Em
1986, a DS realizou seu último congresso enquanto
organização política. Em 1988, realizou sua 1ª Conferência
Nacional. Então, já havia mudado seu caráter organizativo:
a DS se assumia publicamente enquanto Tendência interna
do PT.
A
mudança na denominação (organização/tendência) não é uma
questão meramente formal. Nesse espaço de tempo, ocorreram
modificações no PT e na própria DS que resultou numa
reavaliação sobre o seu papel na
construção do PT. O principal fator foi a nova realidade
instituída pela aprovação do direito de Tendência, aprovada
no 5º EN. Ao se assumir enquanto Tendência, a DS
buscava se adaptar à conjuntura e, ao mesmo tempo, aprofundar
sua concepção estratégica sobre o PT.
Esta
mudança foi facilitada pela análise otimista que a DS
fazia do PT no período. O partido teria avançado em suas
definições políticas: mantido e aprofundado a independência
política de classe, cumprindo um papel fundamental na formação
da CUT e se constituído enquanto alternativa à Nova República.
Avaliando
positivamente o 5º EN, a DS concluiu que o PT avançara
em suas definições socialistas e esboçara uma estratégia
que, apesar das ambigüidades, o colocava no campo da revolução.
Alem disto, destacou que as relações cada vez mais próximas
entre o PT e os processos revolucionários na América Central
reforçava o sentimento e a identificação revolucionária
da militância.
Apesar
dessa avaliação, a DS não chegou a caracterizar o
PT como partido revolucionário. Concluía que faltava uma
direção partidária com um projeto de construção e uma composição
de forças que representasse o potencial revolucionário do
partido. A luta por sua construção enquanto tal – objetivo
que norteia a linha política da DS desde a fundação
do PT– permanecia atual.
Esse
combate seria travado em torno de três questões centrais:
a subordinação da luta institucional à luta de massas –
e, de forma correlata, a necessidade da ruptura revolucionária
e da destruição do Estado burguês; a organização do PT como
partido militante e dirigente; e, a constituição de um núcleo
dirigente capaz de unificar os revolucionários no interior
do PT, inclusive de setores da articulação.
A
assimilação da organização em tendência não foi um simples
enquadramento à regulamentação definida pelo 5º EN. Embora
criticasse alguns aspectos dessa (como por exemplo, a não
aceitação da proporcionalidade em todas as instâncias dirigentes),
esta mudança representava um desenlace natural, resultante
da sua caracterização do PT, da proximidade da sua linha
política e, até mesmo, identificação com setores da corrente
majoritária.
De
qualquer forma, a nova definição acarretou mudanças na forma
de organização anterior: a estrutura organizacional da tendência
exigiu uma maior flexibilização, ou seja, um afrouxamento
da militância e uma maior absorção das características do
PT. A referência ao modelo leninista de organização foi
mantida, mas com a ressalva dela adaptar-se à realidade
brasileira.
As
posições da DS neste período expressavam a linha
política internacional definida no IV Congresso da IV
Internacional (SU), realizado em 1985. Neste, o Secretariado
Unificado (SU) adotou uma política flexível com o objetivo
de favorecer a recomposição da esquerda revolucionária.
Isso pressupunha ampliar a compreensão sobre o conceito
que define o revolucionário. Essa postura facilitou o diálogo
com outras correntes políticas.
O
otimismo revolucionário da DS parecia corroborado
com a ascensão da esquerda no final da década de 1980. Mas,
em 1989, a conjuntura nacional já dava sinais de mudanças.
Com a experiência petista nas prefeituras, especialmente
em São Paulo, irrompiam elementos negativos que não passaram
despercebidos à DS.
Avaliando
a gestão Erundina, Corrêa observa a desorientação da militância
petista, aprofundada pela fragilidade do partido na capital
paulista e pela relação crescentemente tensa entre a direção
municipal e a administração. O tecnicismo e o administrativismo
provocavam o “entorpecimento da visão política”, prevalecendo
a adaptação à rotina do cotidiano. A não observância destas
lacunas refletiam-se na “manutenção de relações que variam
do paternalismo ilustrado e benevolente” às “visões assistencialistas”
e práticas clientelistas.
A
DS foi uma das principais forças políticas de sustentação
da candidatura Erundina. Sua crítica tomava em consideração
as dificuldades inerentes á administração popular, como
por exemplo, o cerco montado pela burguesia, cujos holofotes
ampliavam os problemas que surgiam. Para ela, o partido
deveria aprofundar os elementos positivos da sua política
e romper com o tecnicismo. Era necessário, portanto,
uma correção dos rumos.
