O
deputado Divanir Braz Palma (PST) apresentou à Assembléia
Legislativa do Paraná Projeto de Lei que autoriza o
Poder Executivo a restringir a gratuidade nos cursos de graduação
nas universidades públicas estaduais. Pelo projeto,
a gratuidade ficará restrita ao primeiro curso no qual
o aluno se matricule e, em caso de repetência, o graduando
perderá o benefício.
O
nobre deputado alega que seu projeto objetiva "propiciar
maiores chances de acesso aos cursos superiores" e coibir
a prática do "estudante profissional", definido
pelo mesmo como "pessoa que, na busca de enriquecer seu
curriculum acadêmico ingressa em mais de um curso superior".
Mero
sofisma! O número de graduandos formados em outro curso
é tão ínfimo que não alteraria
nem minimante a relação vaga/candidato. Evidentemente,
deve haver um ou outro caso. Em minha experiência não
conheci, que me lembre, um único caso que seja. É
verdade que também não fico por aí a
inquirir os meus alunos se eles já fizeram outro curso,
não é meu papel.
Convenhamos,
se quero fazer outro curso terei que disputar a vaga com os
demais - não está garantido a priori que passarei
pelo funil do vestibular. Por outro lado, num mundo altamente
competitivo e em constante transformação, exige-se
mais e mais qualificação e nem sempre conseguimos
nos firmar no mercado naquela profissão que escolhemos
- sem contar que a escolha também pode se mostrar,
com o tempo, equivocada.
Observemos
ainda que a divisão taylorista do conhecimento induz
à especialização e que uma formação
mais abrangente pressupõe o domínio de conhecimentos,
pelo menos em áreas afins. Por exemplo, um administrador
que domine as Ciências Sociais e a Filosofia, teria
uma formação mais sólida; a formação
em História e/ou Psicologia muito contribuiria para
a profissão do cientista social; e, todas as profissões
em geral, ganhariam muito se tivessem uma formação
filosófica.
O
problema, ao contrário do que pensa o nobre deputado,
é que o mercado exige mais do que graduações
e a vida é curta. Somos obrigados a pensar na especialização,
no mestrado e doutorado. Em geral, não estudamos por
deleite, mas por necessidade. E, acima de tudo, se quero e
posso fazer mais de um curso, é um direito conquistado
dentro das normas estabelecidas!
Em
sua justificativa, o deputado afirma que a conseqüente
cobrança de mensalidade nos casos previstos "funcionará
como um catalisador entre a facilidade do ensino gratuito,
gozada pelo aluno, frente ao seu comportamento relapso e de
pouco esmero nas atividades acadêmicas".
A
cobrança de mensalidade torna-se uma punição,
um castigo ao aluno relapso. O deputado, já não
tão nobre, joga a culpa no discente. Outro sofisma
que, neste caso, oculta uma realidade que depõe contra
a aprovação/reprovação e encobre
uma injustiça. O deputado toma a aparência pela
essência. A repetência não equivale automaticamente
à relapsia. Repete-se também por vários
fatores, os quais não dizem respeito apenas aos alunos
(fatores estruturais internos e externos à universidade,
fatores concernentes à responsabilidade docente etc.).
A
aprovação, por sua vez, não configura
ausência de relapsia: a estrutura universitária
é pensada para o aluno não repetir. A rigor,
ele só repete por falta: a nota mínima exigida
é baixa e se o aluno não conseguí-la
tem a chance do exame final, podendo passar com nota 5.0;
um aluno que saiba minimamente 'empurrar com a barriga' passa
de ano tranqüilamente. Qual a diferença entre
um aluno aprovado nestas circunstâncias e aquele que
foi reprovado?
