A tragédia da Saúde Bucal no Brasil

 

Por GILBERTO PUCCA JR.
Diretor da Vigilância Sanitária na Prefeitura de Maringá (PR) e docente no Departamento de Odontologia (UEM)

No Brasil, todos são iguais perante a lei, como afirmaram quase sempre nossas constituições. Só que parece, existem alguns indivíduos que são "mais iguais" do que os outros, pois como consta no art. 196 de nossa atual Constituição: ‘A Saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos’.

Quando observamos o atual quadro sanitário odontológico constatamos que em nosso país, com cerca de 150 milhões de habitantes e 120 mil cirurgiões-dentistas, calcula-se que apenas 2,5 milhões têm acesso a cirurgiões-dentistas em clínicas privadas todo ano.

Da mesma forma, os dados oficiais mostram que mesmo entre aqueles que recebem acima de seis Salários Mínimos Mensais, 40% das pessoas chegam a 60 anos completamente desdentados. Para se ter uma idéia da tragédia destes dados, estima-se que, se todas as pessoas tivessem acesso a atendimento odontológico, necessitaríamos que todos os cirurgiões-dentistas trabalhassem 8 horas por dia durante 30 anos, desde que neste período não surgisse mais nenhuma manifestação de doença bucal, para que conseguíssemos cobrir todas as necessidades da população.

O problema é que, entre outros títulos que nada nos dignificam. o Brasil é considerado o campeão mundial de cárie. Esses números tornam-se ainda mais dramáticos quando se observa que 81 % dos gastos com assistência odontológica são realizados no setor privado, o qual cobre apenas cerca de 10% da população.

Estas constatações nos mostram que, como em outras áreas, a odontologia brasileira prima pela contradição. Se por um lado possuímos um aparato tecnológico e humano à altura dos países mais desenvolvidos, por outro excluímos a imensa maioria da população deste direito mínimo.

É preciso em primeiro lugar inverter drasticamente o eixo dos financiamentos, ou seja, verba pública tem que ser aplicada no setor público.

Em segundo lugar, precisamos superar urgentemente a dicotomia histórica colocada entre a prevenção e a cura. Esta superação transcende inclusive uma reforma curricular das universidades, que não preparam seus alunos para a realidade social existente, pois desta deriva seu quadro patológico específico.


GILBERTO PUCCA JR.

     

 


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