Essa
postura guardou coerência com a concepção estratégica que
a DS formulou nessa fase. A estratégia democrática
e popular passou a ser concebida como um movimento articulado
entre a ruptura com a ordem burguesa e o avanço sobre a
institucionalidade, simbolizada por uma pinça, e
que prevê a construção de novas formas de poder popular.
A
estratégia da “pinça” diferencia-se tanto da experiência
bolchevique quanto dos modelos de guerra popular prolongada.
Sua síntese seria a “guerra de movimento prolongado”, isto
é, o “confronto de massas prolongado contra o Estado e o
grande capital”.
Essa
hipótese buscava superar os desvios de direita – reformista
ou social-democrata – e os desvios esquerdistas. No primeiro
caso, a ênfase é colocada na possibilidade dos trabalhadores
conquistarem posições no aparato do Estado via deslocamento
de forças no interior deste. Para a DS, o erro principal
desta postura estaria na crença de que o Estado é neutro.
Na economia, este equívoco se desdobra numa “ótica distributivista”
que se aproxima das teorias keynesianas e neo-keynesianas.
No
plano da atuação política, o reformismo social-democrata
promove uma “divisão do trabalho” entre partido e sindicato.
Ao primeiro caberia se dedicar à disputa institucional-parlamentar;
o segundo, “se esgota em uma dinâmica economicista, tendendo
a se institucionalizar e a verticalizar suas estruturas”.
O
erro de esquerda consistiria no estabelecimento de “um programa
maximalista, combinado com o objetivo do poder popular à
margem da conjuntura, sem equacionar a relação de seu desenvolvimento
com a crise da institucionalidade burguesa”. Daí as dificuldades
das correntes esquerdistas em admitir o caráter estratégico
do PT, ou mesmo seu “caráter de massas e democrático”.
Ao
contrário de algumas Tendências críticas à social-democratização
do PT, a DS observou que este partido, por seu caráter
pragmático – inerente à sua natureza – diferencia-se radicalmente
do modelo de partido de quadros e se aproxima das primeiras
definições de Marx sobre a organização política dos trabalhadores.
A
DS, admite a possibilidade de adaptação do PT à ordem
burguesa. Mas isto não estaria determinado a priori,
nem representaria a única opção política. Analisando comparativamente
o caso do PT, a DS observa as diferenças entre este
e a experiência social-democrata alemã: a expansão capitalista
naquele país; seu caráter imperialista; sua potencialidade
de integração; a ideologia nacionalista como fator de cooptação.
A
DS reafirma aqui uma postura comum entre os marxistas
que permaneceram no PT, fundamentada na afirmação de que
este ainda seria um processo em aberto, ou seja, que a própria
direção do PT ainda estaria em disputa, havendo a possibilidade
de formação de uma direção revolucionária que corrigiria
sua “tentação reformista”:
“O
que estamos fazendo é simplesmente, como marxistas, entender
que a luta de classes não se faz em uma só direção, por
uma só via, que, se os trabalhadores exercem um esforço
de desestruturação da ordem, as classes dominantes realizam
vários movimentos e pressões no sentido de neutralizar,
subordinar e até integrar o movimento dos trabalhadores”.(grifos do original)
No
Brasil, a capacidade do capitalismo em integrar os trabalhadores
seria limitada por sua natureza dependente e subdesenvolvida
e a burguesia demonstrara uma reiterada incapacidade de
exercer “uma hegemonia duradoura e de massas”. Fica, portanto,
a possibilidade de conquista da hegemonia socialista. Para
isso, a esquerda – e particularmente o PT – deve se contrapor
de forma antagônica à ideologia, leis e instituições burguesas,
reafirmando o “sentimento de estranhamento, de oposição,
de alteridade dos trabalhadores em relação aos valores
burgueses”.(grifos do original)
A
estratégia da pinça tem como princípio a manutenção
da independência política dos trabalhadores. A atuação do
partido na institucionalidade, o acúmulo de forças, insere-se
na perspectiva de construção da hegemonia dos trabalhadores,
isto é, com o objetivo de mudar a correlação de forças a
seu favor. Sua hipótese estratégica central se fundamenta
na
“noção
de que a ruptura com a ordem burguesa será o resultado de
um movimento articulado, em pinça, dos trabalhadores sobre
o centro do poder burguês, isto é, pela combinação do
avanço sobre a institucionalidade com a criação de novas
formas de poder popular”.(grifos do original)
Essa
formulação foi apresentada sem sua tese ao 7º EN. Nesta,
a DS avalia a trajetória do PT, tomando como ponto
de partida o 5º EN, o qual identificara a existência de
uma crise orgânica do PT.Para a DS, os problemas apontados
naquele encontro foram aprofundados. Estes se originam no
distanciamento entre a organização do partido e os objetivos
estratégicos e a própria concepção de partido adotada. Isso,
aponta a DS, pode ser visualizado na contradição
entre suas declarações e sua prática.
