do Trabalho e a Política”, pela editora
da Universidade Estadual de Maringá, organizado por Angelo
Priori, reúne diversos autores de orientação não exatamente
unívoca que compartilham, no contexto de sua interdisciplinariedade,
a preocupação com os rumos desse processo.
Fetichismo
é, segundo Caldas Aulete, “veneração (...) exagerada,
supersticiosa”. A flexibilização da relação trabalhista
tornou-se um fetiche e é apontada como solução absoluta
para a redução de um “Custo-Brasil” que compreende diversos
outros elementos. Nessa esteira de modernidade e precariedade,
o trabalhador, cercado pelo discurso neoliberal, é o grande
alvo de iniciativas redutoras de conquistas afirmadas
quer pelo ordenamento jurídico quer pela organização alcançada.
No espírito do que escreve o Professor Hugo Agudelo, embora
não seja razoável transformar a legislação trabalhista
em uma espécie de lei pétrea, a flexibilização hoje promovida
exige reflexão. Seria sempre verdade que o contrato temporário
de trabalho (Lei n. 9.601) provoca o aumento das contratações?
Quais os efeitos da redução da jornada de trabalho?
A
Professora Ana Cláudia Hebling Meira, conduz interessantes
conclusões a respeito, apontado o direito trabalhista
como “bode expiatório”, em “uma tentativa de busca do
consenso e passivização das classes subalternas”. Encontra-se
também sugestiva crítica sobre a gestão participativa.
Crítica que não seria aplicada ao modelo cooperativo de
que trata a Professora Maria Nezilda Culti. Maquilados
os antagonismos estruturais da organização social, em
razão das novas relações de trabalho e da qualificação
exigida pelo capital produtivo, como aponta a Professora
Maria Izabel de Sousa Lopes, e ainda que estas novas exigências
cultivem crescente individualismo, há
trabalhadores que, por outro lado, têm demonstrado
como criatividade e solidariedade podem impedir o esfacelamento
da consciência de classe. Merecido destaque às cooperativas
de trabalho, que vão além da participação secundária do
empregado, e os unem no gerenciamento de sua própria força
de trabalho.
Como
se nota, as alterações no sistema produtivo teriam esvaziado
de sentido a concepção de classe trabalhadora ou oposição
entre lucro e proletariado. O fator do trabalhado polivalente
e do profissional em constante evolução, porém, não escondem
que a migração de empresas para locais onde a força de
trabalho é menos preparada é tão real quanto a informatização
dos processos. Incentivos fiscais e exploração maior da
mão de obra são para muitos setores tão ou mais
atraentes que a escolaridade de seus funcionários.
Esta constatação não ameniza o problema mas desmente
em muito a inusitada concepção de que o insucesso do trabalhador
decorre de sua própria culpa e desídia, no molde mais
liberal. Tratam disso de forma mais concentrada as Professoras
Maria de Fátima Garcia e Sylvia Maria Gomes Faria.
O
aspecto jurídico da flexibilização do trabalho atinge
previsões de meio século. Mas se é verdade que se referiu
Vargas certa vez aos empregadores críticos dos novos direitos
trabalhistas taxando-os de estúpidos e nos seguintes termos:
“O que estou fazendo é salvá-los”, também e verdade que
a positivação desses direitos abriu caminho para diversas
ações que tornam a Justiça do Trabalho hoje uma espécie
de cenário do protesto social. O aspecto neutralizador
das garantias deixa de ser primordial no momento em que
os aplicadores do direito armam-se de novas concepções.
A preservação desses instrumentos é fundamental. Comenta
a consagração legal dos direitos do trabalhador rural
e a evolução de sua aplicação pelos juízes o Professor
Angelo Priori.
Esse
mesmo trabalho rural e sua “modernização conservadora”,
impulsionada pela cultura de gêneros de exportação, na
forma de outro ensaio do Professor Hugo Agudelo, foram
responsáveis pela constituição e atual negação (dispensa
crescente) de grupos que, normalmente à margem dos principais
direitos, traduzem-se por “bóias-frias”. Aliás, ao adotar
neste texto pontos de vista nada incontroversos, como
o faz em relação a alguns pressupostos da teoria globalizante,
o professor revela a riqueza plural da discussão veiculada
pelo livro, revelando o interesse instigador do debate
em sua organização.
Ficam
por conta das Professoras Telma Maranho Gomes e Celene
Tonella, os aspectos do mau direcionamento da Administração
e do uso eleitoreiro do primordial instrumento que é a
assistência social, entre outros, O afastamento das populações
mais oprimidas para a periferia das cidades e a atuação
paliativa do Estado constituem um dos sofismas que permitem
ainda a existência alienante de diversos setores sociais.
Maringá é a cidade analisada. Definitivamente, não é a
“Dallas brasileira”.
Finalmente,
a trajetória do partido político mais representativo do
país é o assunto do Professor Antônio Ozaí da Silva. O
Partido dos Trabalhadores, nascido da luta operária, marcadamente
da atividade sindical, foi desde sua primeira infância
tomado por divergências resultantes de sua complexidade,
gerada mesmo pela amplitude dos grupos a que alcançava,
e ainda alcança. A tendência dominante “Articulação”,
a “ART”, e as demais tendências do partido envolveram-se
num embate que, antes de tudo, gerou inovação. Resultou
singularidade oriunda principalmente da dificuldade com
que o partido enfrentou o desfecho da experiência socialista,
a que pejorativamente se referem os críticos como “socialismo
real”, e a revelação desta própria divisão intestina que
refez conceitos sobre a democracia procurada pelos trabalhadores,
atingindo um projeto dotado de especial originalidade.
Os sucessos e fracassos da escolha pela via eleitoral
e pelo trabalho político institucionalizado são também
apresentados e comentados pelo autor.
Enfim,
estão aqui unidos temas naturalmente indissociáveis.
Trabalho e Política não se podem separar, sob pena de
esvaziamento desta e desorientação daquele. As alterações
acolhidas pelo conceito de “flexibilização”, e ainda outros,
têm implicações sérias nas relações de trabalho. Nesta
linha, “O
Mundo do Trabalho e a Política” é uma provocante fonte
de reflexões.
ANDRÉ
DEL GROSSI ASSUMPÇÃO