As
mudanças econômicas e sociais dos últimos anos vêm alterando
hábitos políticos que pareciam sedimentados em muitas partes
do globo. Mudanças de comportamento político muito bruscas podem
significar um choque cultural que abre caminho, muitas vezes,
ao populismo e às lideranças aventureiras carismáticas. Parece
que os sinais deixados pelas eleições ocorridas recentemente
no Peru, Irã e Inglaterra apontam para alterações políticas
muito significativas.
No
Peru, Alejandro Toledo foi eleito sob acusações de se envolver
com orgias e de ser um mentiroso compulsivo, o que possibilitou
o crescimento da candidatura de Alan García, cunhada pela imprensa
internacional de "populista de centro-esquerda". Seu
discurso é extremamente contraditório. Por possui fortes vínculos
com o mercado financeiro internacional, afirmou que atrairá
investimentos estrangeiros, estará alinhado à política norte-americana
e manterá a disciplinar fiscal. Contudo, Toledo chegou a prometer
a redução de impostos ao consumidor, aumento de salário aos
professores e isenção para empresas investidoras o que será
de difícil combinação com a proposta de aperto fiscal. O discurso
populista ronda suas intervenções públicas: incentivou, durante
toda a campanha, uma comparação de sua persona com a do maior imperador inca, Pachacútec.
Na
Inglaterra, Tony Blair reelegeu-se com o maior índice de abstenção
desde a Segunda Guerra Mundial (37%). Fez a maioria do parlamento,
mas não convenceu. Sua pauta de campanha sustentava a melhoria
de condições de vida (sob sua gestão os 40% mais pobres tiveram
sua renda inflada em 9%) ao lado da desregulamentação do mercado
de trabalho e apoio ao setor privado. Seus temas preferidos,
de uma agenda que hoje denomina de "Governança Progressista"
são: requalificação profissional, educação continuada, violência
relacionada ao tráfico de drogas, desenvolvimento sustentável,
multiculturalismo e "digital divide" (relação entre
novas tecnologias e antigas formas de comunicação). Blair chegou
a ser apoiado pela revista The Economist e pelo jornal The Times
por ser o candidato mais conservador (ele é trabalhista, a oposição
histórica ao conservadorismo inglês). Ou seja, na prática tudo
parece se confundir.
No
Irã o presidente Mohamad Khatami consegui se reeleger com mais
de 77% dos votos. Significa uma mudança profunda no conservadorismo
muçulmano. Khatami é apoiado pela juventude e público feminino,
que exigem as reformas iniciadas em seu primeiro mandato. Em
seu último discurso de campanha, afirmou que "o Irã pertence
aos jovens, que precisam de trabalho, habitação e liberdade",
um ataque indireto ao clero conservador, que percebe seus movimentos
para diminuir o poder da legislação islâmica (velayat-e
faqih). No mundo muçulmano, as instâncias políticas são
duramente cerceadas pelas instâncias religiosas. No Irã, o poder
religioso permanece nas mãos dos conservadores. Controlam o
judiciário e todo aparelho de segurança. A pressão popular pode
empurrar o país para um confronto político histórico.
São
exemplos esparsos, mas que demonstram algumas alterações importantes.
Uma forte mudança no comportamento social do mundo oriental.
Não apenas o Irã. No Japão, pesquisas recentes demonstram altos
índices de corrupção e disputa no interior do Estado. Desde 1996, as taxas de má conduta profissional
crescem vertiginosamente (aumento de 17% de casos ao
ano, chegando a 2 mil casos em 1999).
Outro
fenômeno é o do aumento do discurso carismático na política.
Este é o caso dos EUA. Bush é considerado pela imprensa internacional
como um presidente incapaz e despreparado. Mas seu estilo cowboy
e sua extrema simplicidade caseira aparecem como forte alimento
à popularidade. O sociólogo Richard Sennett já havia previsto
este movimento político na década de 70. Os novos meios de comunicação,
analisava, reforçam os vínculos emocionais da autoridade com
os eleitores, mas desmobilizam a fiscalização popular. Em outras
palavras, assistimos as campanhas pela televisão, criticamos,
decidimos, mas não saímos da poltrona. A política torna-se um
"bingo eletrônico", alçando ao estrelato políticos
histriônicos. A política vai se consolidando como espetáculo.
Num mundo em rápida mudança social, devemos compreender este
espetáculo como extremamente perigoso. Enfim, nunca a dimensão
pública aproximou-se tanto dos interesses privados.