O
5º EN, por exemplo, afirmou que o partido subordinava a
luta institucional à organização independente dos trabalhadores.
Porém, como reconhece a DS, isto não estava refletindo
na organização partidária, que continuava “motivada principalmente
pelo calendário eleitoral e pela conquista de postos na
institucionalidade”. Este estreitamento institucionalista
prejudicou o crescimento orgânico do PT, embora ampliasse
sua base eleitoral.
Outro
exemplo: o PT sempre se colocou favoravelmente à democracia
interna, o pluralismo político que o acompanha desde a fundação
assim o comprova. No entanto, prevaleceu um distanciamento
em relação às bases, da atuação destas no movimento social
em relação à participação no partido, e um processo de centralização
política no âmbito das direções. A democracia ficou reduzida
ao formalismo eleitoral. Em suma, a revolução na
organização preconizada pelo 5º EN, não só não ocorrera,
como se intensificara os fatores negativos.
Estas
questões foram levantadas num momento em que a discussão
estratégica era impulsionada pelo impacto do Leste Europeu.
Para a DS, o que aconteceu nesses países representa
“o colapso do stalinismo e de seus sucedâneos imediatos,
bem como das concepções “campistas” de desenvolvimento da
revolução mundial”. Em sua avaliação, essa crise abriu um
período de disputa de projetos políticos que colocava em
pauta a luta pela “eliminação das burocracias”, condição
necessária para a retomada do “desenvolvimento num sentido
socialista”.
Estava
aberto um período de disputas de projetos políticos. O primeiro,
representado pelas forças favoráveis à restauração do capitalismo;
o segundo, pela possibilidade de prolongamento da dominação
burocrática, o que pressupunha a reciclagem da burocracia;
o terceiro, que corresponderia aos interesses da maioria
da população, a construção do ”socialismo autêntico, democrático”.
Este último, reconheceu a DS, é o que tinha menos
condições de viabilizar-se. Isto devido à confusão ideológica,
resultante da dominação stalinista.
Esta
análise corresponde às teses desenvolvidas pelo Secretariado
Unificado.O SU, diferentemente das outras vertentes
trotskistas, viu na glasnost um elemento de positividade,
expressado no retorno da democracia e na extensão substancial
das liberdades individuais. O fracasso de Gorbatchov é explicado
pela incapacidade da sua política econômica em reformar
o sistema. Mandel argumentou que o fracasso de Gorbatchov
confirmava a impossibilidade de auto-reforma da burocracia.
Porém, da mesma forma que seria um equívoco “mergulhar em
ilusões” quanto às chances dessa política, seria igualmente
equivocado não reconhecer os aspectos positivos da glasnost.
A
DS compartilha da clássica análise da natureza degenerada
dos estados operários e, portanto, da tese da ruptura stalinista
nos anos 30 – quando teria se consolidado a contra-revolução.Ela refuta os que, na crítica ao stalinismo,
recaem no subjetivismo idealista. “Tornou-se moda falar da crise do marxismo,
do leninismo como responsável pela burocratização”, afirma.
Por outro lado, a DS se diferencia das análises objetivistasao admitir que, embora a burocracia tivesse
condições favoráveis para desenvolver-se, seu triunfo não
era inevitável. Ela, a burocracia, se impôs numa luta política
em que “pesaram tanto os erros cometidos pelos que a ela
se opunham quanto as posições conquistadas pelos que a encabeçaram
e cujo resultado não poderia ser definido de antemão”.
Segundo
Mandel, a interpretação marxista-revolucionária (isto é,
trotskista), foi a única que emergiu vitoriosa neste processo.
