A remilitarização do Japão e a geopolítica do Extremo Oriente

 

Por JOÃO FÁBIO BERTONHA
Doutor em História e Professor da Universidade Estadual de Maringá


O novo primeiro ministro japonês, Junichiro Koizumi, tem sido um sucesso de mídia. Alguns dizem que, numa cultura política enfadonha como a japonesa, basta ter cabelos diferentes para fazer sucesso. Pode ser, pois, afinal de contas, ele não fez grandes obras e nem implantou mudanças expressivas na vida política e econômica japonesa. Com relação à política externa, não é diferente e, até agora, suas medidas tem sido simplesmente cosméticas e/ou ainda estão na esfera das intenções.

Duas delas, porém, já estão causando polêmica: modificar a Constituição para regularizar a existência das Forças Armadas e resistir às exigências dos outros povos asiáticos (especialmente da China e da Coréia do Sul) para que o país mude o enfoque dado à Segunda Guerra Mundial nos livros escolares.

O primeiro ponto pode causar espanto em quem não conheça as sutilezas do sistema político japonês. Desde a Segunda Guerra Mundial e a ocupação americana, o Japão, oficialmente, não tem forças militares e é o único país do mundo onde a renúncia à guerra como instrumento de política internacional está registrado na Constituição do país. Oficialmente, a defesa do território japonês estaria a cargo de uma aliança estratégica com os Estados Unidos e das "Forças de Autodefesa nacionais", sem status de forças armadas. A lei japonesa veta, além disso, que o orçamento dessa Agência de autodefesa possa superar 1% do PIB nacional.

Um por cento do PIB de um país como o Japão representa, porém, um dos maiores orçamentos militares do mundo e o país está longe de ser desarmado. As forças de autodefesa contam, por exemplo, com várias centenas de milhares de homens, alguns milhares de tanques e blindados, com toda a parafernália de helicópteros de ataque e artilharia de apoio. Sua Marinha conta com dezenas de navios de guerra e centenas de aviões de patrulha e a Força Aérea conta com centenas de aviões e mísseis, muitos dos quais de última geração. Grandes indústrias japonesas também fabricam material militar de primeira linha.

Evidentemente, a máquina militar japonesa tem problemas enormes. Seu espaço para treinamento é tão pequeno que muitas tropas tem que treinar em território americano. Além disso, ela não tem como projetar poder nas costas asiáticas e nem controlar as vias marítimas de longa distância, dependendo do apoio dos EUA. Além disso, as restrições legais (que impedem os soldados japoneses de serem utilizados fora do Japão a não ser em missões de paz da ONU) e de mentalidade impedem que essas forças sejam usadas de forma efetiva. Uma grande e poderosa força militar, mas presa em casa.

Durante a Guerra Fria, essa situação era conveniente ao Japão, mas os próprios americanos pressionavam por um maior engajamento militar japonês no mundo. O governo de Yasuhiro Nakasone, nos anos 80, intensificou essa tendência, mas respeitando os limites legais e mantendo a renúncia às armas nucleares. A partir de 1996, o Japão aceitou ampliar ainda mais, a pedido americano, seu papel em possíveis crises militares no continente asiático, mas sem envolvimento direto e aceitando a sua posição subordinada dentro do sistema estratégico americano.

O medo que fica no ar é que esta lenta transformação do sistema militar japonês seja a volta do velho Japão de antes da guerra, ou seja, um dos Estados mais militaristas e expansionistas que se teve notícia. China, Coréia, Filipinas (...) todos os países que foram afetados por este expansionismo reagem a essa possibilidade, talvez com alguma razão. As discussões sobre a revisão histórica também se encaixam nessa preocupação.

Ao contrário da Alemanha, por exemplo, que fez um grande trabalho de auto reflexão sobre os crimes nazistas e suas responsabilidades na Segunda Guerra, o Japão simplesmente aceitou o fato consumado da derrota e o necessário abandono de sua cultura militarista. Nem as responsabilidades pelo conflito são discutidas abertamente (e, quando o são, tendem a enfatizar a culpa dos Aliados) nem os imensos sofrimentos causados pelos japoneses aos outros asiáticos são admitidas. Um véu de silêncio e hipocrisia, que irrita e assusta os outros países asiáticos.

Dizer que esses medos são injustificáveis (pois parece realmente muito pouco provável a volta do velho Japão pré guerra) significa ignorar o enorme trauma coletivo que o imperialismo japonês causou nos asiáticos (e, especialmente, nos chineses e coreanos) e também a enorme reviravolta geopolítica que seria o rearmamento total e efetivo do Japão, o que leva os outros países a mobilizarem todos os argumentos disponíveis para evitar essa possibilidade.

Realmente, vamos imaginar que o Japão, num futuro próximo, considerasse não a volta do velho Estado militarista (algo impensável), mas simplesmente que não pode mais ficar dentro do guarda chuva americano e/ou subordinado estrategicamente a uma China em ascensão e decidisse investir pesadamente nas suas forças militares. Com o seu potencial econômico e tecnológico, ele teria potencial para construir uma força militar extremamente poderosa, que poderia quebrar todos os equilíbrios geopolíticos asiáticos. A China, que luta para se afirmar como a grande potência regional, teria que se defrontar com um rival histórico extremamente poderoso. A Rússia teria o seu peso no tabuleiro de xadrez do Oriente ainda mais reduzido e a Coréia do Sul se sentiria ameaçada. Os próprios Estados Unidos, apesar de provavelmente gostarem da idéia de ter tropas japonesas ao seu lado em conflitos asiáticos, talvez tivessem suas desconfianças se poderiam realmente controlar aquele colosso renascido.

Como dito acima, esse cenário é muito pouco provável (ainda mais devido à profunda resistência da população japonesa ao militarismo e ao seu envelhecimento rápido) e parece razoável acreditar que a intenção de Koizumi de admitir oficialmente a existência de Forças Armadas e de manter a História japonesa como está é mais um flerte com os conservadores em busca de apoio político do que uma estratégia clara e consistente de transformar o Japão na nova superpotência. Ainda assim, esse cenário permanece uma possibilidade teórica que iria, provavelmente, virar a Ásia de cabeça para baixo. Não é a toa o desconforto dos asiáticos e o enorme esforço destes para garantir que estes receberão os capitais e a tecnologia japonesas e não, como antes, as suas bombas.


 

 

JOÃO FÁBIO BERTONHA

     

 


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