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Por ANTONIO
OZAÍ DA SILVA
Professor
da Universidade Estadual de Maringá; doutorando na Faculdade
de Educação (USP); autor de História das
Tendências no Brasil. .
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Nos primeiros anos
da década de 1980, a tendência O Trabalho evoluiu
de uma postura intransigente em relação ao PT para a integração
ao mesmo. Assim, da concepção de que o PT seria uma articulação
burguesa, OT passou a defender a possibilidade
dele se constituir no partido da IV Internacional, instrumento
da revolução socialista. Simultaneamente, ele passa a considerar
que para atingir este objetivo é necessário uma política
de estreita aproximação com a Articulação dos 113.
[1]
A atuação comum com a ART
nem sempre se deu de forma tranqüila. Embora OT tenha
demonstrado um esforço monumental para ser admitido nos
113, as relações eram dificultadas pela resistência
da própria ART à aliança com eles. Em 1985, por exemplo,
esta unidade foi rompida não porque OT quisesse, mas porque
a ART afastou-os. [2]
Era uma situação no mínimo interessante: de um lado, OT acreditando
sinceramente que a construção do PT como partido operário
independente tinha na ART a sua principal força impulsionadora,
e que, portanto, era necessário compor com ela; de outro,
a ART resistindo aos galanteios de OT, inclusive
excluindo-o da formação de chapas nos encontros do PT.
A persistência em aliar-se à ART significava, na outra ponta, um
crescente distanciamento em relação às demais Tendências
do campo petista. Nesse tema, a OT mostrou-se fiel
aliado da ART, exacerbando o discurso desta contra
as organizações e agrupamentos no interior do PT. [3]
Em 1987, essa política desembocou na aceitação formal da dissolução e
diluição da organização na ART. Para a maioria da
sua direção nacional, essa postura era coerente com a política
da tendência. Era o corolário natural do processo de identificação
com a ART. Afinal, se o PT, hegemonizado pela ART,
afirmou um curso à esquerda nestes anos e se a base política
de ambos (OT e a ART) era praticamente a mesma,
então não se justificava manter a tendência. A dedução óbvia
era pela fusão.
A minoria dirigente concordava com a construção de uma articulação em
torno do núcleo dirigente histórico do PT (Lula e os sindicalistas);
também tinha a mesma análise sobre o PT e a ART e
defendia a integração nela. “Isto porque o PT necessita
de uma ART permanente que, ao redor do núcleo de
Lula, reúna todos aqueles identificados com o curso que
o partido vem tendo”, afirma a resolução do X Encontro –
do qual, aliás, a ala que decidiu entrar na ART não
participou. [4]
A divergência era de ordem tática: como fazer para participar da ART.
A minoria dirigente não aceitava a dissolução da tendência.
Ela desejava a união com a ART, mas sob uma base
política que permitia-lhe manter a organização e os laços
com a IV Internacional. Mas, como construir esta
articulação comum sem dissolver-se? Em que consiste integrar-se
à esta? Eis sua resposta:
“Nos dispomos a construir uma ART comum, única no sentido de que
não nos apresentamos em separado nas instâncias do Partido,
respeitando sua maturidade e seu pluralismo, o qual pode
integrar o reconhecimento de nossos laços com a QI-CIR.
A partir daí, a manutenção de nossa estrutura, transparente,
poderia ser compatibilizada com a estrutura que uma ART
permanente viesse a construir”. [5]
A forma como assumiria este relacionamento entre a ART e uma corrente
que se define por sua adesão a um organismo internacional
seria objeto de discussão no processo de atuação comum.
Esse setor não via qualquer contradição entre a existência
de OT (e sua filiação à QI-CIR) e a militância
no PT e na ART.
Em 1986, OT elegeu Clara Ant, dirigente nacional da tendência,
a deputada estadual em São Paulo. Essa vitória eleitoral
e a convivência comum entre seus principais dirigentes e
a cúpula da ART, contribuiu para o fortalecimento
dos vínculos entre ambos e gerou condições propícias à adesão.