Por outro lado, ele admite que mesmo esta análise não dá
conta da complexidade das questões colocadas. O foco dessa
abordagem centrou-se na ascensão da burocracia e
na “estabilidade relativa de seu poder e privilégios”. A
queda do muro e o fim da URSS impõe a análise do declínio
e da decomposição desta camada social. “A dialética
do declínio não é idêntica a dialética do ascenso”, afirma.
Estas
questões foram o pano de fundo das discussões marcaram que
o 7º EN do PT. A DS criticou o fato desse encontro
não ter adotado uma emenda sobre Cuba, a qual registrava
os elementos negativos do castrismo mas o diferenciava das
demais experiências do socialismo real. Isto significa
reconhecer que, em Cuba, a “revolução continua viva”. Mas,
no conjunto, o saldo é considerado positivo.
Neste
encontro, houve uma visível polarização entre a VS e
a NE, de um lado; e, do outro, a DS e os “cavaleiros
da tradição”.Estes setores não constituem pólos homogêneos.
A questão cubana é um exemplo: para muitos, a posição da
DS representa a capitulação ao castrismo, que seria
uma variante do stalinismo. Outro ponto polêmico, principalmente
entre as correntes trotskistas internacionais, foi a reunificação
da Alemanha nos moldes como se deu. A DS era a favor
de uma Alemanha unida e socialista, o que naquela
conjuntura, significava concretamente se opor à reunificação.
No
conjunto das forças petistas, a DS situa-se numa
posição centrista (na linguagem dos demais grupos
trotskistas). Neste ponto, também concordaria os ideólogos
do PPB. Franco diria que a DS acalenta um
“velho sonho de ser conselheira da maioria”, num projeto
de conquistar a maioria e dirigir o partido.
De
fato, os anos 90 impunham novos reordenamentos entre as
forças da esquerda.
Com a queda do muro, também caíram barreiras que dificultavam
o aprofundamento do diálogo entre Tendências de diferentes
tradições e origens. A própria necessidade de superação
da crise gerada pela nova situação mundial e de fornecer
respostas aos desafios colocados por uma conjuntura em acelerado
e permanente processo de transformações foi um fator aglutinador
(mas também desagregador).
O
crescimento eleitoral do PT também favoreceu a recomposição
de forças. A tensão entre a institucionalidade e a perspectiva
revolucionária. Se de um lado esta conjuntura nacional e
internacional contribuiu para alianças como a que formou
o PPB; por outro gerou alianças no campo oposto.
O 1º Congresso do PT foi determinante nesta dinâmica. Já ali se configurou
os pólos em disputa. A tese da DS privilegiou os
temas da estratégia e da construção partidária. Ela partiu
do pressuposto de que o partido já adotara uma resolução
sobre a questão do socialismo e que, ainda que o congresso
o adotasse como tema central, não teria condições de esgotá-lo.
Assim,
a DS retomou a discussão da alternativa democrática
e popular, numa tentativa de aprofundar as resoluções do
5º EN. Na segunda parte da tese, examinou a evolução do
partido em seu aspecto organizativo. Embora admitisse que
houve avanços – a regulamentação do direito de tendência
e a adoção da proporcionalidade – a DS considerou
que, no fundamental, permaneceram os problemas assinalados
anteriormente. O PT continuava “movendo-se pelo calendário
eleitoral e pela conquista de postos na institucionalidade”.
Se
essa análise era comum a maioria das Tendências à esquerda
no PT – inclusive de parte da ART – o mesmo não ocorreu
quanto às propostas concretas para mudar este rumo: na discussão
do Fora Collor!, a DS ficou com a posição
majoritária; também não acompanhou a CS, OT, TM
e outros, na discussão sobre as Tendências.
O
congresso acabou centrando-se na discussão sobre o socialismo.
Mesmo assim, a DS fez uma avaliação positiva – outro
ponto divergente com as correntes à esquerda. Ao contrário
da social-democratização do PT que muitos viram, a DS
concluiu que esse congresso acentuou “a vitalidade do PT
como partido classista e socialista” e foi “uma grande vitória
para os socialistas”.Os derrotados teriam sido as posições
do PPB e o “esquerdismo doutrinário”.Para a DS,
a única vitória do PPB se deu em torno da
discussão da ditadura do proletariado.
