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Comuna
de Paris - 130 anos
28
março – 28 maio 1871
(
62 dias que assombraram/encantaram/chocaram o mundo)
Vista
pela esquerda a Comuna foi a primeira experiência moderna de
um governo realmente popular. Um extraordinário acontecimento
histórico resultante da iniciativa de grupos revolucionários
e do espontaneísmo político das massas, combinando patriotismo,
republicanismo e socialismo, em meio à circunstâncias dramáticas
de uma guerra perdida (Franco-Prussiana) e de uma guerra civil
em curso.
Palavra-chave: criatividade instituinte.
Pressuposto: É possível viver
sob novas formas políticas e sociais, mais justas e igualitárias.
Motivação: tomar de assalto aos
céus.
Vista pela direita tratou-se
de uma aberração política, obra de fanáticos revolucionários
e de uma plebe ignorante que, ao afrontar as instituições, símbolos
e interesses burgueses-aristocráticos, mereceu o castigo exemplar:
nada menos que um banho de sangue, para repor esta gentinha
em seu lugar e pensar duas vezes antes de aventurar-se novamente
a ameaçar a boa sociedade.
Palavra-chave: pânico repressivo.
Pressuposto: A sociedade e seu
governo é uma prerrogativa (trans)histórica inextricável das
elites proprietárias.
Motivação: remeter os insurretos
aos infernos.
1. Reflexão histórica
Devemos nos precaver de duas
visões distorcidas dos processos revolucionários.Tanto uma visão
condescendente que tende à idealizá-los, quanto uma visão intransigente
e raivosa, que tende a demonizá-los. Fazer julgamentos peremptórios
depois da ocorrência de tais eventos revela usualmente um conhecimento
vulgar, ou então obscuros preconceitos ideológicos. Além de
inúteis, tais concepções, pela distorção da verdade ou pela
super-simplificação dos acontecimentos tornam impossível aprender
qualquer coisa da história.
Ler a história exige pois método
e modéstia; aprender com a história requer estudo e reflexão.
Lembrar e celebrar acontecimentos demanda empatia e compromisso.
Investigar o processo histórico
faz sentido para ajudar a compreender o presente. Através do
materialismo histórico pode-se chegar à compreensão e à crítica
da realidade social e ao desnudamento das suas contradições.
A partir destas reflexões podemos
agora rastrear o episódio da Comuna.
2. Experiência histórica
A Comuna de Paris foi um dos
mais gloriosos episódios na história da classe trabalhadora
mundial. Pela primeira vez na história as massas populares,
trabalhadores à frente, derrubaram o velho Estado e começaram
a transformar a sociedade. Sem planos, sem liderança ou organização
as massas demonstraram um elevado grau de coragem combativa,
iniciativa revolucionária e de criatividade institucional e
administrativa.
Nos dia 1 e 2 de setembro de
1870 o exército francês é derrotado em Sedan. No dia 4, em
Paris os trabalhadores invadem o Palácio Bourbon e forçam a
Assembléia Legislativa a proclamar a queda do Império de Napoleão
III. Á noite, a Terceira República é proclamada . Um governo
provisório de defesa nacional é estabelecido para continuar
o esforço de guerra e para remover os prussianos da França.
Na seqüência de outras derrotas diante dos prussianos em 27
e 31 de outubro, o governo francês decide abrir negociações
de paz. Em 31 de outubro operários e seções revolucionárias
da Guarda Nacional tomam o Hôtel de Ville (sede do governo burguês).
Sob a pressão dos trabalhadores o governo promete renunciar
e convocar eleições nacionais – o que não intencionava realizar.
Os trabalhadores assim enganados acabam vítimas das artimanhas
do governo, que restabelece sua dominação.
À 28 de janeiro Paris sitiada
pelos prussianos e esfomeada capitula. Depois de uma série de
concessões aos vitoriosos (na prática, traição ao povo) o governo
francês de Thiers, em 18 de março tenta desarmar os operários
(da Guarda Nacional) mas fracassa. Começa uma guerra civil
entre povo/operários de Paris e o governo instalado em Versalhes.
Em 26 de março um conselho municipal é eleito e a 28 proclamada
a Comuna de Paris. Tanto sua composição quanto suas resoluções
mostram um caráter marcadamente proletário. The London Times
de 29 março descreve os acontecimentos como uma revolução em
que predominou o proletariado sobre as classes ricas, o trabalhador
sobre o seu patrão, o trabalho sobre o capital.
As medidas e iniciativas da Comuna
foram, no entanto, relativamente moderadas, mas suficientes
para enfurecer a burguesia francesa e européia.
A Comuna suprimiu o serviço militar
obrigatório e o exército permanente, substituindo-o pelo povo
armado. Isentou os pagamentos de aluguel de moradias durante
o período da guerra; suspendeu a venda de objetos empenhados
nos estabelecimentos de empréstimos (mais tarde ordena a supressão
das casas de penhor, pois estas eram uma forma de exploração
dos operários); decretou a separação da Igreja do Estado; estabeleceu
um teto salarial para os funcionários públicos que não deveria
exceder ao dos trabalhadores; destruiu símbolos do chauvinismo
e de incitação do ódio entre as nações (a bandeira da Comuna
era a bandeira da República mundial); ordenou a ocupação das
fábricas fechadas pelos patrões e organizou o reinício de suas
atividades pelos operários organizados em cooperativas; declarou
extinto o trabalho noturno dos padeiros. A Comuna, porém, não
teve força ou clarividência para tomar e nacionalizar o Banco
da França, o que a deixou economicamente nas mãos de seus inimigos.
