Por RUDÁ RICCI
Sociólogo,
Doutorando em Ciências Sociais, Professor da PUC (MG) e Escola
Superior Dom Hélder Câmara. Autor de Terra de Ninguém
(Ed. Unicamp) e Diretor da CPP
Consultoria em Políticas Públicas |
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Família
e Responsabilidade Social
Os
dados oficiais e de pesquisas recentes sobre estrutura familiar
merecem nossa atenção. Do IBGE vem a informação que as famílias
monoparentais, compostas por apenas um dos pais e filhos, cresceram
de 7,8% do total para 14,4%, nos últimos quinze anos. O mercado
de trabalho invade a vida particular e diminui o tempo de convívio
familiar. Os casais elegem, cada vez mais, as dificuldades enfrentadas
no emprego, como temas centrais das conversas de final de semana.
As separações entre casais passam a ser mais freqüentes porque
os projetos em comum começam a rarear. E, nas separações, é
a mulher quem se responsabiliza pela educação dos filhos, aumentando
a sobrecarga em sua rotina diária. Não é uma realidade apenas
brasileira. Nos EUA, as mulheres assalariadas realizam 75% das
tarefas domésticas e são auxiliadas pelos maridos em apenas
meia hora por dia. Nos anos 90, 79% das espanholas, 70% das
inglesas e alemãs, 60% das italianas e francesas afirmaram,
numa pesquisa envolvendo toda a Europa, que seus maridos não
auxiliam em nada nos afazeres domésticos. Esta cultura acaba
tornando natural que, nas separações conjugais, a mulher se
torne a responsável pela continuidade da educação dos filhos.
Tanto no Brasil, quanto na Europa e EUA, em 90% dos casos de
separação de casais, é a mulher que assume a guarda dos filhos.
Nem sempre a renda e a rotina de trabalho femininos são compatíveis
com as exigências da educação de seus filhos. Nos EUA, 80% das
mulheres ativas são secretárias, empregadas ou vendedoras, recebendo
baixas remunerações e rotinas extensas. O mito da autonomia
da mulher do século XXI não é realidade ainda.
Nas
pesquisas que nossa equipe vem realizando junto às famílias
de alunos de escolas públicas e privadas do país, percebemos
que o tempo de convívio familiar se reduz drasticamente nos
últimos anos. Em média,
especialmente na região sudeste, os pais convivem com seus filhos
por seis horas diárias. Quanto mais próximo do índice de pobreza
absoluta (menos de 60 dólares per capita), maior o tempo de
convivência. Esta situação parece muito positiva se compararmos
com os dados europeus e norte-americanos. Quando trabalham,
as mães européias e norte-americanas dedicam duas horas e meia
por dia aos filhos com menos de dois anos de idade. O pai dedica
menos de uma hora. Não obstante, o que os pais brasileiros denominam
de convivência é algo muito rarefeito. O maior tempo de convivência
(03 horas) ocorre ao final do dia. Nesse momento, os pais reúnem
a família e, em 75% dos casos pesquisados, assistem programas
de televisão. Não conversam. Não comentam. As atividades de
lazer mais importantes para os jovens não entram nas programações
familiares. O resultado mais significativo é a redução do universo
vocabular dos filhos e uma ansiedade que se dissemina por toda
a família. Em outras palavras, o tempo de convívio familiar
parece estar sendo roubado pelo mercado de trabalho. E os pais
começam a perder a noção da responsabilidade paternal. Imperceptivelmente,
começam a desconhecer a função social da família, a socialização
básica do código de comunicação (a língua materna) e dos valores
sociais. O sentido das palavras se dilui e são substituídas
por convenções sem significado. É comum, presenciarmos pais
que priorizam o lazer pessoal em detrimento da conversa com
o filho, em virtude do excesso de obrigações profissionais ao
longo da semana. Um procedimento que o psicólogo Jurandir Freire
denominou uma vez, em um emocionado artigo, de "adultescente",
ou seja, adultos que agem, como pais, com a mesma tolerância
típica de um adolescente, porque estão perdendo a imagem do
papel social do pai.
Daí
ser tão importante destacarmos iniciativas sociais de apoio
à formação de nossas crianças e adolescentes. Em outras palavras,
se nossa vida social vem desarticulando a família, iniciativas
comunitárias devem preencher este vazio de formação. Muitas
iniciativas parecem surgir nos últimos tempos. Um destaque nacional
são as iniciativas da Fundação Abrinq ou do Projeto Aprendiz.
Gostaria de citar uma
outra, não tão conhecida. Trata-se da iniciativa da Associação
São Miguel Arcanjo, em Barbacena. Conheci-a recentemente. É
uma experiência de abrigo para noventa crianças e adolescentes
abandonadas que apresentavam sinais de grave precariedade moral,
cultural e financeira. Recentemente, conseguiram adquirir um
sítio, onde estão construindo o que denominam "A Cidade
dos Meninos". Muitos educadores e missionários auxiliam
diretamente nesta iniciativa. Iniciativas como as citadas acima
podem florescer e construir uma nova sociabilidade social. Seria,
talvez, a própria sociedade civil construindo as solução que
precisamos para educar nossas crianças. São projetos que tratam
de situações extremas de abandono social. Por este motivo, deles
podem brotar soluções comunitárias preventivas, que acolham
todas crianças, paulatinamente privadas da presença de seus
pais.
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