Na
avaliação da DS, a evolução do quadro político refletido
no 1º Congresso colocava a questão da construção do PT num
novo patamar. Esta perspectiva fora levantada posteriormente
ao congresso. Quando realizou sua II Conferência, em agosto,
a DS manteve as mesmas concepções sobre o seu papel
e a construção do PT, aprovadas em 1988. A organização considerou
mais apropriado retomar esta discussão após o 1º Congresso.
Num balanço de julho de 1992, João Machado, dirigente da
DS e da Executiva Nacional do PT, avaliou que, com
as mudanças na conjuntura pós-1989, se iniciou um novo período
da construção do PT.
O
que mudou no PT? Para o dirigente petista, uma primeira
mudança está no fato das discussões estratégicas, programáticas
e de identidade política ganharem uma nova e mais importante
dimensão. Por outro lado, como já assinalamos, os ventos
do Leste tornaram obsoletas as diferenças políticas calcadas
nas análises que dividam o mundo em campos opostos. Isso
facilitou a unidade com parte da ART e outros setores
do PT. Machado concluiu que, desde 1990, o PT entrara num
período marcado pela “crise de hegemonia e disputas de rumos”.
Para
a DS, tratava-se de formar um campo político à esquerda
capaz de viabilizar a superação dos impasses e contradições
vividos pelo PT desde o início da década de 90. O desafio
era retomar a discussão da construção do PT como partido
dirigente, capaz de intervir no plano institucional e no
movimento social em coerência com a estratégia democrática
e popular formulada nos encontros anteriores e dentro de
uma perspectiva anti-capitalista e revolucionária. Retomar
a estratégia democrática e popular: eis o objetivo declarado
que unificaria amplos setores da esquerda petista.
O
8º EN do PT, representou o momento privilegiado para
concretizar esta perspectiva. Apesar da esquerda não conseguir
formar uma chapa única, consolidou-se a nova correlação
de forças que gestava-se no interior do PT, tornando real
a perspectiva da esquerda em hegemonizá-lo. Seu desafio
era concretizar a hegemonia.
A
III Conferência Nacional da DS, avaliou que o resultado
desse encontro correspondeu às expectativas: recomposição
da direção partidária, como expressão do sentimento de revalorização
do PT. A DS considera ainda que o encontro deixou
claro que as posições à esquerda eram majoritárias no PT.
Por outro lado, confirmou que “o 8º EN não poderia por si
só garantir a superação da crise da hegemonia no partido;
ele foi um momento importante que avança nesta direção,
mas que exige desdobramentos”.
Para
poder enfrentar a nova realidade, a DS considerou
imprescindível que a Opção de Esquerda se constituísse
como núcleo dirigente, um polo que funcionasse coletivamente.
Ao mesmo tempo, pretendia aprofundar o relacionamento com
as demais forças petistas, de acordo com as especificidades
de cada caso. Do NLPT, como parte da maioria que
se formou no 8º EN, a DS esperou “maior responsabilização
com as tarefas de direção partidária”. Nesse campo, a DS
pretendeu estreitar relações diferenciadas com as Tendências
que tem maior acordo político: como a Força Socialista e
o MTM, em alguns estados.
Com
a Unidade na Luta, a DS defendeu um tratamento
diferenciado: polarizar politicamente com os setores próximos
ao PPB (e com este) e colaborar no processo de dirigir
o partido. Por outro lado, ao se propor a construir a hegemonia
da direção, a partir da Opção de Esquerda, a DS
tinha claro que sua relação com Unidade na Luta envolvia
a disputa política. Aqui, a DS levanta um dos fatores
que nos ajuda a compreender porque, no processo posterior
ao 8º EN, a velha ART retomou a maioria no partido.
Referimo-nos à sua importância e peso político – mantidos
mesmo depois do racha.
Com
efeito, a esquerda vitoriosa no 8º EN, não conseguiu se
impor: nem como maioria dirigente, nem como nova hegemonia.
A DS antecipara esta possibilidade ao afirmar que
a Articulação Unidade na Luta, “por sua participação
histórica na direção, por suas expressões públicas e pela
experiência dos seus quadros, pode continuar, mesmo minoritária,
dirigindo ao partido de fato”.
Como
as demais Tendências petistas, a DS se envolveu na
campanha eleitoral de Lula. No 9º EN colaborou com o clima
de unidade e considerou positivo e necessário agir desta
forma. Como todos, esteve envolta nos dilemas suscitados
pela campanha eleitoral. Passado as eleições, chegou a hora
dos balanços. A DS também faria o seu.
