1. Introdução
A guisa de introdução, começo com alguns exemplos aleatórios que presentificam
a idéia de ponto
cego:
Uma mãe aponta os defeitos de educação no filho da vizinha, mas demonstra
ignorar os defeitos de educação de seu próprio filho;
Um
teórico em educação que "falta com a boa educação" quanto
entre colegas e também quando com seus alunos:
Uma
mulher que sempre inicia projetos, sem no entanto "ver"
que nunca consegue terminá-los;
Um
criminoso não se considera devedor, mas sim, a sociedade. Da mesma
forma, para um terrorista, não foi ele quem começou, nem
seus atos são crimes hediondos;
No
jogo de xadrez, o observador externo tem visão mais abrangente para
possíveis jogadas
e noção do perigo proveniente dos próximos lances do adversário;
O
motorista do carro não consegue ver um determinado ponto atrás do
mesmo o que poderá ser-lhe causa de acidentes;
No
jogo perverso de ascensão ao poder, um candidato não quer reconhecer
que, na verdade, o que há de autêntico no seu discurso
é o que é velado: seus interesses pessoais de ganhos concretos
ou abstratos de prestígio
social ou de gozo narcísico e compensador de seus fracassos
íntimos.
Um
moralista que reprova nos outros o que está reservado
para si mesmo como um gozo secreto.
Não
escapa até mesmo o psicanalista,
que preventivamente precisa consultar um psicanalista
supervisor, uma vez que não está conseguindo entender
o porque seu cliente repete sempre a mesma história ou
sofre no mesmo ponto.
O
que está acontecendo que escapa ao entendimento da análise
clínica quando "o
paciente comparece e fala, mas está ausente de sua
fala, e o analista,
conjuntamente, fica ausente de sua escuta". (NASIO,
J.D., 1993, p.75).
2. A definição física-oftálmica, considera o ponto cego "um fenômeno da visão
humana segundo o qual, conforme
convergência e refração, pode-se ver o que habitualmente
permanece oculto: a possibilidade além da superfície,
o concreto afirmado na miragem"
Já no campo psicossocial, esse fenômeno aplica-se, por exemplo, ao
marido machista do livro de Lya Luft, quando diz: "minha
mulher não faz isso", "minha mulher não freqüenta
esses lugares", "isso é coisa de mulher. O "Menino",
personagem nomeado sem nome na narrativa, quase onipresente
no olhar decifrador da família enigmática e por isso mesmo
sabe mais sobre seu pai que este de si próprio: "Meu
Pai, tão cioso de sua propriedade, que sua posse [sua
Mãe] o mantinha
preso, sendo o forte residiria
alí sua fraqueza. Ele vivia numa perspectiva de
onde não se enxerga o essencial".
Do lugar de criança não contaminada com os pré-conceitos dos adultos,
portanto, situada num ponto estrategicamente privilegiado
"de baixo" ela vê o mundo dos adultos; ela pode
reconhecer as contradições de sua família. Posicionado
de modo estratégico, o Menino podia ver tudo sem ser visto.
Desse ponto camuflado, ele tudo via, as contradições
de sua família iam diluindo-se, tudo ia ficando-lhe transparente,
chegando mesmo a conseguir construir entendimentos dos
sobre os assuntos não ditos e, por isso,
mais complexos de sua família. Por exemplo: as
fraquezas e as traições do seu pai severo; o estranho olhar de sua mãe ("como
se soubesse muito bem o que queria: encontrar a hora e
o motivo de dizer não e sim"); o por que da depressão
do tio, a estrutura psicótica de sua avó que parecia destinada
a ter a juventude acabada sem realização de seus desejos,
o que quem sabe a levaria "ela enlouquecer de vez",
etc.
3. O ponto cego psíquico
Portanto, para além do olhar
físico, o ponto cego tomado psicanaliticamente,
é um ponto que parece se localizar
no Eu (Ego), cuja função seria solucionar um conflito
psíquico. Algo como: "não devo olhar o [que é interpretado
como] perigoso, não [devo] escutar o proibido, não [devo]
puxar as fantasias pela barra da saia para que venham,
para que cedam, para que voem" .
Ao que parece, todo ponto cego tem sua extensão: ser também um ponto
surdo. Ou seja, o indivíduo também não escuta algo
que o compromete ou que o coloca em contradição ou ainda,
que o obriga ao confronto com ele próprio, caso contrário o remeteria
a reconhecer um novo sentido e consequentemente o obrigaria
a mudar de atitude, certamente mais sadia e por isso mesmo
uma posição mais verdadeira em relação a existência como
um todo.