Politicamente a Comuna começou
a substituir a velha máquina do Estado por uma democracia mais
completa, pela substituição gigantesca de umas instituições
por instituições de tipo fundamentalmente diferentes. Tratava-se
de uma viragem da democracia burguesa para a democracia operária.
Como escreveu Lenine “A Comuna substitui o parlamentarismo venal
e apodrecido da sociedade burguesa por instituições onde a liberdade
de opinião e de discussão não degenera em engano, porque os
próprios parlamentares têm de trabalhar, executar eles próprios
as suas leis, comprovar eles próprios o que se consegue na vida,
responder eles próprios diretamente perante os seus eleitores.
As instituições representativas permanecem, mas o parlamentarismo
como sistema especial, como divisão do trabalho legislativo
e executivo, como situação privilegiada para os deputados, não
existe aqui.”
Precaveu-se a Comuna contra abusos
burocráticos e carreirismos de seus próprios funcionários e
mandatários, declarando-os demissíveis, a qualquer tempo. Pretendia-se
evitar que o poder governamental, como tradicionalmente ocorre,
se transformasse de servidor da sociedade em seu senhor. Preencheu
todos os cargos administrativos, judiciais e do magistério através
de eleições, mediante o sufrágio universal, conferindo aos eleitores
o direito de revogar a qualquer momento o mandato concedido.
Foram muitas medidas justas como
essas que tornaram a experiência da Comuna tão significativa
para as lutas posteriores dos trabalhadores. E tudo isto em
tão pouco tempo, numa cidade sitiada por exército estrangeiro,
e submetida à guerra civil internamente.
A Comuna, por tudo isto, era
intolerável para a antiga ordem burguesa-aristocrática, que
tratou de esmagá-la com ferocidade jamais vista.
Os operários e o povo da Comuna
foram finalmente abatidos diante da superioridade de recursos
de seus inimigos de classe. É certo que para esta derrota contribuíram,
em última instância, a fragilidade organizativa da Comuna, a
ausência de uma programa claro e objetivo, a inexperiência
política de muitos de seus membros dirigentes.
No final de maio de 1871 o exército
francês passa oito dias massacrando os trabalhadores e atirando
indiscriminadamente nos civis. Aproximadamente 30.000 foram
sumariamente executados, 38.000 aprisionados e 7.000 deportados.
Convém lembrar que a Comuna se
insere numa longa trajetória de lutas sociais. Só para mencionar
a França (mas de onde se irradiava para o resto do mundo) registre-se
as Revoluções de 1789, 1830, 1848, 1871, e outras tantas revoltas
e insurreições abortadas. O que se constata é uma continuada
situação de opressão e exploração capitalista, que tem gerado
o seu contrário, uma tenaz resistência dos povos, uma luta
secular pela emancipação que ainda está em curso.
3. Referência teórica
Da derrota da Comuna muitas questões
se colocaram para a reflexão teórica dos comprometidos com a
superação revolucionária do capitalismo. Outros tantos desdobramentos
se produziram sobre a organização do movimento operário internacional,
quanto à táticas de luta, formas políticas e ideológicas.
Do ponto de vista marxista, duas
principais questões se destacam: a primeira, um esboço de uma
teoria de Estado, com o conceito de “ditadura do proletariado”,
como instrumento e fase necessária para a transição ao socialismo,
para uma sociedade sem classes e sem Estado. Como escreveu Marx:
“A Comuna era essencialmente um governo da classe operária (...),
a forma política finalmente encontrada para permitir a realização
da emancipação econômica do trabalho.”
A segunda questão refere-se à
políticas de aliança, que evitassem o isolamento político da
classe operária; alianças a serem efetivadas com outros setores
subalternos, especialmente com o campesinato para promoverem
uma revolução vitoriosa.
Do ponto de vista anarquista
(fortemente presente na Comuna), se aprofundam e desdobram ênfases
no federalismo, na autogestão e na ação organizada voluntária,
múltipla e descentralizada para minar o monopólio estatal, formando
então uma rede organizativa não-estatal de uma nova sociedade.
4. Atualidade e perspectivas
Por mais sugestiva que tenha
sido a experiência da Comuna para as lutas futuras dos trabalhadores,
não convém tomá-la como paradigma para outros processos de tentativa
de superação do capitalismo.
Como se aprende com o materialismo
histórico, o que conta em cada situação é a dinâmica que as
lutas de classe imprimem ao processo histórico e não um modelo
dado ou esboçado em outras circunstâncias e por outros atores,
que deveria então ser tomado como protótipo.
O que Marx escreveu sobre a derrota
das revoluções em 1848 também caberia sobre a derrota da revolução
de 1871:
A comuna está morta! Viva a Comuna.
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