Para esses, a ART aparecia como o ambiente inato
para a continuidade do combate pelas idéias forjadas na
militância internacionalista. Para os que não aderiram,
esse desfecho era uma capitulação política.
Esta cisão tem como causas diretas tanto a evolução de OT em sua
relação com a ART quanto os aspectos internacionais
determinados pela crise da IV Internacional.
As divergências no CIR-QI referem-se justamente
à política a ser seguida pela seção brasileira (OT)
em relação ao PT e sobre a estratégia para construir a Internacional.
Numa reunião, realizada em abril de 1987, Pierre Lambert
propôs a reproclamação ou refundação da IV Internacional,
tendo como referência o Partido Comunista Internacionalista
(PCI), seção francesa.
Após a reunião, sete membros do Conselho Geral (a direção da QI-CIR)
romperam com Lambert e se colocaram a favor da construção
de uma novo agrupamento internacional, restrito basicamente
a uma rede de contatos. Entre os que saíram estava Luís
Favre, com militância no Brasil.
Para os que mantiveram a tendência OT, essa divisão internacional
teve como pano de fundo um trabalho de arregimentação realizado
pela Internacional Socialista, que incorporou militantes
da seção francesa ao Partido Socialista. Os reflexos no
Brasil se expressaria na sedução do aparato da CUT e do
PT sobre a maioria dirigente, seguindo uma tática semelhante
à dissidência em nível internacional.
A parte que manteve a tendência – O Trabalho (maioria) Pela Reconstrução
da IV Internacional [6] – insistiu na política de aliança
preferencial com a ART. Nos encontros estaduais que
precedem o 5º EN, OT formou chapas em comum com esta,
elegendo vários delegados. A despeito de sua vontade de
manter essa coligação no encontro nacional, a ART
excluiu-o da sua chapa e ele concorreu isoladamente, obtendo
apenas 3,6% dos votos (insuficiente para eleger representantes
ao DN).
Na análise de OT, sua exclusão da ART, e consequentemente
do DN, foi provocada por um processo de estreitamento desta
“em favor de uma centralização que se dá por fora de um debate que clarifique
as eventuais divergências e que visa construir uma Corrente
excludente, cujos contornos políticos não estão claros para
suas próprias bases”. [7]
Sem dúvida, a recusa em dissolver-se foi o principal fator para sua exclusão.
Isso está relacionado à própria evolução da ART no
sentido de fortalecer seus laços organizativos e à defesa
de OT do direito de tendência. Por outro lado, era
uma atitude defensiva contra a pressão por sua diluição.
OT criticou a resolução
aprovada no 5º EN. Em sua avaliação, a aplicação desta resolução
seria o mesmo que instaurar o regime de “tendência única”,
isto é, o controle monolítico da maioria e a conseqüente
desqualificação das posições da minoria. Tal posição só
se justificaria por uma visão equivocada de socialismo,
na qual prevalece a ditadura do partido único.[8]
A crítica de OT expressa a posição das diversas Tendências organizadas.
Elas questionaram os limites impostos à sua estruturação
como tendência, o que seria distinto do status de partido
dentro do partido.[9] O balanço crítico às resoluções
do 5º EN e as dificuldades de se aliar ao núcleo
dirigente da ART indicam um novo rumo político da
tendência OT, num crescente distanciamento desta.
Era também uma fase de recuperação e saneamento dos efeitos devastadores
que a cisão provocara. A corrente buscava reunir os elementos
dispersos, refazer os contatos e reaglutinar a militância.
A referência internacional foi um fator de coesão. Sem ela
as dificuldades em manter a organização teriam sido maiores.
