Tão longe e tão perto: a Comuna de Paris e nós

 

Por LÚCIO FLÁVIO R. DE ALMEIDA
Docente em Ciência Política na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC) e membro do Núcleo de Estudos sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS)


Luis Bonaparte, caindo na armadilha de Bismarck, inicia, em  julho de 1870, a guerra franco-prussiana. A França sofre derrotas acachapantes e o próprio imperador é aprisionado na batalha de Sedan. Em Paris, é proclamada a república, reconstitui-se a Guarda Nacional, com uma composição operária e popular, e se forma  um governo de defesa nacional. Este se depara com um dilema atroz: combater o invasor ou reprimir o povo parisiense? Defender a nação, em cujo nome tanto se bradou? Ou traí-la, juntando-se ao adversário externo na tarefa de reprimir o inimigo de classe?  Afinal, povo em armas é risco de revolução social. Paralisado por este dilema e envolvido em crescente corrupção, que, aliás, fora uma das marcas do II Império francês, o governo de defesa nacional chega a um final inglório.

Semelhante impasse os poderosos da França viveram durante a segunda guerra mundial, o que também possibilitou rápida derrota para o nazismo. Eis dois  momentos de surpreendente entrelaçamento das  lutas de classes com questão nacional. 

Thiers, o novo presidente da França, faz sua clara opção: capitular e “restabelecer a ordem interna”. Envia tropas para tomarem os canhões da Guarda Nacional, mas esta, com o apoio massivo de parisienses, resiste. Os soldados incumbidos de reprimir o povo confraternizam com este e não mais obedecem às ordem de seus comandantes. Inicia-se a Comuna de Paris, que durou 72 dias, até ser violentamente massacrada pelo exército francês, apoiado pelo alemão.

Apesar de sua curta duração, a Comuna realizou uma das mais fascinantes tentativas práticas de mudar a vida. As tarefas de governo foram incrivelmente simplificadas (o que foi ajudado pela fuga de grande parte dos altos burocratas);  caminhou-se bastante no sentido de subordinar os representantes aos representados; desenvolveram-se mecanismos de democracia direta; a corrupção foi reduzida a níveis insignificantes; algumas medidas extremamente simples apontaram para uma verdadeira revolução educacional. Uma frase tornada célebre por um participante e historiador da Comuna foi “estamos aqui pela humanidade”.

Cento e trinta anos depois, vivemos uma época de perplexidade. Ao longo do século XX, inúmeras tentativas de revolução socialista se esboroaram. Mas a exploração capitalista, livre, solta e saltitante, tem transformado  os que detêm o poder em verdadeiros delinquentes sociais. Eleitos pelo sufrágio universal, governos extremamente bem aparelhados esgrimem  o discurso da ética e da competência com a mesma  desenvoltura com que criminalizam as lutas dos explorados. Favorecem interesses  pouco nacionais,  envolvem-se  em grossa corrupção e transformam a vida de milhões de miseráveis em uma verdadeira guerra civil. 

O que significa, no limiar do século XXI, estar aqui pela humanidade? Eis uma questão que se impõe aos que não acham que a História acabou, querem transformar a perplexidade em descoberta e procuram uma alternativa à barbárie.

LÚCIO FLÁVIO R. DE ALMEIDA

     


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