O cotidiano das relações humanas demonstra-nos que é possível olhar
sem ver e ouvir sem escutar.
É a vivência da alienação psíquica. O que não ocorre
com os animais, mas é próprio do ser humano, isto é, resistir
encontrar significação no que lhe é transmitido por outrem.
Ou seja, de certo modo todos estamos condenados a sermos
vítimas desse deficit ou perda de entendimento. Todos
somos determinados por represestações (idéias) tomadas
como perigosas e afetos fora de controle que nos obriga
a viver um momento de enceguecimento
ou de ensurdecimento.
É quando somos
barrados ou impedidos de perceber algo que na realidade
concreta pode não ter nada de perigoso, mas que em nossa
subjetividade carregada de representações ou idéias esta
é tomada como mau. O ato de ver como o de escutar, essencialmente,
consiste antes de ter passado pela filtragem de nossa
história afetiva e representativa. Consiste em nossa predisposição
de significar o que vemos ou ouvimos do outro algum sentido.
Em outras palavras, alguém predisposto a ver um traço
"x" em alguém, certamente, irá ver esse traço
"x" nesse alguém. Ou, uma pessoa, predisposta
a somente ver um ponto "y" (exemplos, um programa
de tv, ou uma reunião cujo assunto é de seu interesse),
provavelmente não perceberá em seu redor um incidente
"z" ou mesmo não saberá escutar (ou significar)
uma palavra importante de uma pessoa "w" tida
como fora da linguagem daquele grupo social.
Sabedor dessa tendência humana de "contaminação" daquilo
que é visto ou escutado, que Freud recomendava ao psicanalista,
primeiro, posicionar-se fora do olhar do cliente e, segundo,
manter-se em "escuta flutuante". Esse segundo,
implica em: a) não valorizar a priori, nenhum dos elementos
do discurso do analisante; b) o psicanalista deve cuidar
para que os seus pré-conceitos não poluam o sentido do
discurso do paciente. Ou seja, o dispositivo analítico
de "escuta" dever ser "flutuante",
único meio de acompanhar de modo especial a fala de alguém.
Assim, o que um leigo em psicanálise não encontra nada
que faz sentido no que o outro diz, ou só encontra um
sentido vulgar, a "escuta flutuante"-
aparentemente displicente e boba - consegue a proeza
mental de extrair várias hipóteses interpretativas, todas
carregadas de sentidos que explicam as prováveis causas
daquele enígma.
(Cabe-nos aqui fazer uma observação: A clínica médica é uma "clínica
do olhar", por sua vez, a clínica psicanalítica
se configura como uma "clínica
da escuta", inaugurada com o caso Emmy von N.
[aquela que disse
ao Freud: "não
se mexa! Não diga
nada! Não me toque! Não é preciso ficar me perguntando
donde provém isto ou aquilo, mas me deixar contar o que
tenho a dizer!"].
Pois bem, esperamos que o leitor tenha percebido
nesse artigo, que estamos usando a idéia de "ponto
cego", não no sentido físico ou médico -quer, enquanto
fenômeno óptico normal (ver, nota 2) ou cegueira real. Aqui, usamos o ponto cego, no sentido psíquico,
de enceguecimento,ou seja, que tem a ver com o simbólico
e que por sua vez faz parede-e-meia com a escuta, propriamente
psicanalítica).
4. O psicanalista é antes de tudo alguém que sabe escutar
A posição (e,
não profissão) de analista, implica estar disposto e preparado
para ir além de só ouvir, escutar alguém, quando diz, "Eu não sei mais..." ou, "Eu
nada mais tenho a lhe contar...". Diante dessas dificuldades
do paciente, é psicanalista aquele que, posicionado nessa
função, insiste: "É isso mesmo, você não veio aqui
para falar do que sabe, mas para falar do que você não
sabe falar...".
Desse modo, o posicionamento
analítico é de escutar "com o terceiro ouvido",
segundo expressão cunhada por Theodor Reik, em "No
início é o silêncio"(1926).
Vale a pena citar o seu último parágrafo: "O
analista não escuta somente o que está nas palavras, ele
escuta também o que as palavras não dizem. Escuta
com a "terceira
orelha"[sic!], escutando o que dizem o paciente
e suas próprias vozes interiores, o que surge de seu [...]
inconsciente. Um dia Maher fez esta reflexão: 'Em
música, o mais importante não está na partitura'. O mesmo
vale para a psicanálise, o que é dito não é o mais importante.
