Luis
Bonaparte, caindo na armadilha de Bismarck, inicia, em
julho de 1870, a guerra franco-prussiana. A França sofre
derrotas acachapantes e o próprio imperador é aprisionado na
batalha de Sedan. Em Paris, é proclamada a república, reconstitui-se
a Guarda Nacional, com uma composição operária e popular, e
se forma um governo
de defesa nacional. Este se depara com um dilema atroz: combater
o invasor ou reprimir o povo parisiense? Defender a nação, em
cujo nome tanto se bradou? Ou traí-la, juntando-se ao adversário
externo na tarefa de reprimir o inimigo de classe?
Afinal, povo em armas é risco de revolução social. Paralisado
por este dilema e envolvido em crescente corrupção, que, aliás,
fora uma das marcas do II Império francês, o governo de defesa
nacional chega a um final inglório.
Semelhante
impasse os poderosos da França viveram durante a segunda guerra
mundial, o que também possibilitou rápida derrota para o nazismo.
Eis dois momentos de
surpreendente entrelaçamento das
lutas de classes com questão nacional.
Thiers,
o novo presidente da França, faz sua clara opção: capitular
e “restabelecer a ordem interna”. Envia tropas para tomarem
os canhões da Guarda Nacional, mas esta, com o apoio massivo
de parisienses, resiste. Os soldados incumbidos de reprimir
o povo confraternizam com este e não mais obedecem às ordem
de seus comandantes. Inicia-se a Comuna de Paris, que durou
72 dias, até ser violentamente massacrada pelo exército francês,
apoiado pelo alemão.
Apesar
de sua curta duração, a Comuna realizou uma das mais fascinantes
tentativas práticas de mudar a vida. As tarefas de governo foram
incrivelmente simplificadas (o que foi ajudado pela fuga de
grande parte dos altos burocratas);
caminhou-se bastante no sentido de subordinar os representantes
aos representados; desenvolveram-se mecanismos de democracia
direta; a corrupção foi reduzida a níveis insignificantes; algumas
medidas extremamente simples apontaram para uma verdadeira revolução
educacional. Uma frase tornada célebre por um participante e
historiador da Comuna foi “estamos aqui pela humanidade”.
Cento
e trinta anos depois, vivemos uma época de perplexidade. Ao
longo do século XX, inúmeras tentativas de revolução socialista
se esboroaram. Mas a exploração capitalista, livre, solta e
saltitante, tem transformado
os que detêm o poder em verdadeiros delinquentes sociais.
Eleitos pelo sufrágio universal, governos extremamente bem aparelhados
esgrimem o discurso
da ética e da competência com a mesma
desenvoltura com que criminalizam as lutas dos explorados.
Favorecem interesses pouco
nacionais, envolvem-se
em grossa corrupção e transformam a vida de milhões de
miseráveis em uma verdadeira guerra civil.
O
que significa, no limiar do século XXI, estar aqui pela humanidade?
Eis uma questão que se impõe aos que não acham que a História
acabou, querem transformar a perplexidade em descoberta e procuram
uma alternativa à barbárie.