Por RAYMUNDO DE LIMA
Professor
do DFE-UEM e membro da BFC-Centro de Psicanálise, de Curitiba.
Tornou-se
comum ouvirmos notícias que não raro envolvem
fé e bens, religião e dinheiro, aproximando
estas duas categorias estranhas ao verdadeiro cristianismo.
Em que pese que as igrejas estão inseridas no sistema
capitalista, a tendência recente parece levar algumas
a mudar sua linguagem e objetivos. Alguns homens de igreja
sintonizados com a globalização da economia,
já falam da igreja como "empresa rentável",
de "marketing da fé", "investimento
em Deus", etc. Este artigo toma como ponto de partida
outro publicado tempos atrás no Jornal do Brasil,
"Os novos vendilhões dos templos", cujos
autores e data não me recordo. A Seguir, algumas
observações em aberto às críticas.
Primeira, os escândalos e suspeitas de falta de
ética envolvendo dinheiro, mais aparecem nas chamadas
igrejas neopentencostais do que nas tradicionais denominadas
litúrgicas e congregacionais.
Segunda, nas neopentencostais, ficamos sabendo que qualquer
pessoa sem uma sólida formação teológica,
ou mesmo de passado imoral ou até mesmo gente que
veio do mundo do crime, basta que esta diga que foi tocada
pelo Altíssimo onde se supõe que o Espírito
Santo se manifestou em seu corpo e logo é promovida
a "pastor" e os mais ousados fundam de uma nova
igreja cujo nome nem sempre é original ou de inspiração
elevada. Ou seja, deveria existir enorme distância
entre a conversão de um criminoso e a sua ordenação
a pastor, mas o que se sabe é a recente inauguração
de um caminho de promoção pessoal e funcional
quase divino, que, queima etapas em prol de mais um agente
do sistema capitalista de montagem de "franquias"
de um novo templo.
Por tradição e bom senso, a formação
de religiosos sempre foi longa, difícil, ritualística,
e com certas provas de sacrifícios. Hoje, não.
Em tempos em que a sociedade pós-industrial acena
para nos sofisticarmos cada vez mais em novas formações
e reciclagens para acompanharmos o acelerado dinamismo
do mercado global, há igrejas fundamentalistas
caminhando na contramão, promovendo a ignorância
e fanatismo, e também inexcrupulosamente explorando
almas ingênuas nos seus propósitos inconfessos.
Tradicionalmente, o campo da fé sempre foi cenário
de erros, errâncias ou ilusões de pessoas
cientificamente ingênuas, mas nos tempos atuais,
não devemos confundir esses com os erros imorais
praticados por tanto por pessoas inescrupulosas como por
uma ou outra estrutura religiosa (na maioria, seitas)
que por vêzes "deforma" ou autoriza seus
pastores a lucros exorbitantes pessoais em nome da fé.
Nesse último sentido, ainda há aqueles que
distinguem-se pela "moral cínica", segundo
S. Sikek, são pessoas imorais que sabem que estão
roubando, mas mesmo assim, ainda vem a público
tentar argumentar que frases de efeito hipnotizador ao
seu público fanático, que na maioria das
vezes, parece acreditar na sua mentira cínica.
Terceira, a sociedade ao responsabilizar o médico,
o dentista, o psicólogo, o advogado, quando estes
erram. Sabe a quem se dirigir para os denunciar (os Conselhos
Regionais das Profissões, a Faculdade que o formou,
o MEC que autorizou, o Hospital a que pertence, etc),
mas no caso do pastor que erra ou da igreja que age de
modo imoral, a quem as pessoas lesadas vão denunciar?
Será que os pastores tendem a pensar que só
tem contas a prestar a Deus e nenhuma aos homens? Ora,
os policiais tem uma corregedoria para investigar desvios
e excessos de autoridade, será que os responsáveis
pelas igrejas, sob pena de um dia cair no descrédito
social, não deveria também ter uma "Corregedoria
Moral de Igrejas e Profissionais da Fé" para
investigar, julgar e punir os que pervertem a moral cristã?
Quarta, nas igrejas cristãs tradicionais, predominam
a discrição e o comedimento nas campanhas
do dízimo e, se pensarmos para além da relação
dinheiro X igreja, na relação fé
X métodos morais, também, nas tradicionais
parece existir certa racionalidade nas interpretações
dos textos sagrados, há um esforço em fazer
ligação dos textos com os problemas do povo,
ou seja, vão além da repetição
vazia de conteúdo e cheia de emocionalismos que
expulsa uma certa razão da práxis teológica.