OT aprofunda sua crítica
à ART e às resoluções gerais do 5º EN, as quais teriam
“equívocos e debilidades teóricas que possibilitam o desenvolvimento
de sérios desvios políticos do partido em relação à sua
trajetória independente”. Para OT, um dos principais
problemas era a definição da política de acúmulo de forças.[10]
A divergência de OT, em princípio, não é em relação à consigna
do governo democrático e popular, mas no fato deste se fundamentar
na tese do acúmulo de forças. Para OT, este
governo nada mais é do que um “governo de transição para
o socialismo apoiado na auto-organização dos trabalhadores
e dos oprimidos da cidade e do campo”.[11]
A expressão governo democrático e popular seria apenas uma forma
de popularizar o governo de transição. Simultaneamente,
diverge da fórmula – levantada pela CS e outros –
do governo dos trabalhadores, a qual apenas serviria
para isolar os trabalhadores dos seus aliados potenciais
(a pequena-burguesia, setores semi-proletários e outros
setores marginalizados).[12]
Do ponto de vista de OT foi a ART que mudara sua política,
substituindo paulatinamente a ênfase no movimento de massas
pelo caminho institucional e priorizando as negociações
e as alianças com setores da burguesia. Essa involução
seria resultante de uma determinada leitura das resoluções
do 5º EN que, no extremo, representava a negação da história
do PT e sua transformação num “apêndice dos setores
liberais e dissidentes da burguesia”. As origens dessa virada
estariam nas confusões e omissões das formulações do 5º
EN.
Num balanço retrospectivo, esta postura reflete o entendimento de que
a política anterior de busca frenética de atuação comum
com a ART fora correta. A linha política adotada
posteriormente ao racha estaria motivada pelos mesmos elementos:
a construção do PT como partido operário independente e
numa perspectiva internacionalista.
É evidente que a ART mudara. Mas também O Trabalho, cuja
cisão significou perda de quadros e impôs a reformulação
da sua política. As divergências estão na qualidade e no
tipo de valoração destas transformações. OT evoluiria
à esquerda, aprofundando os laços com as forças políticas
que combatia anteriormente.
O curso à esquerda ficou patente nas prévias das eleições municipais em
São Paulo – com o apoio à candidatura Erundina – e a aproximação com os setores tidos como a esquerda dentro do PT.
Depois, a participação no governo Erundina e o rompimento,
com a demissão de Cardoni.[14]
É neste contexto que a Tendência participou da campanha eleitoral de Lula
em 1989. Nessa fase, OT atuou lado a lado com as
forças dentro do PT que desejavam imprimir um conteúdo classista
ao programa e à candidatura Lula: contra o pagamento da
dívida externa, pela reforma agrária sobre controle dos
trabalhadores, pelo salário mínimo do DIEESE. Em suma, por
um governo democrático e popular entendido como um governo
de ruptura com o capital e o imperialismo, de transição
ao socialismo.
Para OT, já o Programa de Ação de Governo (PAG) rifou as
reivindicações que davam o caráter de classe à campanha
Lula. Pensado como um programa submetido à Constituição
e à legalidade, o PAG seria a anteporta da política de amplas
alianças colocada em prática no segundo turno das eleições
de 1989. Na análise de OT, essa política resultava
no abandono da luta. [15]
Aos elementos de ruptura com a política anterior à cisão de OT,
acrescentam-se outros resultantes do processo desencadeado
no Leste Europeu. Em 1987, o lambertismo adotara
uma política de frente única com as diversas correntes que
romperam – ou estavam em processo de ruptura – com o stalinismo,
a social-democracia e as várias formas de nacionalismo.
Essa estratégia de transição [16], que pressupunha a flexibilização
da organização, ganhou impulso com a evolução dos acontecimentos
no Leste e a realização de atividades conjuntas. Seu ponto
culminante foi a realização da 2ª Conferência Mundial
Aberta, em Paris, nos dias 21 a 24 de junho de 1993.
Com a participação de 63 delegações nacionais, esta conferência
decidiu reproclamar a IV Internacional.[17]
Os reflexos dessa política no Brasil podem ser visualizados no caso Gnecco
e no processo de fusão da maioria da tendência Luta Pelo
Socialismo (LPS), uma dissidência da DS, formada
em 1984, cuja influência se restringia basicamente a São
Paulo. A LPS, ligada ao Secretariado Unificado (SU),
aproximou-se de OT no processo de recomposição das
forças políticas petistas, atuando em comum nos 6º e 7º
encontros nacionais.