Em
primeiro lugar, concluía que a nova direção não passara
por seu grande teste: a eleição de 1994. Frustração:
eis o sentimento que predomina. “A idéia mais forte, provavelmente,
é que, apesar das críticas que fizemos à antiga maioria
no 8º Encontro, não conseguimos promover uma mudança
significativa no partido”, avaliou.(grifos do original)
O
que aconteceu? Quais os fatores que explicam a incapacidade
em consolidar a hegemonia sinalizada pelo 8º EN? Vejamos
alguns elencados pela DS:
Divisão
no campo da esquerda e falta de um projeto comum de construção
partidária ( a Opção de Esquerda, como sabemos, resulta
da unificação de várias correntes no próprio processo do
8º EN);
Dificuldades
de relacionamento entre OE e NLPT: se havia
concordância em questões políticas, o mesmo não se dava
no tocante ao funcionamento da direção (o NLPT direcionara
sua ação pelo objetivo de marcar posições);
A
inclusão, na prática, de parcela da “antiga“ direção (Unidade
na Luta), que determinou a expressão pública do partido;
O
não cumprimento das resoluções do 9º EN pelo próprio candidato
e outros dirigentes do partido (O exemplo citado foi a viagem
de Lula, Mercadante e Marco Aurélio Garcia aos EUA, onde
expressaram posições sobre a dívida externa diferente das
tomadas pelo partido num “laborioso processo de acordos”);
Esvaziamento
das instâncias partidárias formais, com o deslocamento do
centro das decisões para a pessoa do Lula e dos assessores
que o rodeavam.
A “nova direção” resultou de uma
composição complexa e contraditória. A DS se rende
às necessidades conjunturais: “Era necessário que fosse
assim, até porque a disputa de 1994 exigia o partido o mais
unificado possível”.Porém, isto não anulou os elementos de
desagregação: não evitou que a esquerda se dividisse na
própria campanha (como por exemplo na questão da escolha
do vice, com NLPT favorável ao nome de Aloízio Mercadante
e a maioria da OE, dando preferência a outro nome
– que poderia ser Eduardo Suplicy).
Enfim, como reconhece a DS, a Opção de Esquerda
“foi presa tanto ou quase tanto os outros setores do partido da ilusão
de que era possível, ou mais que isso, provável, uma vitória
eleitoral sem polarização e mobilização popular; subestimou
o adversário (...) e não teve a capacidade de chegar a uma
avaliação coletiva do principal instrumento do adversário
(o Plano Real) e das formas de enfrentá-lo”.
Contudo,
a DS não se exime dos erros. Ela admite sua participação
em todas as falhas da OE e afirma que provavelmente
foi a que mais se equivocou na avaliação positiva do 9º
EN e ao superestimar a unidade mostrada nele. Por outro
lado, considera que errou menos no tocante ao Plano Real.
O maior fracasso, pelas próprias características da DS
e pela ênfase que dá a esta questão, foi na construção partidária.
Conclusão:
“O 8º Encontro deu um passo à esquerda, que se mostrou muito
insuficiente. É preciso completá-lo”.A esquerda tentaria cumprir esta tarefa,
no 10º EN. Mas, apesar de formar chapa unitária, chegara
a este encontro fragilizada por seus próprios erros e por
deserções em seu seio.
Em
dezembro de 1995, a DS avaliou todo esse processo na sua
Pré-Conferência e reafirmou a necessidade de disputar a
hegemonia no interior do PT. Para isso, apontou as seguintes
tarefas:
Manter
o PT “no campo antagônico à globalização e ao neoliberalismo
e no curso deste enfrentamento desenvolver um programa alternativo
global”;
Manter
o PT como partido independente;
Desenvolver as potencialidades do PT no sentido de torná-lo um “organizador
de amplos setores explorados, oprimidos e excluídos”;
Construir
a DS como “uma tendência socialista contemporânea”, incorporando
as reflexões e debates
da esquerda mundial no sentido de constituir uma
“alternativa anti-capitalista, socialista, feminista, democrática
e ecológica” e, também, desenvolver hipóteses estratégicas
para a política nacional/regional;
Constituir
um campo de esquerda no interior do PT em condições de disputar
a hegemonia.
Estas tarefas continuam atuais. A DS não só reafirmou-as como se propôs
a avançar em sua concretização estabelecendo metas que objetivam
recolocar o PT nos trilhos do melhor da sua história.