Nos cultos neopentencostais, a voz dos pastores chega
a ser estridente, com gestos teatrais em abundância,
com insinuações as vezes de mau gosto, que
curiosamente parece agradar uma parcela inculta da população
propensa ao "êx-tase" (a ficar fora de
si), e, também, elevar o narcisismo do pastor a
showman da fé,(como foi caricaturado no filme "Fé
demais não cheira bem"). Pois bem, o poder
de persuasão do pastor faz uso abusivo dos testemunhos,
das profecias, dos exorcismos e também há
venda de bugigangas supostamente "santificadas".
Num determinado momento do culto, na maioria das novas
igrejas, o discurso do pastor é construído
para exercer uma pressão psicológica para
os presentes pagarem o dízimo, não de acordo
com o que cada um pode dar, mas de acordo com o que a
igreja (que são eles próprios) precisa ou
exige. Pode-se até mesmo levantar a hipótese
de que essa pressão psicológica, em vários
situações, trata-se de "assédio
moral" (Hirigoyen, M.-F. Ed., Bertrand Brasil, 2000),
na medida em que muitas pessoas silenciosamente sentem-se
mais que exploradas, sentem-se indefesas, vitimadas e,
se não entregaram suas economias aqueles que pressionam,
sentem culpa ou remorso. Tudo é programado segundo
o princípio do "vale tudo", desde que
se consiga a encenação de uma uma pseudo-cura,
uma fala que agrade quem está ouvindo. O "vale
tudo" neopentencostal vive a dimensão terrena,
se interessa pela expansão da igreja não
importa se transformada em empresas e franquias; mais
importante de tudo é a prosperidade, sinal que
Deus está gratificado também quem é
esperto em função de uma causa divina.
Quinta observação, apesar delas negarem,
estudos apontam que há pontos em comum entre as
igrejas cristãs neopentencostais e as religiões
afro-brasileiras. Há, em ambas, a crença
em "superstições", "arrebatamentos",
"incorporações" de entidades e
de demônios. "A pregação de boa
parte do neopentencostalismo está baseada no diabo;
de vez em quando Deus aparece"(CF).Ambas, há
superstições presentes na venda de óleos
santificados, de sal, água para combater doenças,
expulsar demônios, a concessão de bênçãos
por meio de imposição das mãos sobre
dores, carteiras de trabalho, retratos, nomes de pessoas
em pedaços de papel, etc. Não é de
se estranhar que, os pastores mais capazes de "curas"
e "expulsão dos demônios", antes
de se converterem na nova fé passaram pelas igrejas
afro-brasileiras.
Até mesmo a Bíblia tem sido usada não
para leitura e exegese da palavra de Deus, mas como simples
amuleto, um patuá contra mau olhado, encostos,
presença de espíritos imundos, etc. Tal
prática foi classificada por Pr. Caio Fábio
como "mãe de todas as heresias".
É espantoso reconhecer que as igrejas "dinheiristas"
conseguiram caminhar na contramão de Lutero, o
"pai do protestantismo" que, nas 95 teses contra
as indungências, pregava contra o comércio
de objetos sagrados, fetiches, etc. Novamente, é
a "moral cínica" dirigindo o destino
da instituição e de seus agentes: "eles
sabem que exploram, mesmo assim continuam explorando e
justificando o quanto seu gesto é moral!".
Na verdade, esse espírito da fé que poderíamos
denominar de "pós-moderno", está
sintonizado com o capitalismo pós-moderno ou pós-industrial:
tende a se espalhar rapidamente e a qualquer preço,
a exemplo do Mc Donald's, ora tem um discurso aparentemente
sofisticado e moral, mas que esconde sua verdadeira moral
cínica.
Assim como vem caindo a credibilidade social dos políticos
e governantes, receio que está em marcha no imaginário
das pessoas o mesmo processo de queda da confiança
nos homens de igreja que profanam o espaço do sagrado,
invertendo valores e a moral. Em breve poderemos ter uma
onda gigante de frustração coletiva diante
das novas seitas. É possível imaginar um
povo carente, sem esperança no poder político,
nos serviços públicos, jovens sem perspectiva
de emprego no futuro, e também esvaziados na fé
e nos sonhos. Na Europa, no início do terceiro
milênio, a maioria da população está
descrente em "Jesus" e "Deus", conforme
reportagem da Veja (jun/2001). Não seria devido
a essas contradições e desgastes dos nomes
divinos que tantas vezes foram invocados e usados em vão?
Não nos esqueçamos de São Lucas,
sobre os vendilhões do templo. Precisamos ir para
além de ouvir, escutar; para além de ver,
enxergar. Para além de cegamente crer, refletir
e melhorar nossas ações.