Em seu encontro nacional realizado em 1990, a maioria da LPS rompeu
com o SU e decidiu aderir aos esforços de construção de
uma Internacional dentro da perspectiva de unificação dos
vários setores do movimento operário. O setor minoritário
manteve a tendência e a vinculação à corrente mandelista.
A IV Internacional lambertista viu a glasnost como
uma abertura política controlada pela burocracia, com o
objetivo de atenuar as tensões sociais geradas pelas reformas
econômicas e, assim, evitar a explosão social e manter as
rédeas do poder. A queda do muro de Berlim foi saudada positivamente
como a possibilidade de resgate
do verdadeiro socialismo.
No Brasil, OT reafirma a tese tradicionalmente formulada pelo trotskismo.
“A crise não é do socialismo, a crise é dos PCS
e do stalinismo, que, debaixo de diferentes rótulos
es e adaptando a mudanças na situação mundial, desde o final
dos anos 20 tem sido um freio no movimento revolucionário
internacional”. (grifos no original)[18]
Mas, se há concordância na análise geral, o mesmo não ocorre no específico.
Nesse, a avaliação de OT se aproxima da CS
e se distancia da DS. Essa última é criticada
pela defesa que fez dos aspectos positivos da glasnost.
Segundo OT, esta posição significava acreditar
na capacidade da burocracia se auto-reformar e, desta
forma, obscurecer seu papel restauracionista. OT
acusa a DS (e o SU) – de serem “agentes do
stalinismo travestidos de trotskista”. “Para a DS,
a “glasnost” é positiva, contrariamente à perestroika. Não
vêem que a primeira é necessária à segunda, como cobertura”,
afirma Anau.[19]
Compartilhando o otimismo revolucionário da CS, OT viu no
Leste Europeu o desenrolar de “uma revolução operária, no
seu conteúdo social mais profundo” pois se dava contra a
burocracia e estaria desenvolvendo "formas embrionárias"
dos órgãos de poder operário e democrático. A revolução
política estaria apenas começando. “A luta será longa, difícil,
cheia de obstáculos”, previa.[20]
A proximidade com a CS também se daria na luta concreta e nos embates
internos. Como essa, também OT foi ameaçado pela
direção majoritária, em 1990, de não ser reconhecido com
Tendência interna. A CEN alegou que recebera “de militantes
e de instâncias, diversas manifestações a respeito do comportamento
políticos partidário” dos adeptos de OT. Prudentemente,
o DN-PT não o caracterizou de imediato como transgressor
da Resolução sobre Tendências. Mas, autorizou a CEN
a estabelecer conversações com OT, no sentido de
obter seu compromisso político no tocante à estrita obediência
dessa resolução.[21]
Sem entrar no mérito das suas propostas políticas, as formulações de OT
sobre o PT – pelo menos desde 1983 – não dão margem a qualquer
dúvida sobre o seu combate por um PT estratégico. Como outras
organizações, OT considera legítimo e justificável
disputar politicamente suas posições no PT. Acham mesmo
que o dever de todo revolucionário é integrar-se nele, e
lutar por ele e com ele pelo socialismo. [22]
OT se mostrou surpreso
com a atitude da CEN e, reafirmando um compromisso há muito
tempo assumido, se opôs à sanção contra as demais correntes
que estavam na berlinda. Para OT, qualquer medida
contra estas organizações só deveria ser tomada após um
debate nos encontros de base e discutidas no encontro nacional.
