Nos dias
7 e 8 desse mês, a Universidade Estadual de Maringá (UEM) promoveu
um seminário sobre “Patentes e Direitos Autorais”. A temática
da propriedade intelectual, que o evento debateu, é de suma importância
para o futuro do país, das instituições públicas de ensino e de
pesquisa e para os seus pesquisadores. Mas o debate se torna mais
fundamental ainda, quando sabemos que a conjuntura econômica internacional,
ditada pelas corporações transnacionais e financeiras, estabelece
lugares distintos para esses tipos de relações. Enquanto alguns
poucos países, onde essas corporações
mantêm as suas sedes, estão se especializando cada vez mais em
fornecer projetos, marcas, protótipos, estratégias de marketing,
outros muitos países, periféricos, fornecem apenas franquias,
trabalho terceirizado, empregos flexíveis, ou em alguns casos,
cérebros.
Essa é uma relação desigual. Nos países
altamente desenvolvidos concentram-se todas as atividades e trabalho
de pesquisa, de elaboração de projetos, de testes de novos modelos
de produtos, e na realização de algumas fases estratégicas de
fabricação. Já para os países da periferia capitalista restam
as atividades de montagem ou confecção final dos produtos, ou
de representação comercial. Os resultados também são diferentes.
Enquanto nos países centrais a renda gerada por esses tipos de
investimentos, pelos royalties,
pelo licenciamento de marcas e remessas de lucros, que se traduzem
em bilhões de dólares, acabam impulsionando o desenvolvimento
econômico, social e cultural, o que tem reflexo imediato na qualidade
de vida dos seus cidadãos, traduzido em mais empregos, serviços
públicos de alto nível, atividades culturais mais intensas, alimentação,
moradia e vestimentas dignas, nos países periféricos, onde as
unidades industriais transnacionais altamente automatizadas se
instalam as relações são bem diferentes. Elas quase não geram
empregos, ou quando geram, contratam intermediários para recrutar
trabalho pessimamente remunerado (a chamada terceirização e as
"franquias"). As relações trabalhistas são aviltantes,
nos limites da escravidão, que chegam a escandalizar até mesmo
os cidadãos de seus próprios países de origem. O exemplo da Nike é significativo, pois foi denunciada nos Estados Unidos, pelas
condições de trabalho impostas às operárias que costuram os seus
tênis, nas Filipinas.
Ora, o debate sobre ciência e tecnologia
(e boa parte dos nossos doutos acadêmicos e políticos pensam apenas
em tecnologia e não em ciência) precisa ser realizado tendo em
vista os benefícios sociais que podem ser colocados à disposição
da população. O debate não pode ser apenas uma “abstração desmaterializada”
(os que debatem tecnologia, sobretudo, cometem esse erro), como
certa vez escreveu o historiador canadense, de saudosa memória,
George Rudé. Nós precisamos ver os rostos dos homens, mulheres,
idosos e crianças que queremos atingir.
Recentemente os partidos de esquerda, entre eles o
PT, lançaram um documento intitulado “Brasil, ciência e tecnologia”
que faz algumas reflexões nesse sentido. Mas o mais importante
do documento foi destacar que o povo brasileiro precisa dizer
que papel e que lugar quer ocupar nesta nova fase da história
que se inicia, ou seja, o que fazer nesse mundo altamente globalizado
e tecnologizado. E chama a atenção para o papel que deve exercer,
nesse sentido, a Universidade Pública brasileira. Sem dúvida ela
está convocada a exercer um papel de vanguarda na construção de
um País que almeja ocupar um lugar valorizado na divisão internacional
do trabalho, nesta chamada "era da informação".
Na medida em que o maior problema
do país ainda é a miséria e a exclusão social, na qual vivem milhões
de brasileiros, é fundamental que a Ciência, a Universidade
e os cientistas envidem esforços na busca de soluções para
os problemas que o mercado e as empresas não querem e não podem
resolver. O documento é feliz quando diz que, se se exige da Ciência
e dos cientistas considerações éticas quanto aos resultados dos
seus trabalhos, “nada pode ser mais ético do que orientar as pesquisas
para o atendimento das necessidades maiores de milhões de homens
e mulheres segregados das riquezas materiais e culturais” que
o sistema vigente tem produzido.
Por isso é fundamental redefinir a inserção do povo
brasileiro na divisão internacional do trabalho, procurando introduzir
o trabalho científico e tecnológico no interior da nossa economia
e da nossa sociedade. Mas isso só será possível se redefinirmos
a nossa política científica, tecnológica e industrial. Ela precisa
ter por meta “orientar a pesquisa e o desenvolvimento para elevar
radicalmente os níveis de educação e saúde do povo, democratizar
o acesso à informação e ao conhecimento e expandir postos de trabalho
nos ramos de atividade que se mostram cada vez mais economicamente
dinâmicos e geradores de renda”. Evidente que o Estado deve ter
papel estratégico nessa nova política, já que caberá a ele definir
as prioridades e mobilizar a comunidade científica. Portanto,
temos um grande desafio científico e tecnológico pela frente,
que é incluir a maior parte da nossa população nos benefícios
e resultados dessa nova realidade da sociedade contemporânea.
Deixemos, portanto, as abstrações desmaterializadas!