Este
é o foco central da questão: a prova não
prova nada. E por que não? Porque o que predomina é
o ensino decoreba. Desde a mais tenra idade escolar o aluno
é estimulado a memorizar conteúdos que servem
unicamente para tirar nota e passar de ano. O aluno tem que
aprender coisas como os países e suas respectivas capitais,
a extensão territorial do Brasil e conhecimentos inúteis
que só servem para tirar a nota e que, por sua vez,
estão disponíveis em qualquer enciclopédia
e, com as novas tecnologias, em CD Rom, na Internet etc. O
aluno não aprende, memoriza. Sua motivação
restringe-se à necessidade de ir bem na prova. Em certa
idade, ele é treinado para passar no vestibular e chega
à universidade, quando consegue, com graves deficiências
em sua formação.
O
universitário é vítima de uma estrutura
viciada que não pressupõe o aprender pelo aprender,
a reflexão crítica sobre os conteúdos,
as didáticas, a autoridade professoral e, muito menos,
o amor ao saber. O aluno chega à universidade com o
pensamento fixo na nota; viciado em tirar nota, perde a curiosidade
pelo saber, preocupa-se apenas em passar de ano e, para isto,
valem todos os artifícios.
Não
culpemos o aluno por isto. O professor também trabalha
com este paradigma. Em geral sua atitude docente restringe-se
a passar o conteúdo, anotado pelos alunos, e cobrá-lo
num determinado dia, no qual o aluno deve provar que aprendeu,
ou melhor, que memorizou. Mas é justo avaliar o aluno
por um momento da sua vida acadêmica? E se naquele fatídico
dia, ele, um aluno esforçado, estudioso, teve um problema
pessoal que o desestabilizou emocionalmente e comprometeu
o seu desempenho? E se simplesmente deu um branco?
Lembro-me
até hoje da tensão e, em alguns casos, do clima
de terror, do dia da prova. Na verdade, aprendi muito mais
com aqueles professores que estimularam a reflexão
crítica, a curiosidade e a busca do saber, e concediam
a liberdade e as condições necessárias
para realmente aprender, pois o aprender é um processo
que pressupõe compromisso pessoal com algo que está
para além do passar de ano.
O
aluno chega à universidade e se depara com uma estrutura
que prioriza a nota e não o aprendizado. Para começar,
há uma overdose de disciplinas e de conteúdos:
o aluno fica perdido em meio a tantas exigências, tantos
textos, livros para ler etc. O aluno descobre estratégias
de sobrevivência, que pressupõe até mesmo
a cola, os trabalhos encomendados, a reprodução
de conteúdos etc. O que importa é o canudo.
Ninguém
imaginou perguntar-lhe se tal ou qual disciplina lhe interessa,
o que é mais importante para a sua formação
etc. A estrutura lhe impõe tudo: disciplinas, conteúdos,
formas de avaliação. Não seria melhor
acreditar na sua capacidade de discernir, valorizá-lo
como sujeito do aprendizado - e não restringi-lo a
objeto cuja função é reproduzir o saber
do professor - e motivá-lo a aprender a ser livre e
responsável?
No
sistema atual, alunos e professores suportam-se por um período,
porque simplesmente foi decidido burocraticamente que deve
haver tal disciplina e que todos os alunos devem cursá-la.
Tal estrutura fortalece o poder do professor que, ao confundir
autoridade com autoritarismo, desempenha o papel de um pequeno
déspota em sala de aula. O aluno estuda pela nota e
o professor força-o a tal para impor-se, imaginando
discipliná-lo pelo terror da prova e pela chamada.
Há até os que se vangloriam porque em suas disciplinas
os repetentes são maioria.
Por
sua vez, os alunos tendem a não levar a sério
o professor que não adota tais procedimentos. Esse
é baba, imaginam! Eles até gostam do professor:
é que, novamente, o estudo se restringe a tirar a nota.
E, se é fácil conseguí-la, por que se
preocupar com o aprender? É claro que, tanto em relação
aos docentes quanto aos discentes, há as exceções.
Mas, como se diz, a exceção confirma a regra.
Ora,
a premissa do deputado é equivocada. Seu modelo pedagógico
funda-se na dualidade prêmio e castigo. O deputado imagina
que o castigo induzirá o aluno à valorização
do ensino público e a desenvolver uma atitude de respeito
para com a universidade. Em sua análise só valorizamos
o que conseguimos com dificuldades e sacrifícios. Mas
quem disse que a qualidade de repetente expressa automaticamente
desvalorização e ausência de sacrifícios?