Quanto às questões levantadas pela CEN, OT polidamente
aventou uma hipótese: não estaria a direção hegemônica petista
transpondo para o terreno disciplinar as divergências políticas
reais? [23]
De qualquer forma, a CEN convenceu-se que OT não infringira a Resolução
Sobre Tendências. Por outro lado, OT se comprometeu
a “avaliar com maior cuidado os seus métodos de atuação”
de acordo com a regulamentação aprovada pelo DN. Diante
disso, a CEN se posicionou por seu reconhecimento como Tendência
do PT. Este parecer foi confirmado pelo DN.[24]
A análise crítica da evolução do PT no período posterior ao 5º EN e da
conjuntura internacional pós-1989, constituiu-se no pano
de fundo que fundamentou as propostas de OT para
a atuação da esquerda na fase do governo Collor. Para OT,
Collor representava um governo fraco, marcado pela ilegitimidade. OT afirmou que esse
governo seria obrigado a impor uma política contrária aos
trabalhadores e a retomar o pagamento da dívida externa,
numa tentativa de “restabelecer o consenso burguês”.[25]
Por outro lado, OT avaliou que Lula e o PT saíram fortalecidos
da campanha eleitoral de 1989. A correlação de forças pendia
favoravelmente para o lado dos trabalhadores, não fora alterada
pela derrota eleitoral. Os erros que explicavam o insucesso
estariam na orientação legalista e institucionalista: o
respeito à Constituição e na busca obcecada de ampliar as
alianças com o PDT e PSDB no 2º turno. Foi essa orientação
que “apassivou o partido no momento final”, afirmou OT.[26}
Nessas circunstâncias, OT conclui que o governo Collor, ao tentar
implementar o “programa imperialista”, se chocaria com os
trabalhadores e a maioria da nação. “Muito rapidamente “Fora
Collor” ou “Abaixo a farsa Collor” se fará ouvir, iniciando
a desestabilização desse governo”, previu. Caberia ao PT
“coordenar e centralizar as lutas sociais na perspectiva
de um novo governo”. [27]
Para cumprir essa tarefa, ainda na avaliação de OT, o PT precisaria
“colocar as coisas nos eixos”: romper com a linha política
que prevaleceu no 2º turno na eleição de 1989, lançar candidatos
próprios nas eleições de 1990 aliada à uma campanha classista.
Nesse ponto, OT considera que era essencial a mudança
de rumo político das prefeituras petistas que afrontaram
o programa do partido. “Caso contrário, a preservação do
PT, de suas relações com as massas, exigirá passar à
oposição aberta a esses governos por uma questão de
coerência política”, enfatizou. (grifos no original) [28]
Esta tática visava resguardar o partido. OT descartou a atuação
como fração pública. Para a corrente, uma Tendência não
poderia ser “um partido-dentro-do-partido”. Isto seria negar
a natureza estratégica do PT, transformá-lo num “partido-ônibus”.
[29]
Essa política marcou a atuação de OT, numa fase de reafirmação
da organização em nível nacional. Por outro lado, forneceu
a base política para a atuação comum no 1º Congresso com
as forças que compuseram a tese 10 e a CS. Essa aliança
configurou um campo à esquerda em defesa do marxismo e efetivou-se
em temas como a votação sobre o direito de Tendências, o
Fora Collor!, na análise sobre a evolução do PT e
o resgate das suas origens etc.
Nesse congresso, OT fez um balanço positivo do PT. Porém, observou
que ele se encontrava numa encruzilhada: aprofundar a trajetória
de luta presente desde a sua fundação ou negá-la e se transformar
num partido da ordem. A segunda opção estaria condensada
na tese dos que propunham a refundação do PT. Estes, “arautos
de uma enganosa modernidade”, seriam uma ameaça à tradição
de luta, pluralista e democrática do PT.[30]
A ação comum no 1º Congresso desencadeou relacionamentos políticos novos
e fortaleceu a perspectiva de aprofundar os laços políticos,
dando-lhes organicidade. Mas, as avaliações sobre o resultado
desse congresso e suas conseqüências para o PT não eram
convergentes. Embora, OT e outras forças deste campo
concluíssem que este representara a vitória da direita petista,
não concordavam com a análise da CS.
