Nos
anos 80, a esquerda brasileira descobriu Gramsci. Fundador do
Partido Comunista Italiano, Gramsci, que morreu nos anos 30
em virtude de uma doença pulmonar contraída nas
prisões, refundou vários conceitos marxistas.
Um princípio político elaborado por ele foi muito
citado entre os militantes dos primeiros anos de vida do Partido
dos Trabalhadores: o de que é possível conquistar
o poder sem ser governo. O autor italiano fundamentava este
princípio no seu conceito de hegemonia, em que uma força
política consegue articular interesses difusos, num discurso
legitimamente aceito. Em suma, significava a capacidade de convencimento
popular e da habilidade de recompor interesses, que Gramsci
denominava de "cimento". O PT cultivava este conceito.
Lembro-me das primeiras reuniões dos núcleos de
base do partido ou reuniões ampliadas dos diretórios
zonais, onde figuras públicas (como Paul Singer, Suplicy,
Paulo Freire, Francisco Weffort ou Beth Mendes) disputavam a
palavra com militantes desconhecidos do grande público.
Era a necessidade de dar o exemplo do novo no cotidiano partidário.
Em 1989, quando auxiliei na elaboração do programa
de campanha de Lula, sentíamos a necessidade de realizar
amplos debates internos, procurando "cimentar" as
diferentes concepções, interesses e desejos. Logo
após a derrota para Collor, no primeiro seminário
do Governo Paralelo que Lula instalou, vários militantes
sentiram o que seria a escalada do discurso "realista"
dos economistas. De lá para cá, Gramsci foi aposentado
definitivamente.
Este
preâmbulo serve como apresentação da análise
do documento "Um Outro Brasil é Possível",
elaborado pelo Instituto da Cidadania e divulgado pela direção
nacional do PT em 18 de junho. O discurso economicista, onde
a lógica econômica é esvaziada de seu conteúdo
histórico e político, é a tônica
do documento. Esta, inclusive, foi a observação
dos participantes do seminário petista que ocorreu em
Porto Alegre, um dia após a divulgação
do documento.
As
propostas apresentadas apoiam-se numa preocupação
social. Logo em seu início, denuncia a concentração
de renda e riqueza, a exclusão social e a violência.
Apresenta como compromisso central a superação
da miséria e a extrema desigualdade, sustentado num projeto
democrático, que resgate a cidadania e o primado da soberania.
Diferencia-se da Terceira Via - a criação de Tony
Blair, que articula o incentivo à competição
do mercado com um governo coordenador - por considerá-la
um "pragmatismo capitulacionista". Também avança
na proposição de uma política de relações
internacionais clara, apoiada no fortalecimento do Mercosul,
no ataque frontal à ALCA e na busca de alianças
com a Índia, China, África do Sul e Rússia.
Propõe, ainda, a renegociação da dívida
externa. Finalmente, aponta 15 compromissos: a) crescimento
econômico sustentado, com ampliação do emprego
formal; b) recuperação da infra-estrutura básica;
c) redistribuição de renda e riqueza; d) novo
pacto federativo; e) ampliação da produção
de alimentos e política agrícola de apoio à
agricultura familiar; f) reforma agrária; g) habitação
popular; h) apoio à economia solidária; i) programa
de renda mínima; j) tolerância zero à fome;
k) aumento da escolaridade; l) segurança pública;
m) saúde pública; n) combate à corrupção
e sonegação; o) ciência e tecnologia. A
proposta tem por base a construção de uma nova
estrutura tributária, substituindo os tributos em cascata
por um tributo sobre valor agregado e unificando IPI e ICMS,
além de imposto progressivo sobre renda e propriedade.
O
forte cunho economicista do documento revela seu conservadorismo
político. O texto é frágil no que diz respeito
à reforma do aparelho de Estado e, principalmente, no
que tange ao aumento da participação popular na
gestão pública, marca das administrações
petistas até então. O papel do Estado fica reduzido
à sua intervenção econômica. As políticas
de participação são citadas de passagem
(no final de um parágrafo, à página 12,
e no último parágrafo do documento, à página
28), não aparecem como um dos 14 compromissos fundamentais
do "novo modelo". Ainda assim, é dada grande
ênfase às câmaras setoriais (que aparecem
citadas em três passagens do texto) que, como sabemos,
constituem instrumentos de regulação econômica.
Um documento, enfim, que coloca de cabeça para baixo
a tradição partidária.
Ainda
acredito que seja possível construir um outro Brasil.
Mais democrático, onde a justiça é construída
democraticamente pelos acordos entre cidadãos e não
pelas mãos de tecnocratas encastelados no aparelho de
Estado. Em suma, um outro Brasil um pouco diferenciado do apresentado
pelo Instituto da Cidadania.