Parece-nos bem mais importante detectar o que o discurso
esconde e o que o silêncio revela .
No entanto, apesar de bem posicionado, e de cumprir com o tripé
ético de ser analista (isto é, análise pessoal, formação
teórica e supervisão), o mesmo não está livre de ser surpreendido
no campo de batalha da transferência,
deixando de enxergar
e/ou escutar
do que ele (o analisante) está dizendo; afinal, por que ele repete? Como disse Beinaert, alguém que toma a
palavra, com certeza demanda ser bem escutado. Mas, quantas
dificuldades impedem que o analista abra sua escuta! Quantas
coisas podem acontecer na pessoa do analista que se vê
instrumentalmente dividido: uma parte dele deve escutar,
outra parte corre paralelamente obedecendo aos imperativos
de produção de seu Inconsciente -
que nunca resiste, mas repete,
para não escutar. Essa constatação é preocupante,
pois, que acontece (também) com o analista quando
deixa de recordar em palavra, e passa a
repetir em ato? Como proceder
no jogo analítico, quando o
entendimento do relato lhe escapa?
Se o paciente entra em análise pelo momento
imperativo de repetição e sabendo ser esse um momento
de alto risco na continuação de sua própria análise, que
garantias tem o analista senão a sua experiência de analisante
e de ofício?
O que reconhecemos enquanto ponto cego no analista, vai desde um deixar
passar porque não soube ler/ não escutou / ou ficou barrado
por pré-conceitos, pela contra-transferência, logo, não
soube fazer uso clínico das coisas que o paciente lhe
trouxe. Lembro-me os tempos de estágio supervisionado
na faculdade, quando uma colega demonstrava seu constrangimento
diante do colonizo produzido pela seu paciente de 6 anos
durante a sessão. Ora, disse-lhe o supervisor, "cada
um dá o que pode; ele está oferecendo-lhe uma esculturinha,
esse é seu modo de produzir primitivo. Logo, virá a palavra,
no lugar do impulso". Siga em frente que você está
fazendo um bom trabalho analítico". Minha colega
estagiária de clínica, ainda não conseguia ver as expressões
do paciente para além do lugar comum. Foi preciso o toque do supervisor para ela entender que "estava
conseguindo acessar o código de cura" com aquele
paciente.
Por vêzes, escutamos de uma ou outra pessoa relatos de suas psicoterapias
que sem querer desvelam o anti-profissionalismo do psicoterapeuta.
Na verdade trata-se de um anti-terapeuta, porque: 1) se
aproveita da fragilidade do cliente e faz valer seu desejo
pessoal. Por exempolo, seduz seu paciente a trocar carícias
ou mesmo ato sexual; 2) usa o paciente para confessar,
ou relembrar sua história pessoal, que certamente caberia
em sua análise pessoal. No mínimo, falta a esse falso
profissional alfabetizar quanto ao seu inconsciente. Noutras
palavras, falta-lhe fazer sua análise pessoal, de onde
poderia aprender a distinguir lugares e funções e qual
é a verdadeira posição
do analista ou terapeuta. Em pseudo-terapeutas, os pontos
cegos e surdos impedem-no ao exercício da terapia. Ademais,
ainda, quando ele pensa estar assim ajudando o paciente,
trata-se de auto-engano
ou cinismo. De qualquer forma, em ambos
houve grave falha na sua formação profissional ou de personalidade.
Freud, escreveu que, no fundo, é o equilíbrio de personalidade
do terapeuta que leva o paciente a se curar.
A propósito, quanto a formação de psicanalistas, Freud em 1910, no
artigo "Psicanálise selvagem", apontou que muitos
cometem erros teóricos,
técnicos e clínicos sobre a psicanálise. A conseqüência
de uma incultura e falta de experiência analíticas, levaria
o jovem analista, por um lado, a deixar passar desapercebido
certos conteúdos significativos da fala do cliente, e
por outro, a situação transferencial poderia provocar
no analista "compulsões à interpretação", expressão que Freud pede emprestado de Ferenczi.
Trata-se de um momento
em que as repetições e actings do
cliente terminam por testar o grau de habilidade técnica
e as vezes tendem a colocar em cheque a estrutura psíquica
do psicanalista confuso com seus sentimentos e idéias.