Como vimos, este processo resultou na formação do NLPT. Mesmo
atuando nesse movimento e defendendo sua unidade – à base
de acordos e pelo voto da maioria – seus componentes tendiam
a desenvolver uma dinâmica própria nem sempre conciliável
com uma estrutura orgânica mais ampla. Nos aspectos essenciais,
estiveram juntos.
As diferenças, já observamos, se manifestaram em posturas diferenciadas
já na campanha de Lula. No primeiro semestre de 1995, a
corrente OT propôs que o partido rompesse com as
votações no Congresso Nacional em torno das reformas de
FHC e centralizasse sua atuação na mobilização popular pela
convocação da Assembléia Nacional Constituinte.
OT argumentou que o Congresso
Nacional era ilegítimo, fruto da manipulação nos meios de
comunicação e distribuição de concessões de rádios e TVs;
que não se opunha à luta institucional; e, que sua proposta
significava brecar o processo de desconstitucionalização
e colocar no centro da discussão as reivindicações populares.
Essa, em sua avaliação, seria uma saída democrática, pois a democracia
é o “respeito à vontade popular”. Se o congresso atual não
corresponde a essa “vontade”, então nada mais lógico do
que eleger outro. [31] OT retomou a posição do PT
contra o Colégio Eleitoral e pela não assinatura da
Constituição de 1988, como exemplos a serem seguidos. “O
PT não pode limitar-se aos marcos das instituições atuais,
antidemocráticas”, defendeu. [32]
Contra seus críticos, OT afirmou que sua luta é por uma Constituinte
soberana, diferente da promulgada em 1988, que fora tutelada
pela Nova República e pelas leis que sobreviveram
ao período ditatorial. Seu projeto pressupõe que a Constituinte
seja fruto da mais ampla mobilização popular, desde a base.
Isso seria a garantia da não eleição de outro Congresso
conservador e picareta.
Enquanto a polêmica se instalava
no NLPT, a corrente passou a organizar atos e reuniões
em todo o país, com o objetivo de angariar apoios à sua
proposta.[33] Na prática OT isolou-se da maioria
das Tendências no PT, inclusive no interior do NLPT.
Sua participação na chapa Socialismo e Democracia
no 10º EN do PT não incluía a concordância
com sua proposta.
“Será que por acaso alguém poderia esquecer
que sempre nos opusemos à vontade de alguns dirigentes
da Articulação de realizar chapas únicas nos encontros
do partido, chapas com tendências que mantém posições
opostas às da Articulação que nós defendemos desde o seu
surgimento em 1983?”, perguntava, em 1986, OT.
Como podemos ver, essa política foi adotada desde o lançamento
do Manifesto da Articulação 113, quando OT
ainda se chamava Organização Socialista Internacionalista
(OSI). Ver: Glauco Arbix e Raimundo Cunha. “A respeito
de uma discussão sobre as tendências no PT (resposta ao
texto de José Dirceu e Wladimir Pomar)”. São Paulo, 15
de abril de 1986, p. 01.
Quase que em choramingos, seus dirigentes
reclamam de José Dirceu e Wladimir Pomar por misturá-los
com as demais tendências do PT: “Não defendemos a idéia
de que a direção do PT seja reformista e que as tendências
que constituem o “bloco revolucionário” seriam a esquerda.
Por isso, nunca participamos desse “bloco” e defendemos
nossa participação na Articulação da qual fomos excluídos
contra a nossa vontade”. (as aspas no meio da frase são
do original). In id., págs. O2 e 06.
Um texto que ilustra esta postura é
Em Tempo de iluminados, escrito por Gabriel Marti
e publicado em formato caderno como documento da OSI,
em 1983. O título é uma ironia à DS, com quem a
organização polemiza.
Por uma Articulação permanente.
Boletim O Trabalho, julho de 1987. (Trata-se da
resolução aprovada no X Encontro).
