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Por JOÃO
FÁBIO BERTONHA
Doutor
em História e Professor da Universidade Estadual de Maringá |
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George
W. Bush e a nova “Guerra nas Estrelas”
Em 1983,
o presidente americano, Ronald Reagan lançou a idéia de um programa
para proteger os Estados Unidos de ataques nucleares. Batizado
de “Iniciativa de Defesa Estratégica” (IDE), foi logo apelidado
de programa “Guerra nas Estrelas”, devido ao caráter futurista
que se atribuía a ele.
Em termos estratégicos, o IDE não foi concebido como
um “guarda chuva” a prova de falhas, que protegeria cada centímetro
do território americano. Ele seria uma arma de dissuasão, capaz
de limitar drasticamente os efeitos de um ataque nuclear maciço
aos Estados Unidos e de preservar a arma central de seu arsenal
nuclear, ou seja, os mísseis balísticos baseados em terra.
Sem a certeza de causar danos incapacitadores aos EUA
e de destruir as suas armas em terra, a União Soviética jamais
se atreveria a um ataque de surpresa e a paz estaria, assim,
garantida.
Na sua concepção original, o “escudo espacial” funcionaria
da seguinte maneira: numa primeira fase, satélites de reconhecimento
detectariam o lançamento dos mísseis inimigos. Após serem processados
por gigantescos computadores, os dados dos satélites permitiriam
o posicionamento de satélites e estações espaciais armadas de
raios laser e o disparo de mísseis antibalísticos baseados em
terra, destruindo a força atacante antes que ela atingisse os
EUA.
Em síntese, a idéia de armas de energia e mísseis para
eliminar os riscos de um ataque nuclear não era nova. Os americanos
já vinham trabalhando com essa tecnologia há muitos anos. Os
soviéticos também investiam pesadamente nela e mantinham mesmo
um sistema de mísseis antibalísticos operacional em torno de
Moscou, enquanto os americanos tinham desativado o seu sistema
de proteção à América do Norte nos anos 60, por considerá-lo
ineficiente contra os modernos mísseis nucleares. A originalidade de Reagan foi a escala em que
ele imaginou a construção do sistema, a ser instalado em um
prazo relativamente curto e a custo de um trilhão de dólares.
No decorrer dos anos 80, as críticas a esse projeto
foram inúmeras. Desde técnicas (como a dificuldade em manipular
raios laser e o poder dos computadores necessários para processar
todas as informações) até financeiras e estratégicas. Para muitos
críticos, o sistema não protegeria realmente os Estados Unidos,
pois muitos mísseis balísticos passariam pelo escudo (para não
falar nos baseados em submarinos e aviões) e os custos acabariam
por afundar a economia americana.
Há indícios de que o presidente Reagan e parte substancial
do Pentágono acreditavam piamente na viabilidade do escudo espacial
para proteger os Estados Unidos. No entanto, em muitos setores
do governo e da sociedade americanas, ele não foi pensado apenas
como uma arma estratégica. Para o Pentágono e para a indústria
bélica e aeroespacial, ele significava um aumento substancial
das verbas disponíveis e um grande motor para alavancar a superioridade
tecnológica americana no mundo. Já para a “linha dura” do governo
Reagan, era uma maneira de colocar mais pressão na União Soviética,
que seria forçada a criar algo igual.
A cúpula soviética realmente se apavorou com essa possibilidade,
pois a economia do país, já em plena decadência, não só teria
como bancar essa corrida. A visão desses limites nacionais foi
determinante, aliás, para a ascensão de Mikhail Gorbatchev, e de suas propostas para
reformar o país, no
Kremlin em 1985.
Com a Perestroika e o fim da União Soviética, as justificativas
para um escudo espacial daquele porte desapareceram. Ainda assim,
dezenas de bilhões de dólares foram aplicados no desenvolvimento
da tecnologia do escudo no governo Bush (com resultados variáveis)
e a idéia passou a ser criar uma rede protetora bem menos ambiciosa,
baseada em mísseis de terra e com o objetivo único de proteger
algumas áreas chave do território americano.
O governo Clinton continuou a investir no projeto,
mas com um objetivo ainda menor: uma rede de radares, satélites
e mísseis antimísseis capazes de destruir apenas alguns mísseis
balísticos por vez. Seria esta a capacidade nuclear dos Estados
inimigos dos Estados Unidos (Irã, Iraque, Coréia do Norte) nas
próximas décadas e o escudo, portanto, teria apenas que lidar
com esta ameaça. Clinton,
porém, apesar de autorizar o desenvolvimento da tecnologia,
preferiu deixar para o próximo presidente a decisão de instalar
ou não o sistema.
Esse próximo presidente, George W. Bush, decidiu colocar
o plano em prática. A maioria dos especialistas militares acha
pouco provável que algum país se atrevesse a lançar um ataque
nuclear aos Estados Unidos (pois a resposta seria a sua eliminação
da face da Terra) e considera muito mais perigosos ataques bacteriológicos
ou nucleares via terrorismo. Além disso, é questionável se o
escudo realmente bloquearia os mísseis atacantes. Bush, porém,
parece convencido de que os obstáculos técnicos podem ser vencidos
e que a coisa certa a fazer é iniciar a implantação do sistema.
Na verdade, este projeto, em termos militares, se encaixa
como uma luva na atual doutrina militar americana: a guerra
só pode ser feita desde que não existam riscos de soldados ou
civis americanos morrerem.
Um escudo para proteger os civis americanos é uma derivação
lógica dos sistemas antimísseis que o Pentágono desenvolve para
proteger as tropas americanas em campo de batalha e da tradicional
preocupação americana em manter os efeitos de seus conflitos
internacionais fora do território do país.
Como aconteceu com o original, contudo, esse escudo
não é simplesmente uma arma. Ele também representa uma maneira
de injetar montanhas de dinheiro na indústria aeroespacial,
bélica e eletrônica americana, garantindo o predomínio americano
nesses ramos ainda por muitos anos e desenvolvendo agora a tecnologia
que dará, em 20 anos, o controle do espaço aos EUA.
Cortar programas sociais e investir na indústria bélica,
além disso, é uma tradição republicana que George W. Bush demonstra
seguir com clareza.
Não é difícil entender a irritação do resto do mundo
com os EUA. O escudo espacial, se funcionar, consolidará ainda
mais a supremacia militar americana e tem o potencial de reduzir
Rússia e China à categoria de potências militares de segunda
classe. Os europeus ocidentais também não se sentem satisfeitos
com essa demonstração do poder e da superioridade dos Estados
Unidos. No entanto, nem China nem Rússia têm condições de impedir
os desejos de Washington e nem de criar algo para se contrapor
ao projeto americano. A proposta recente de Putin, convidando
os europeus ocidentais a financiarem um escudo russo-europeu,
demonstra (se não foi apenas uma jogada de marketing) ou a ingenuidade
ou o desespero dos russos.
De qualquer forma, algo tem que ser creditado aos planejadores
americanos. Por mais que questões de momento (como distribuir
verbas, garantir empregos, etc.) estejam presentes nas decisões
sobre o escudo, ao menos parte da discussão sobre ele parte
dos planos e projetos para manter a supremacia econômica e militar
americana no mundo, ou seja, do seu projeto nacional.
Eles, ao menos, ainda mantêm um projeto e pensam o futuro.
Ao contrário de certos países, cujas elites só conseguem ver
o imediato e preferem pensar em garantir os lucros ao mercado
internacional, minimizar a incompetência que levou à crise energética
e sufocar comissões de inquérito no Congresso do que efetivamente
fazer ou propor algo para colocar o país realmente no século
XXI.
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