Assim, a compulsão à interpretação, é quando o jovem analista
está ansioso em ser reconhecido no seu lugar de operador
clínico, que ainda inseguro na sua posição de analista
se deixa levar por respostas fáceis tudo o que o paciente
pede ou provoca. Um analista selvagem, estaria na contramão
da clínica analítica, na medida em que gratifica
a neurose do paciente com palavras vazias ao invés de
fazê-lo falar ou produzir sentidos. Entre a suspeita precavida
de estar preso a um ponto
cego e o sentimento imperativo
que se vê devedor do cliente, corre-se sério risco de
analisar as cegas.
O analista selvagem se vê conduzido pela
segunda opção, esperando que
chegará o momento do acaso levá-lo à acertar
a decifração definitiva.
Enfim, a preocupação freudiana, desde 1910, com os analistas ou terapeutas
selvagens, até hoje procede, pois eles podem trazer malefícios
a muitos pacientes, mais do que alertam as aulas e seminários
nos cursos de formação de psicoterapeutas.
Ao que pudemos deduzir, essa cegueira, mais freqüentemente ocorre
no trabalho analítico e terapêutico nas primeiras entrevistas,
quando há inexperiência e inabilidade especialmente
para operar com a função
transferencial, que como se sabe não está no lado
do analista, mas do lado do
analisante. A função do analista é saber utilizá-la com "tato clínico",
e dar-lhe um sentido.
Será necessário, esperar um tempo de preparo e
um trabalho de elaboração após
cada contrato, também em cada fracasso e até mesmo
quando ocorrer um acerto de intervenção clínica com efeitos
de cura.
5. Conclusão
Já sabemos que os seres humanos são desejantes e por isso mesmo,
faltosos. Uns são menos faltosos, isto é, menos deficientes (deficits) que
outros marcados por pontos cegos e surdos onde podemos
reconhecer em
última análise, "patologias psíquicas". Qualquer
pessoa, vítima do seu ponto cego ou surdo "não sabe
de sua deficiência", vale dizer, a mesma vive em
meio a um ponto ignorância. Desgraçadamente, a ignorância
não faz sua vítima reconhecer sua falta e procurar melhorar
seu domínio de verdade. Por outro lado, os outros percebendo
sua cegueira ou surdez psíquicas, comentam entre eles,
criticam-no sem piedade, mas dificilmente ajudam. Acredito
que, quanto maior é o ponto cego ou de surdez maior é
a sombra da ignorância que se abate sobre o sujeito. Provavelmente,
também não serão poucas as críticas que o desgraçado levará
pelas costas. Nos nossos costumes atuais, dificilmente
há alguém com coragem ou habilidade de arriscar-se a revelar
o que ele vê no amigo, no colega ou no vizinho. Afinal,
não somos autorizados a revelar ao outro coisas que somente
a ele diz respeito, mesmo que for para o bem dele.
Muita gente aos olhos dos outros deixa-se estigmatizar-se como ridículos
nas falas, na expressões do corpo, dos sentimentos e mesmo
nas idéias tomadas como confusas, contraditórias, ridículas
ou loucas. Há um tempo em que o ponto cego e surdo é menos difícil de
ser denunciado para que a criança ou adolescente realizem
um trabalho psíquico alí. No entanto, na fase adulta,
só resta mesmo a clínica psicanalítica o dever ético-clínico
de denunciar com tato e consideração o que está prejudicando
nas relações sociais e na existência. Mesmo assim, reconhecemos
serem poucos os profissionais bem preparados para intervenções
clínicas tão elásticas que vão desde a sutil pontuação
até a interpretação e atos que vão iluminá-lo num todo.
Nesse instante, a intervenção clínica funcionaria como
denúncia que provavelmente bateria de frente com a
bela visão (narcísica) que o paciente tem de si mesmo.
Nesse sentido, lembro-me da "Alegoria da caverna", escrito por Platão e o filme "O
enígma de Kaspar Hauser", de W. Herzog. Em ambos
os casos, os personagens estavam tão acostumados a um
mundo pequeno e sem luz do dia, enfim, viviam apequenados
no seu mundinho imaginando ser o melhor dos mundos possíveis.
Mas, uma vez expostos a luz, ao espaço externo, amplo,
vivo, o mundo de onde vinham parecia-lhes mesquinho e
enganoso. Num primeiro momento, a luz causou-lhes cegueira
mas, tão logo estavam refeitos do choque visual,
um mundo de descobertas e
de possibilidades infinitas, aparecia. E, uma vez acostumados
à essa nova realidade, suas
existências eram resignificadas, isto é, parecia
ter mais sentido do que quando viviam no
mundo de sombras..
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