Segundo os dados apresentados pela minoria
da direção nacional, 30 dos 46 dirigentes eleitos no IX
Encontro da organização, realizado em 1986, foram favoráveis
à dissolução. Das Coordenações Regionais, uma dissolveu-se
(a de Campinas-SP); outra dividiu-se ao meio (Minas Gerais)
e dez decidiram pela manutenção de OT (São Paulo, Vale
do Paraíba, ABC, DF, MT, GO, AC, CE, BA e PE). Dos 450
militantes estimados antes da cisão, 240 teriam ficado
com a minoria . Por esses dados, a direção minoritária
concluiu que a maioria das bases ficou em OT. In
id.
“Um balanço do 5º Encontro Nacional
do PT: o Partido saiu desarmado”. Boletim O
Trabalho, nº 8 (nº 262) extra, dezembro de 1987.
Id. Pois, como objeta OT: “Como
pode um agrupamento de militantes organizar-se, respeitando
estritamente as instâncias partidárias e a elas de submetendo,
apara influir na orientação do PT, sem fazer reuniões
(o que quer dizer um certo grau de coordenação e disciplina);
como pode (..) expor suas posições ao conjunto do partido
sem ter gastos materiais (e daí ter finanças próprias
e não aparelhar os recursos do partido), como pode ser
negado (...) o direito de divergir da “política geral
do PT”? O que é esta “política geral”?”. Evidentemente,
os que tinham uma posição de partido dentro PT também
concordariam com esta crítica.
Para Anau, dirigente da organização,
“a teoria, ou melhor, o método do “acúmulo”, constitui,
ou uma banalidade (“óbvio ululante”), desnecessária e
sem conseqüência prática, ou uma eventual armadilha política
para o partido, negando a dinâmica real (muito mais rica)
da luta de classes e desarmando-o face às suas tarefas
concretas”. Roberto Vital Anau. “Crítica da resolução
do 5º ENPT”. Cadernos O Trabalho 6, junho de 1988.
O Trabalho: Sobre a questão do socialismo.
(Tese 7) In: Teses para o 7º Encontro Nacional, op.
cit., pp. 78-80. Esta tese retoma os aspectos levantados
por Anau no artigo citado acima
Na gestão Erundina, Edson Cardoni, membro
de OT, foi o Presidente da Cia. de Processamentos
de Dados (PRODAM). Em dezembro de 1989, a CUT Regional/SP
solicitou apoio para enviar sua delegação à Brasília,
na caravana organizada pela Frente Nacional dos Prefeitos
a fim de exigir a liberação de verbas. Cardoni liberou 3.900 dólares para o pagamento
de aluguel de ônibus. Este ato resultou em polêmicas.
Cardoni assumiu a responsabilidade e defendeu sua legalidade
e legitimidade. Em virtude das divergências acumuladas
a prefeita demitiu-o. Em 04 de agosto de 1993, ele foi
condenado a 02 anos e 08 meses de prisão e pagamento de
multa. OT fez uma campanha nacional e internacional
em solidariedade ao mesmo. Seus advogados entram com recurso
no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, pela anulação
da condenação política de Cardoni.
Esta análise é feita retrospectivamente
em sua tese ao 7º Encontro.
A participação no Movimento Na Luta,
PT! insere-se nessa estratégia.
A delegação brasileira foi composta
por: Paulo Skromov (Executiva da CUT); Luiz Bicalho (diretor
do Sindsep-DF); Markus Sokol (CEN/PT); Luiz Carlos Alencar
(diretor do Sinttel-DF); Zilá Prestes e Regina de Sena
(Sindicato dos Enfermeiros-SP); Julieta Balestro (membro
do conselho do CPERS); Paulo Gnecco (Debate Comunista);
Oswaldo d’Andrade (Executiva CUT/SP); Arlete Sampaio (DN/PT
e do Sindicato dos médicos); Eduardo Cândido Alves (Sindicato
dos Químicos de Osasco e da executiva da CUT Regional/SP);
Júlio Turra (Coordenação do Elaspe); Luiz Gonçalves (presidente
da CUT Regional/SP e diretor do Sindicato dos Condutores;
e José Carlos Miranda (Executiva da CUT Regional/SP).