Às vezes é justamente o oposto que ocorre: em
nome de uma estrutura burocrática que se pretende racional
o aluno é sacrificado. Valorizar a universidade é
cuidar da relação ensino-aprendizagem em bases
pedagógicas libertárias; valorizar a nota como
instrumento de premiar ou castigar é outra coisa.
No
sistema avaliativo predominantemente usado o prêmio
da nota é uma ilusão: não indica necessariamente
que o aluno seja suficientemente preparado para enfrentar
a competição do mercado. Ele pode ter estudado
apenas para aquela prova. E daí? Isto significa que
ele aprendeu? Que influencia terá isto na sua vida
ulterior?
Por
sua vez, a nota como castigo ao relapso, é uma perversão,
pois, inverte valores pedagógicos essenciais ao aprendizado.
O aluno reprovado - porque não conseguiu as melhores
notas ou não soube empurrar com a barriga - não
deve ser castigado. Pode até ser que naquele ano o
aluno não conseguiu acompanhar a disciplina por motivos
inerentes à sua vida particular. Ele deve ter uma nova
oportunidade. A reprovação deve ser concebida
como uma nova chance que lhe é dada para que possa
desenvolver suas potencialidades. Ele não deve ser
punido por isso.
O
aprender exige esforço, dedicação e,
sobretudo, interesse pessoal. Nenhum professor, por melhor
que seja, poderá ensinar se o aluno não desejar
aprender. Aliás, para isso é preciso que o ele
despoje-se do seu poder de vigiar e punir e adote a atitude
do educador que se educa ao educar.
O
deputado quer nos convencer que a restrição
da gratuidade contribuirá para um melhor aparelhamento
das universidades e propiciará uma melhor qualidade
de ensino. Que será que ele entende por qualidade de
ensino? Será a ausência de repetência?
Em alguns Estados não há mais repetência
no ensino fundamental. As estatísticas servem para
efeitos propagandísticos. Mas estão longe de
expressar avanços na qualidade de ensino.
Qualidade de ensino pressupõe investimentos na educação
básica e fundamental, melhoria de salários e
das condições de trabalho e exige o repensar
da estrutura pedagógica e de suas premissas. Se admitirmos
o raciocínio do deputado, teremos que aumentar o número
de repetentes, pois, se precisamos de dinheiro para melhorar
a situação nas universidades, devemos convencer
nossos alunos que será melhor para todos se eles derem
sua contribuição repetindo não apenas
uma ou outra disciplina mais sim o curso. E já que
estamos em época de racionamento, poderíamos
até combinar uma espécie de rodízio entre
os cursos e os alunos. Pelo menos ninguém teria que
se preocupar com notas e será um sacrifício
coletivo. Com tanto altruísmo, talvez então
sejamos valorizados!
Deixemos
de ironias! Talvez este projeto seja um balão de ensaio,
uma fenda por onde se introduz medidas privatizantes que retira
a responsabilidade governamental diante da educação
e passa-a para os alunos e professores. Seria mais honesto
escancarar as portas e propor a privatização
do ensino superior ou o pagamento de mensalidade por todos
os alunos. Por que entrar pela porta dos fundos?
E
antes que os paladinos da defesa da Universidade Pública
e Gratuita me acusem de qualquer coisa, pois as palavras têm
o dom de causar mal-entendidos, afirmo categoricamente que
concordo com a posição da Associação
dos Docentes da UEM, a qual "repudia toda e qualquer
tentativa de se instituir ensino pago ou taxas escolares para
os alunos do ensino regular universitário. A Universidade
Pública e Gratuita é um direito de todo o cidadão.
E a manutenção da mesma é um dever do
Estado". (Aduem Informa On-Line - Nº 27, 08 de junho
de 2001)
ANTONIO
OZAÍ DA SILVA