O
novo primeiro ministro japonês, Junichiro Koizumi, tem
sido um sucesso de mídia. Alguns dizem que, numa cultura
política enfadonha como a japonesa, basta ter cabelos
diferentes para fazer sucesso. Pode ser, pois, afinal de contas,
ele não fez grandes obras e nem implantou mudanças
expressivas na vida política e econômica japonesa.
Com relação à política externa,
não é diferente e, até agora, suas medidas
tem sido simplesmente cosméticas e/ou ainda estão
na esfera das intenções.
Duas
delas, porém, já estão causando polêmica:
modificar a Constituição para regularizar a existência
das Forças Armadas e resistir às exigências
dos outros povos asiáticos (especialmente da China e
da Coréia do Sul) para que o país mude o enfoque
dado à Segunda Guerra Mundial nos livros escolares.
O
primeiro ponto pode causar espanto em quem não conheça
as sutilezas do sistema político japonês. Desde
a Segunda Guerra Mundial e a ocupação americana,
o Japão, oficialmente, não tem forças militares
e é o único país do mundo onde a renúncia
à guerra como instrumento de política internacional
está registrado na Constituição do país.
Oficialmente, a defesa do território japonês estaria
a cargo de uma aliança estratégica com os Estados
Unidos e das "Forças de Autodefesa nacionais",
sem status de forças armadas. A lei japonesa veta, além
disso, que o orçamento dessa Agência de autodefesa
possa superar 1% do PIB nacional.
Um
por cento do PIB de um país como o Japão representa,
porém, um dos maiores orçamentos militares do
mundo e o país está longe de ser desarmado. As
forças de autodefesa contam, por exemplo, com várias
centenas de milhares de homens, alguns milhares de tanques e
blindados, com toda a parafernália de helicópteros
de ataque e artilharia de apoio. Sua Marinha conta com dezenas
de navios de guerra e centenas de aviões de patrulha
e a Força Aérea conta com centenas de aviões
e mísseis, muitos dos quais de última geração.
Grandes indústrias japonesas também fabricam material
militar de primeira linha.
Evidentemente,
a máquina militar japonesa tem problemas enormes. Seu
espaço para treinamento é tão pequeno que
muitas tropas tem que treinar em território americano.
Além disso, ela não tem como projetar poder nas
costas asiáticas e nem controlar as vias marítimas
de longa distância, dependendo do apoio dos EUA. Além
disso, as restrições legais (que impedem os soldados
japoneses de serem utilizados fora do Japão a não
ser em missões de paz da ONU) e de mentalidade impedem
que essas forças sejam usadas de forma efetiva. Uma grande
e poderosa força militar, mas presa em casa.
Durante
a Guerra Fria, essa situação era conveniente ao
Japão, mas os próprios americanos pressionavam
por um maior engajamento militar japonês no mundo. O governo
de Yasuhiro Nakasone, nos anos 80, intensificou essa tendência,
mas respeitando os limites legais e mantendo a renúncia
às armas nucleares. A partir de 1996, o Japão
aceitou ampliar ainda mais, a pedido americano, seu papel em
possíveis crises militares no continente asiático,
mas sem envolvimento direto e aceitando a sua posição
subordinada dentro do sistema estratégico americano.
O
medo que fica no ar é que esta lenta transformação
do sistema militar japonês seja a volta do velho Japão
de antes da guerra, ou seja, um dos Estados mais militaristas
e expansionistas que se teve notícia. China, Coréia,
Filipinas (...) todos os países que foram afetados por
este expansionismo reagem a essa possibilidade, talvez com alguma
razão. As discussões sobre a revisão histórica
também se encaixam nessa preocupação.
Ao
contrário da Alemanha, por exemplo, que fez um grande
trabalho de auto reflexão sobre os crimes nazistas e
suas responsabilidades na Segunda Guerra, o Japão simplesmente
aceitou o fato consumado da derrota e o necessário abandono
de sua cultura militarista. Nem as responsabilidades pelo conflito
são discutidas abertamente (e, quando o são, tendem
a enfatizar a culpa dos Aliados) nem os imensos sofrimentos
causados pelos japoneses aos outros asiáticos são
admitidas. Um véu de silêncio e hipocrisia, que
irrita e assusta os outros países asiáticos.
Dizer
que esses medos são injustificáveis (pois parece
realmente muito pouco provável a volta do velho Japão
pré guerra) significa ignorar o enorme trauma coletivo
que o imperialismo japonês causou nos asiáticos
(e, especialmente, nos chineses e coreanos) e também
a enorme reviravolta geopolítica que seria o rearmamento
total e efetivo do Japão, o que leva os outros países
a mobilizarem todos os argumentos disponíveis para evitar
essa possibilidade.
Realmente,
vamos imaginar que o Japão, num futuro próximo,
considerasse não a volta do velho Estado militarista
(algo impensável), mas simplesmente que não pode
mais ficar dentro do guarda chuva americano e/ou subordinado
estrategicamente a uma China em ascensão e decidisse
investir pesadamente nas suas forças militares. Com o
seu potencial econômico e tecnológico, ele teria
potencial para construir uma força militar extremamente
poderosa, que poderia quebrar todos os equilíbrios geopolíticos
asiáticos. A China, que luta para se afirmar como a grande
potência regional, teria que se defrontar com um rival
histórico extremamente poderoso. A Rússia teria
o seu peso no tabuleiro de xadrez do Oriente ainda mais reduzido
e a Coréia do Sul se sentiria ameaçada. Os próprios
Estados Unidos, apesar de provavelmente gostarem da idéia
de ter tropas japonesas ao seu lado em conflitos asiáticos,
talvez tivessem suas desconfianças se poderiam realmente
controlar aquele colosso renascido.
Como
dito acima, esse cenário é muito pouco provável
(ainda mais devido à profunda resistência da população
japonesa ao militarismo e ao seu envelhecimento rápido)
e parece razoável acreditar que a intenção
de Koizumi de admitir oficialmente a existência de Forças
Armadas e de manter a História japonesa como está
é mais um flerte com os conservadores em busca de apoio
político do que uma estratégia clara e consistente
de transformar o Japão na nova superpotência. Ainda
assim, esse cenário permanece uma possibilidade teórica
que iria, provavelmente, virar a Ásia de cabeça
para baixo. Não é a toa o desconforto dos asiáticos
e o enorme esforço destes para garantir que estes receberão
os capitais e a tecnologia japonesas e não, como antes,
as suas bombas.