A “estratégia de transição” foi mantida.
O Trabalho: Sobre a questão do socialismo,
op. cit. p.75.
Roberto Vital Anau. “Socialismo: a discussão
está aberta no PT”. Caderno O Trabalho 9, agosto
de 1990, p. 33.
O Trabalho: Sobre a questão do socialismo,
op. cit., p.75.
DN-PT. O PT e as Organizações.
São Paulo, 25 de março de 1990. A íntegra desta resolução
foi reproduzida no jornal Causa Operária, abril de 1990.
Sokol,
mais recentemente, reafirmou esta idéia: “O futuro não
está dado, a sorte do PT ainda não foi decidida”. (Entrevista
ao autor).
Coordenação Nacional da Corrente O Trabalho
do PT. Em defesa do direito de tendência. São Paulo,
04 de maio de 1990.
Comissão Executiva Nacional. A situação
de “O Trabalho”. São Paulo, 14 de maio de 1990.
O Trabalho: Sobre a questão do socialismo,
op. cit., p. 81.
Ib. Sua tese afirma textualmente: “Abaixo
o Pacote, Fora a Farsa Collor! Por um Governo do PT”.
Neste encontro, as demais teses defendem que o PT se coloque
em oposição ao governo Collor. Segundo Sokol, foi OT
quem lançou a palavra de ordem “Fora Collor!”: em 1991,
no Congresso da CUT; depois algumas regionais do PC do
B teriam assumido esta tese; e, só então, que a CS
assumira.
Ele não credita a expulsão da CS a
esta questão. “Eles decidiram sair. Tinha um acordo com
a direção que ia sair, mas ela fez muito barulho e argumentou
que fora expulsa por causa disso”, afirma. (Entrevista
ao autor).
Na concepção de OT: “Uma tendência
se constitui e se justifica não pela existência de divergências
de princípio com o programa do Partido, o que deveria
levar a construir outro partido. Mas sim pela diferença
de apreciação sobre questões de tática, de aplicação dos
princípios comumente aceitos, que estão na base do surgimento
e construção do PT”. Nas idas e vindas da política, OT
resgata a resolução sobre tendências adotada no 5º
EN, a qual teria sintetizado a “experiência do PT
desde a sua formação”. (Ib., pp. 84-85).
Em defesa do PT (Tese 7). Coordenação
Política Geral do Congresso. Jornal do Congresso,
p. 42. Eles são “os transmissores, conscientes
ou não, abertos ou velados, da velha social-democracia
e de seus novos associados, os stalinistas fracassados”,
afirmou. A crítica é dirigida, principalmente, ao PPB.
“Por que assinar a Carta Aberta?”. O
Trabalho, 12.07 a 25.07.1995, p. 06. “O Congresso
atual pisoteia os direitos do povo. Não tem o direito
de continuar decidindo pela nação”, afirma OT.
“Estamos condenados a aceitar o ajuste?”.
O Trabalho, 12.07 a 25.07.1995, p. 05.
Em seu jornal de julho de 1995, OT
afirmou contar com duas mil adesões, em diversos Estados,
à Carta Aberta lançada por Sokol. (“Editorial”).
Nas páginas centrais, publica uma lista com as principais
adesões: Joelson Oliveira (Coordenação Nacional do MST);
José Carlos Rocha (Coordenador do Fórum pela Democratização
da Comunicação); Jorge Evandro (Presidente da CUT-PA);
Jairo Carneiro (Presidente da CUT-RS); Averaldo Menezes
de Almeida (Presidente do Sindipetro de Cubatão –SP);
Lauro Campos (Senador PT/DF) e outros. Os nomes citados
estão na ordem da lista publicada à página 04. Ver:
O Trabalho, 12.07 a 25.07.1995.
ANTONIO
OZAÍ DA SILVA
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